Índice de Capítulo

    Lou-reen caiu de joelhos com a Espada da Chama Eterna cravada no abdômen. A guarda encostava nela; a lâmina vibrava com calor preso.

    A chama não se espalhava. O Bracelete de Solun, no pulso de Serana, puxava sem pausa. Era uma tração constante, surda, que afinava o fogo na lâmina e fazia ele correr pra dentro do metal como líquido forçado por um tubo.

    Debaixo da pele, as veias dela pareciam rios de lava, grossos e incandescentes, acompanhando o ritmo do coração.

    Lou-reen apoiou a mão na pedra rachada. Ela tentou erguer o tronco, segurando a dor com disciplina, olhar preso no rosto da Multiplicadora.

    Serana fechou a mão no punho da espada e puxou de uma vez. A lâmina saiu com som de metal raspando onde não devia. Lou-reen inclinou o corpo pra frente, joelhos abrindo, a respiração falhando por um instante.

    Serana girou o braço e arremessou a espada pro lado.

    Ela avançou e acertou o rosto de Lou-reen com o punho. O impacto afundou a cabeça dela no chão; a pedra cedeu em lascas e poeira. Lou-reen tentou reagir, cotovelo buscando apoio, mas o corpo não obedeceu de primeira.

    Serana olhou além dela, como quem ouve um chamado que atravessava o pátio destruído.

    — Ele tá me chamando. E você tá no caminho.

    A presença que as duas tinham sentido lá em cima desceu e tocou o pátio com leveza. O vulto parou atrás de Serana, tão perto que a sombra dele cobriu parte do braço dela. Lou-reen arregalou os olhos, a mão abrindo na poeira, incrédula.

    Serana ainda encarava Lou-reen quando sentiu o peso nas costas. O pescoço dela endureceu. O Bracelete seguiu puxando, sem pausa. As veias sob a pele dela brilharam mais forte.

    Ela se virou com pressa, empolgada.

    — Clyve… eu sabia que você estava… vivo?

    Atrás dela estava Marco.

    Ou algo que havia deixado de ser Marco.

    O traje dele mexia por dentro. As juntas das placas abriam um milímetro e fechavam, repetindo, e um brilho negro vazava pelas costuras em filetes finos antes de sumir de novo. A presença que emanava de seu corpo era sufocante, ancestral, pesada a ponto de fazer o chão vibrar, os olhos transformados em dois abismos gélidos, sem compaixão.

    Serana recuou um passo, o sorriso esmorecendo, substituído pelo choque.

    — Você… não é ele.

    Marco caminhou na direção dela. Cada passada fazia poeira tremer ao redor. Quando falou, a voz saiu baixa, cortante, profunda, com um peso antigo.

    — Eu sei quem você é, Serana Vaelor.

    Ela engoliu seco. Aquela voz, aquela postura… Era como Clyve. O jeito de se mover, a frieza nos olhos, o silêncio que gritava mais do que palavras. Mas havia algo além, algo que nem mesmo Clyve possuía: ódio. Um ódio profundo e absoluto.

    Marco atacou sem aviso.

    O Cetro girou na mão dele com precisão seca, como se o punho já soubesse o caminho, em um traço negro de fúria cortando o ar.

    Serana tentou reagir, mas era tarde demais. O primeiro golpe pegou no ombro. O impacto estourou a articulação e jogou o tronco dela pro lado. A perna de trás arrastou na pedra. Marco já estava em cima.

    O segundo golpe entrou nas costelas. O corpo de Serana dobrou e girou, como se alguém tivesse agarrado uma placa de metal e torcido na mão. O ar saiu dela em silêncio, boca abrindo sem som.

    O terceiro veio reto no rosto.

    A cabeça dela estalou de lado e ela disparou pro alto. Passou dos muros quebrados, passou das telhas partidas, e ultrapassou a parede externa da fortaleza.

    Lou-reen, ainda no chão, ergueu o olhar com esforço.

