Capítulo 085 — Destruir.
Lou-reen caiu de joelhos com a Espada da Chama Eterna cravada no abdômen. A guarda encostava nela; a lâmina vibrava com calor preso.
A chama não se espalhava. O Bracelete de Solun, no pulso de Serana, puxava sem pausa. Era uma tração constante, surda, que afinava o fogo na lâmina e fazia ele correr pra dentro do metal como líquido forçado por um tubo.
Debaixo da pele, as veias dela pareciam rios de lava, grossos e incandescentes, acompanhando o ritmo do coração.
Lou-reen apoiou a mão na pedra rachada. Ela tentou erguer o tronco, segurando a dor com disciplina, olhar preso no rosto da Multiplicadora.
Serana fechou a mão no punho da espada e puxou de uma vez. A lâmina saiu com som de metal raspando onde não devia. Lou-reen inclinou o corpo pra frente, joelhos abrindo, a respiração falhando por um instante.
Serana girou o braço e arremessou a espada pro lado.
Ela avançou e acertou o rosto de Lou-reen com o punho. O impacto afundou a cabeça dela no chão; a pedra cedeu em lascas e poeira. Lou-reen tentou reagir, cotovelo buscando apoio, mas o corpo não obedeceu de primeira.
Serana olhou além dela, como quem ouve um chamado que atravessava o pátio destruído.
— Ele tá me chamando. E você tá no caminho.
A presença que as duas tinham sentido lá em cima desceu e tocou o pátio com leveza. O vulto parou atrás de Serana, tão perto que a sombra dele cobriu parte do braço dela. Lou-reen arregalou os olhos, a mão abrindo na poeira, incrédula.
Serana ainda encarava Lou-reen quando sentiu o peso nas costas. O pescoço dela endureceu. O Bracelete seguiu puxando, sem pausa. As veias sob a pele dela brilharam mais forte.
Ela se virou com pressa, empolgada.
— Clyve… eu sabia que você estava… vivo?
Atrás dela estava Marco.
Ou algo que havia deixado de ser Marco.
O traje dele mexia por dentro. As juntas das placas abriam um milímetro e fechavam, repetindo, e um brilho negro vazava pelas costuras em filetes finos antes de sumir de novo. A presença que emanava de seu corpo era sufocante, ancestral, pesada a ponto de fazer o chão vibrar, os olhos transformados em dois abismos gélidos, sem compaixão.
Serana recuou um passo, o sorriso esmorecendo, substituído pelo choque.
— Você… não é ele.
Marco caminhou na direção dela. Cada passada fazia poeira tremer ao redor. Quando falou, a voz saiu baixa, cortante, profunda, com um peso antigo.
— Eu sei quem você é, Serana Vaelor.
Ela engoliu seco. Aquela voz, aquela postura… Era como Clyve. O jeito de se mover, a frieza nos olhos, o silêncio que gritava mais do que palavras. Mas havia algo além, algo que nem mesmo Clyve possuía: ódio. Um ódio profundo e absoluto.
Marco atacou sem aviso.
O Cetro girou na mão dele com precisão seca, como se o punho já soubesse o caminho, em um traço negro de fúria cortando o ar.
Serana tentou reagir, mas era tarde demais. O primeiro golpe pegou no ombro. O impacto estourou a articulação e jogou o tronco dela pro lado. A perna de trás arrastou na pedra. Marco já estava em cima.
O segundo golpe entrou nas costelas. O corpo de Serana dobrou e girou, como se alguém tivesse agarrado uma placa de metal e torcido na mão. O ar saiu dela em silêncio, boca abrindo sem som.
O terceiro veio reto no rosto.
A cabeça dela estalou de lado e ela disparou pro alto. Passou dos muros quebrados, passou das telhas partidas, e ultrapassou a parede externa da fortaleza.
Lou-reen, ainda no chão, ergueu o olhar com esforço.
Serana mal teve tempo de perceber que estava no ar quando Marco apareceu abaixo dela no tempo exato. Ele ergueu a mão e agarrou o cabelo dela no meio da queda, dedos fechando perto do couro cabeludo. A descida dela travou no instante, o pescoço esticando, e o corpo inteiro pendurou.
Serana tentou reagir com a mão livre, mas o braço não respondia direito; o ombro atingido não obedecia.
Marco girou o corpo uma vez, puxando-a pelo cabelo como se fosse alavanca, e lançou pra baixo. Ela despencou na direção da arena já quebrada. As placas rachadas não seguraram. O impacto esmagou o chão e arrebentou algumas das estalagmites que Hamita tinha erguido antes; pontas de pedra estouraram e voaram em lascas, e uma cratera se formou ao redor de seu corpo inerte.
Marco virou-se pra Lou-reen.
Ela estava de joelhos, tronco inclinado, uma mão no chão pra não cair de lado. O rosto dela estava sujo de poeira e marcado onde Serana tinha acertado. A outra mão tremia perto do abdômen, dedos tentando fechar e falhando, enquanto ela forçava a coluna a ficar ereta.
A tosse sacudiu o peito dela e o sangue escapou pela boca, quente, em gotas grossas.
Marco ergueu o Cetro na direção dela.
Na ponta, entre as mandíbulas da caveira de olhos de rubi, um fio escuro se puxou sozinho, engrossou, endureceu, e fechou numa flecha de arestas definidas, suspensa a um palmo da caveira.
Lou-reen levantou o queixo um pouco, a garganta trabalhando pra engolir o gosto ruim.
— Marco…
A palavra saiu falha. O Cetro ficou imóvel, apontado. A flecha não foi liberada.
Marco baixou o ombro um milímetro. A mandíbula dele travou; os dedos no cabo apertaram e depois cederam o suficiente pra mostrar hesitação.
— Eu preciso destruir tudo e todos.
Lou-reen forçou o cotovelo pra baixo, ganhou um pouco de altura, o bastante pra encarar ele de frente.
— Você… não é um soldado… — a tosse cortou o resto. — Você é… um homem do céu.
O Cetro vibrou na mão dele, seco, atravessando o braço.
“Destruir.”
A palavra repetiu na cabeça dele como comando.
Lou-reen ergueu os olhos outra vez. A luz neles acendeu forte, limpa, e por um instante Marco viu um sol ali.
O Cetro desceu um pouco.
A madeira tremeu na mão dele, insistente. A vibração subiu pelo antebraço e empurrou o punho de volta. A caveira de rubis voltou a mirar o centro do peito de Lou-reen.
Marco travou o braço.
— Não.
A palavra saiu mais dura do que ele pretendia. O Cetro vibrou de novo, teimoso, e a flecha escura na frente da mandíbula da caveira ganhou densidade.
Marco fechou a mão no cabo até os nós dos dedos esbranquiçarem. Forçou o braço pra baixo, firme dessa vez, e manteve. A flecha desfez a ponta, virou fumaça grossa e sumiu.
Ele foi até Lou-reen.
Parou perto o suficiente pra ver a pele dela tremendo, e então se ajoelhou ao lado dela. Os movimentos vieram lentos, medidos, sem pressa. Ele passou os dedos pelo rosto dela e tirou uma trilha de sangue da testa com cuidado, sem arranhar a pele.
Lou-reen tentou falar e só soltou um som fraco.
Marco a envolveu com os braços e puxou o corpo dela contra o peito, sustentando as costas e a nuca. O traje dele encostou nas roupas dela e cedeu um pouco, adaptando o encaixe.
— Me perdoa.
A voz saiu baixa.
Ele se levantou com Lou-reen nos braços. Um calor discreto passou das placas dele pro corpo dela. Onde o sangue ainda escapava, a pele começou a fechar em linhas finas, devagar, enquanto ele caminhava entre os destroços.

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