Capítulo 098 — Eu vou resolver.
Halikah desceu as escadas ainda ajustando o laço da túnica azul-claro que usava fora do horário militar.
Na cozinha, Chralazar já estava sentado à mesa, mastigando uma fatia de pão com geleia. O cabelo castanho-escuro seguia bagunçado, e a camisa de tecido simples destoava do uniforme que Halikah insistia em vestir até quando ninguém pedia.
— Bom dia, dorminhoca.
— Bom dia. — Ela puxou uma caneca e encheu de leite. — Primeiro dia de férias. E eu vou pro mar.
Chralazar ergueu uma sobrancelha.
— O mar no inverno.
— Antes que a água congele de vez. — Halikah bateu a caneca na mesa, empolgada. — Eu e as meninas.
Ele pegou outra fatia de pão e puxou a caneca de leite pra perto. O aro de metal que abraçava o fundo tinha uma runa simples de aquecimento, o tipo que qualquer um imbuía com um fio de essência.
Chralazar encostou o polegar no traço gravado e tentou imbuir.
O traço da runa não acendeu.
Uma película opaca tomou o sulco gravado, endurecendo em cima do símbolo. O leite ficou do mesmo jeito, frio. Chralazar puxou a mão de volta na hora e girou a caneca, fingindo que só tinha ajeitado a posição.
Halikah viu, mas fingiu que não.
— E depois do inverno eu vou pra Fortaleza Ga-el. — As palavras saíram rápidas. — Academia. Centro do Império.
Chralazar voltou a sentar, o olhar nela sem pesar.
— E depois vai ser a nova general de Taeris, certo?
Halikah inflou o peito.
— Mais jovem que a Lou-reen. Vão me nomear com dezessete invernos. Eu já me vejo com o manto nos ombros.
Chralazar soltou um ar pelo nariz.
— Boa sorte.
Ele apontou o queixo pra caneca dela.
— Só não deixa o orgulho te cegar. Não é só força que faz um general. É cabeça fria.
Halikah deu um gole, como se o leite fosse combustível.
— Cabeça fria, lâmina quente.
Chralazar balançou a cabeça, o canto da boca quase subindo, quase.
O silêncio voltou por um instante. A cozinha ainda estava aquecida. Do lado de fora, o vento já vinha com frio, avisando que o inverno ia apertar.
Batidas rápidas na porta quebraram o ar.
Halikah levantou antes de pensar.
Elssien estava ali, boina na mão, cabelo preso de qualquer jeito. Os olhos dela correram pela entrada, passaram pela cozinha, pararam em Halikah.
— A Reinna tá aí?
Halikah travou, surpresa.
— Não. Por quê?
Elssien engoliu seco e deu um passo de lado, abrindo espaço pra pessoa atrás.
A mulher entrou e parou no vão da porta. Bota limpa, coluna reta, uniforme no lugar. O emblema do Exército no peito tinha arranhões fino.
— Sargento Marlen Veyl. — A voz veio firme. — Reinna é minha filha.
Halikah alinhou os ombros por reflexo.
— Senhora.
Marlen olhou a cozinha de cima a baixo num golpe de vista e voltou ao ponto.
— Reinna não voltou pra casa ontem após as aulas.
Elssien se apressou, a culpa querendo sair antes do ar.
— Ela… ela achou que ela tinha ficado com a gente. Ontem. Eu passei lá agora pra gente vir juntas pra cá… e aí…
Marlen não desviou o olhar.
— E ela não estava.
Halikah piscou uma vez, reorganizando tudo.
— Ontem a gente a deixou na rua da casa dela. Eu e a Elssien. Ela foi embora sozinha.
Elssien assentiu, rápido demais.
— Foi isso. A gente a deixou ali e veio embora, não foi? Eu lembro da gente virando a esquina.
— Vocês viram ela entrar?
Halikah travou um instante.
— Não.
Elssien mexeu a cabeça, pequena.
— A gente… a gente não esperou.
Marlen sustentou as duas por um instante.
— Já teve três desaparecimentos antes disso.
Elssien ficou branca. Halikah sentiu o estômago apertar.
— Três?
Marlen assentiu.
— Eu vou mandar avisar a General.
A caneca escapou da mão do Chralazar e virou na mesa. O leite correu pela madeira e pingou no chão. Ele se abaixou no reflexo, puxou a caneca de volta, e a frase saiu antes dele segurar.
— Não é cedo demais pra convocar a General? Talvez ela só tenha ido…
Marlen virou o rosto. Os olhos dela passaram pela camisa simples dele, desceram até o peito liso, sem emblema, e voltaram pro rosto.
— Com todo respeito, civil. — Ela não elevou a voz. — Isso é procedimento do Exército. Você não dá palpite no acionamento de uma General.
Chralazar engoliu seco e ele baixou o olhar.
— Sim, sargento.
Marlen voltou pra Halikah e Elssien.
— Vocês duas vêm comigo. Agora. Vocês vão me mostrar o ponto exato.
Halikah assentiu. Elssien apertou a boina e endireitou os ombros.
— Sim, senhora — as duas responderam ao mesmo tempo.
***
FORTALEZA GA-EL
A porta se abriu antes que ela encostasse.