    Serana mal teve tempo de perceber que estava no ar quando Marco apareceu abaixo dela no tempo exato. Ele ergueu a mão e agarrou o cabelo dela no meio da queda, dedos fechando perto do couro cabeludo. A descida dela travou no instante, o pescoço esticando, e o corpo inteiro pendurou.

    Serana tentou reagir com a mão livre, mas o braço não respondia direito; o ombro atingido não obedecia.

    Marco girou o corpo uma vez, puxando-a pelo cabelo como se fosse alavanca, e lançou pra baixo. Ela despencou na direção da arena já quebrada. As placas rachadas não seguraram. O impacto esmagou o chão e arrebentou algumas das estalagmites que Hamita tinha erguido antes; pontas de pedra estouraram e voaram em lascas, e uma cratera se formou ao redor de seu corpo inerte.

    Marco virou-se pra Lou-reen.

    Ela estava de joelhos, tronco inclinado, uma mão no chão pra não cair de lado. O rosto dela estava sujo de poeira e marcado onde Serana tinha acertado. A outra mão tremia perto do abdômen, dedos tentando fechar e falhando, enquanto ela forçava a coluna a ficar ereta.

    A tosse sacudiu o peito dela e o sangue escapou pela boca, quente, em gotas grossas.

    Marco ergueu o Cetro na direção dela.

    Na ponta, entre as mandíbulas da caveira de olhos de rubi, um fio escuro se puxou sozinho, engrossou, endureceu, e fechou numa flecha de arestas definidas, suspensa a um palmo da caveira.

    Lou-reen levantou o queixo um pouco, a garganta trabalhando pra engolir o gosto ruim.

    — Marco…

    A palavra saiu falha. O Cetro ficou imóvel, apontado. A flecha não foi liberada.

    Marco baixou o ombro um milímetro. A mandíbula dele travou; os dedos no cabo apertaram e depois cederam o suficiente pra mostrar hesitação.

    — Eu preciso destruir tudo e todos.

    Lou-reen forçou o cotovelo pra baixo, ganhou um pouco de altura, o bastante pra encarar ele de frente.

    — Você… não é um soldado… — a tosse cortou o resto. — Você é… um homem do céu.

    O Cetro vibrou na mão dele, seco, atravessando o braço.

    “Destruir.”

    A palavra repetiu na cabeça dele como comando.

    Lou-reen ergueu os olhos outra vez. A luz neles acendeu forte, limpa, e por um instante Marco viu um sol ali.

    O Cetro desceu um pouco.

    A madeira tremeu na mão dele, insistente. A vibração subiu pelo antebraço e empurrou o punho de volta. A caveira de rubis voltou a mirar o centro do peito de Lou-reen.

    Marco travou o braço.

    — Não.

    A palavra saiu mais dura do que ele pretendia. O Cetro vibrou de novo, teimoso, e a flecha escura na frente da mandíbula da caveira ganhou densidade.

    Marco fechou a mão no cabo até os nós dos dedos esbranquiçarem. Forçou o braço pra baixo, firme dessa vez, e manteve. A flecha desfez a ponta, virou fumaça grossa e sumiu.

    Ele foi até Lou-reen.

    Parou perto o suficiente pra ver a pele dela tremendo, e então se ajoelhou ao lado dela. Os movimentos vieram lentos, medidos, sem pressa. Ele passou os dedos pelo rosto dela e tirou uma trilha de sangue da testa com cuidado, sem arranhar a pele.

    Lou-reen tentou falar e só soltou um som fraco.

    Marco a envolveu com os braços e puxou o corpo dela contra o peito, sustentando as costas e a nuca. O traje dele encostou nas roupas dela e cedeu um pouco, adaptando o encaixe.

    — Me perdoa.

    A voz saiu baixa.

    Ele se levantou com Lou-reen nos braços. Um calor discreto passou das placas dele pro corpo dela. Onde o sangue ainda escapava, a pele começou a fechar em linhas finas, devagar, enquanto ele caminhava entre os destroços.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota