Capítulo 109 — Sem lapidação.
Lou-reen subiu os dois degraus da entrada sem hesitar, corpo baixo, mão na guarda da espada. Parou diante a porta escura.
Ela escutou por um instante.
Não ouviu nem cadeira arrastando, nem voz abafada, nem passo correndo para os fundos. Nada de metal raspando em mesa ou estalo de fogo vivo. Só o vento passando pela lateral da casa e aquela pressão torta de essência vibrando lá dentro, irregular e insistente, do mesmo jeito errado que Halikah apontara na rua.
Lou-reen levantou a perna e chutou a porta. A madeira cedeu de uma vez; o trinco estourou para dentro, e o painel bateu com força na parede interna. Ela entrou com a espada na mão e varreu o cômodo com os olhos, buscando qualquer movimento.
O ar estava mais quente que o da rua, mas sem conforto nenhum, carregado com cheiro de casa fechada, tecido úmido e ferro velho; por baixo de tudo, a vibração da essência embaralhava o ambiente, tremendo de um jeito instável.
Nenhum ataque veio. O único movimento partiu de um homem no centro da sala, que se virou no susto com a invasão, ainda junto à mesa, as mãos sobre pedras brutas de selenita e o uniforme comum do Exército no corpo.
Lou-reen cruzou a sala antes que ele reagisse direito.
A mão do homem saiu da pedra e foi para a cintura. Ela bateu no punho no caminho, cortou o movimento com o antebraço e entrou no corpo dele com o ombro. A cadeira virou para trás e a mesa raspou no chão. No instante seguinte, o soldado já estava de bruços, com o braço torcido nas costas e o joelho da general cravado entre as escápulas.
— Fica.
A espada parou na lateral do pescoço.
O homem travou inteiro.
Lou-reen ergueu os olhos sem tirar o peso de cima dele.
A sala era pequena. Mesa, duas cadeiras, prateleira baixa, armário, cama encostada na parede do fundo. Panela fria perto da lareira. Um casaco pendurado num prego. Nada de sangue seco no chão, nada de corda enrolada num canto nem marca de arrasto. Nada de ferramenta estranha, jaula improvisada ou qualquer resto que apontasse para cativeiro.
O olhar caiu sobre a mesa.
Várias pedras pequenas de selenita bruta estavam espalhadas ali, ainda no estado bruto, sem lapidação nem acabamento. A essência presa nelas pulsava torta, escapando em pequenas variações que embaralhavam o ar do cômodo.
Lou-reen apertou mais um pouco o braço do homem, que travou sob o joelho da general.
— Eu não roubei, general. Juro. Não roubei. Era descarte do Exército. Já tinham separado pra jogar fora e eu só peguei antes.
Lou-reen olhou de novo para a mesa.
Bruta demais para uso fino, pura o bastante para segurar essência. Instável o bastante para vibrar torto daquele jeito.
A pressão errada batia com o que vinha da rua.
A menina tinha acertado.
Só não era o que Lou-reen esperava encontrar atrás da porta.
— E por que isso está carregado?
O homem hesitou. O joelho da general afundou mais um pouco nas costas dele.
— Eu… eu estava guardando.
— Guardando para quê?
— Pra uso próprio, general.
— Uso em quê?
— Pra jogar mais essência no aquecedor quando o frio apertasse. Pra guardar um pouco se eu precisasse sair pra patrulha. Pra emergência. — A voz falhou. — Eu sei que está torto. Eu sei. Mas funciona.
Lou-reen ficou mais um instante olhando para as pedras sobre a mesa.
A vibração torta estava explicada, o peso errado da essência também. Ainda assim, ela não tirou o joelho das costas do homem.
— Soldado.
A voz saiu firme para a porta arrombada.
— Pode entrar. Está limpo.
O homem no chão soltou um som preso, entre alívio e medo, sem tentar mexer um músculo.
Passos bateram na entrada. O soldado que ficara do lado de fora apareceu no vão com a espada em mãos, ombros tensos, olhar correndo pela sala inteira antes de pousar na general e no homem imobilizado no chão.
Lou-reen fez um gesto seco com o queixo.
— Fecha a frente e olha o resto da casa.
Ele entrou na hora, ainda atento, passando pela mesa sem tocar em nada. O olhar desceu um instante para as pedras de selenita espalhadas ali e voltou para os cantos, para o armário, para a cama, para a porta do fundo.
Nesse momento, passos vieram por trás.
Marlen surgiu pela abertura dos fundos com a espada baixa, entrando já com o corpo virado para cobrir o corredor e qualquer saída possível. O vento frio entrou junto com ela por um segundo e apagou parte do calor ruim que estava preso ali dentro.
Os olhos dela bateram no homem no chão, depois na mesa.
— Só isso?
— Por enquanto. — Lou-reen não aliviou a pressão. — Vasculha.
Marlen cruzou o cômodo sem pressa desperdiçada. Abriu o armário, olhou debaixo da cama. Conferiu o fogão, os cantos, a parede do fundo, a prateleira, o espaço atrás da lareira. O soldado fez o mesmo no outro lado, verificando o resto da casa.
Nada.
Não havia porta escondida nem alçapão, sinal de luta, resto de sangue, corrente, pano infantil ou qualquer coisa que ligasse aquela casa ao que Lou-reen estava caçando.
Marlen voltou para o centro da sala e parou perto da mesa.
— Limpo.
Lou-reen assentiu uma vez, então baixou os olhos para o homem preso sob ela.
A casa tinha saído da frente da investigação. A vibração errada continuava sendo real; só apontava para outra coisa.
— Certo — ela disse. — Agora você vai me dizer quem mais em Velunthar anda mexendo com selenita desse jeito.
Lou-reen tirou o joelho das costas dele, mas não afrouxou o braço torcido.
— Levanta.
O homem obedeceu em desordem, quase tropeçando nas próprias pernas. Ela o puxou até a cadeira caída, endireitou a peça com um toque do pé e o empurrou para baixo. A madeira rangeu quando ele caiu sentado.
Ele ficou ali duro, os ombros altos, as mãos pairando sem saber onde pousar. Os olhos não saíam da espada da general. O peito subia rápido demais.
Lou-reen soltou o braço dele só quando teve certeza de que ele não tentaria nada. Ficou de pé diante da cadeira, firme, ocupando a sala inteira sozinha.
— Agora fala.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.