Um tenente segurou a folha de madeira com as duas mãos, corpo meio de lado pra não ocupar espaço. Ele baixou a cabeça, respeitoso, e manteve a passagem livre.
Lou-reen entrou sem pressa. Passou por ele, o ombro roçando a distância mínima.
— Obrigada.
O tenente respondeu com uma continência rápida, firme, e ficou do lado de fora. A porta fechou atrás dela com um som único, pesado.
A sala do Imperador era grande, fria e prática.
Uma mesa de madeira hexagonal ocupava o centro da sala, larga, pesada. A superfície trazia Taeris entalhada em alto relevo; rios e serras saltavam sob a luz, e as rotas apareciam marcadas por cortes antigos e pontos de metal.
Ivoney Olaraeth estava de pé atrás da mesa, sem camisa. O manto escuro pendia de um ombro, pesado, com filetes laranja e dourados que pegavam a luz quando ele se movia. O corpo ainda parecia feito pra guerra, mesmo com o cabelo e a barba brancos.
Ele não perdeu tempo.
— Chegou uma mensagem de Yhe-for. Quatro pessoas sumiram de uma vila próxima ao mar. Velunthar.
Lou-reen foi até a mesa. A mão dela encostou no relevo do litoral, acompanhou a linha da costa, parou no ponto marcado.
— É no meu setor.
Ivoney manteve o olhar nela.
— Por isso você tá aqui.
Lou-reen não tirou a mão do mapa.
— O que já sabemos?
Ivoney foi até uma mesa menor encostada na parede. Pegou uma folha dobrada, voltou e abriu em cima do mapa.
— Lior. Soldado experiente. Lutou nas muralhas de Pyrco. Desapareceu na noite das Olimpíadas, durante o turno de vigilância. A espada ficou cravada no chão.
Lou-reen manteve o olhar no papel.
Ivoney desceu uma linha.
— Rhaed Vorn. Recém-saído da Academia.
Outra linha.
— Sargento Jorven Hale. Da cidade ao lado. Saiu procurando o Rhaed. Não voltou.
Ele respirou uma vez, controlado, e leu a última parte sem mudar o tom.
— Ontem: uma aluna do colégio não voltou pra casa depois do último dia.
Ivoney dobrou a folha pela metade, devagar.
— Tenente Kavren Iskell chegou hoje na vila. E não há nada que explique para onde essas pessoas foram.
Lou-reen assentiu, como se encaixasse tudo em uma única palavra.
— Eu vou resolver.
Ivoney ergueu os olhos e segurou o olhar dela por um instante a mais do que o necessário.
— Você tá bem?
— Sim.
O “sim” saiu rápido demais. Ivoney deixou o silêncio bater uma vez e falou sem tirar os olhos dela.
— Olimpíadas.
Lou-reen não desviou.
— Eu lembro.
Ivoney inclinou o queixo.
— Primeira vez que você caiu na frente de todo mundo.
A mão dela apertou o relevo do mapa. A madeira rangeu só no ponto dos dedos.
— Eu me levantei.
— Levantou.
Ele manteve o tom no trilho, sem elogio e sem bronca.
— E não parou desde então.
Lou-reen soltou a mão do mapa e ficou reta, como se isso bastasse.
Ivoney deu um passo lateral, ainda atrás da mesa.
— Eu vi você treinando com o estrangeiro. Eu vi você treinando sozinha.
Lou-reen não respondeu.
— Você tá ansiosa pra mostrar que merece o posto.
Ela travou o maxilar.
— Eu não preciso mostrar nada.
Ivoney manteve a voz baixa.
— Pra mim, não. Pra você.
Lou-reen engoliu seco. Os ombros não cederam.
— Eu mereço.
— Você quer uma vitória “limpa”. Uma que apague a queda.
A frase acertou onde ela não tinha armadura.
— Eu não perdi porque fui fraca.
Ivoney assentiu, uma vez.
— Eu sei.
Lou-reen prendeu o maxilar.
— Então qual é a lição?
— Você não controla tudo.
Lou-reen ficou rígida.
— Eu controlo o que depende de mim.
Ivoney encostou a ponta do dedo no mapa, em Yhe-for, e deixou ali.
— Você controla pra onde a espada vai. Controla a força com que ela acerta.
Ele ergueu os olhos.
— Você não controla quem escolhe entrar na frente da lâmina.
Lou-reen sustentou o olhar. A tensão não saiu do rosto dela.
Ivoney continuou, no mesmo tom.
— Derrota é comum na vida de quem luta. Se você vive tempo suficiente no Exército, você perde. Às vezes perde feio. Às vezes perde sem entender por quê.
Lou-reen abriu a boca, a resposta já na ponta. Ivoney cortou antes que saísse.
— Eu já perdi.
Ivoney ajustou o manto no ombro, um puxão seco no tecido.
— Voltei pra casa achando que não era forte o bastante pra estar aqui.
Lou-reen não piscou.
— Minha cabeça tá na missão.
Ivoney apontou o mapa.
— Ótimo. Então resolve pelo que tá acontecendo lá. Não pelo que aconteceu com você.
Lou-reen respirou pelo nariz, controlado.
— Eu vou resolver.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.