Capítulo 102 — Um troll.
Lou-reen deu um passo e chutou a porta.
A madeira abriu com um estalo e o ar gelado bateu no rosto de todos dentro da carruagem. Neve fina veio junto, riscando o banco, marcando o chão com pontos brancos que derretiam na hora.
— Fiquem aqui. Eu vou cuidar disso.
Ela saltou pra fora.
A bota afundou no barro duro, a sola rangendo no gelo escondido. Lou-reen já estava correndo, puxando a linha do corpo pra frente, ombro baixo, mão firme no cabo da espada.
Ela foi reta na direção do que puxava essência no escuro, afastando o ponto de choque das carruagens.
Uma silhueta surgiu no escuro do caminho.
Alta demais pra um homem. Larga, ombros cheios, braços pendendo como troncos. A neve batia nela e sumia na pele escura, sem brilho. O chão tremia, cada passo afundando e levantando placas escuras de barro.
O som veio antes do corpo terminar de aparecer. Um rugido baixo, grosso, vibrando no peito.
Lou-reen mediu a silhueta de cima a baixo, uma vez.
“Um troll.”
A lâmina da Lou-reen acendeu. Fogo correu pela extensão do metal e pintou a neve de laranja por um instante. O calor estalou no ar frio.
“Se for troll…”
Lou-reen correu direto nele, fechando os metros finais num fôlego só. A espada desceu na linha da perna, sem espaço pro troll reagir.
O fogo na borda chiou no ar frio e o tecido da roupa do alvo chegou a ficar marcado, uma faixa escura abrindo no tecido.
“Certo. Sem hesitar.”
A lâmina entrou. Por um micro instante, Lou-reen sentiu carne cedendo sob o metal em chama.
E então não havia nada.
A perna puxou pra trás no último segundo. O corpo inteiro saiu da linha com um salto seco pro lado.
“Rápido demais pra um troll.”
Lou-reen puxou a espada de volta e virou na direção onde a criatura tinha ido. Ela cortou a distância em duas passadas e saltou.
A lâmina desceu de cima pra baixo, pesada, buscando abrir o corpo no meio e terminar ali.
A criatura avançou no mesmo instante, subindo em direção ao peito da Lou-reen, fechando o espaço antes da lâmina terminar de descer. Um braço veio por baixo, duro como madeira, e bateu no antebraço dela.
A lâmina raspou no ar, desviada.
O impacto empurrou Lou-reen pra trás, a bota raspando no barro e no gelo escondido. Ela cedeu só o suficiente pra não cair, girou no próprio eixo e voltou a apontar o corpo pra criatura.
Lou-reen deslizou pro lado e fechou a linha da estrada, deixando as carruagens atrás dela. Girou a espada de volta pra guarda, a chama ainda viva no metal.
Ela deu um passo pra frente e armou o próximo golpe, mirando o pescoço.
O rugido veio de novo, mas por baixo dele saiu outra coisa.
Um som quebrado, de palavras mastigadas, como se a garganta não soubesse fazer aquilo.
Lou-reen congelou só o bastante pra ouvir.
O ar na frente da criatura ficou mais claro. A neve ao redor rodou, puxada pra um ponto. Uma esfera de fogo cresceu na palma dele, quente demais pra ser só chama de lâmina.
E voou.
Lou-reen desviou no instinto, corpo virando antes da cabeça entender. O calor passou perto e queimou a lateral do casaco, estalando no tecido. Atrás dela, a esfera bateu numa árvore na beira da estrada e explodiu. Casca voou em lascas negras. Galhos acenderam num clarão curto e a neve caiu em vapor.
“Troll não solta magia.”
Outra esfera se formou na mão da criatura.
Lou-reen baixou o ombro e já preparou o desvio.
A esfera veio. E não veio sozinha.
Luzes nasceram ao redor dele, ao mesmo tempo: na palma da mão, no ar à frente do peito, do lado do ombro, perto do chão. Esferas surgindo em pares, trincas, fileiras curtas, como se a noite estivesse cuspindo fogo a partir daquele corpo.
A estrada virou um corredor de clarões.
Uma chuva horizontal avançou em direção à Lou-reen, dezenas de bolas de fogo cruzando o espaço juntas, sobrepostas, em alturas diferentes. O calor bateu como parede. A neve no chão estalou e virou vapor onde as esferas passavam.
Lou-reen passou a ver só trajetórias e intervalos. Um clarão explodiu perto e jogou lama no ar. Outro riscou acima, cortando a neve em faíscas. Outro veio baixo, abrindo um sulco quente no chão.
Ela desviava e, a cada desvio, mais fogo já estava vindo, de novo, em bloco. Rápido demais pra qualquer humano.
A floresta ao lado da estrada começou a sofrer.
Explosões batendo em troncos, casca abrindo em lascas negras. Galhos acendendo e apagando em fumaça grossa. Neve virando vapor em nuvens curtas. O cheiro de resina queimada tomou o ar.
A voz do Grithin atravessou a memória dela, seca.
“Não trata a floresta como cenário. Ela respira. Ela é a nossa casa. Gente mora ali, humano, elfo, bicho. Se você solta fogo a esmo, é ali que vai queimar primeiro.”
Um riso escapou. Ela estreitou o olhar e focou.
Lou-reen disparou.
Ela entrou na chuva de esferas e continuou indo pra frente.
Uma veio alta. Lou-reen já estava passando por baixo com o ombro quase no chão. Outra veio por ali. Ela já estava no ar, joelho recolhido, pousando e girando no mesmo movimento. Duas cruzaram em X na frente dela. Lou-reen passou no vão entre as duas antes do calor encostar nela, cabelo e casaco tremendo com a onda.
Ela avançou no meio da chuva escolhendo espaços que apareciam e sumiam no mesmo instante. O fogo estourava atrás e ao lado, e ela já estava no próximo ponto. A neve virava vapor no caminho dela. O ar batia quente no rosto, depois frio de novo, depois quente.
Vieram mais duas juntas. Lou-reen virou de lado e passou. Outra veio logo em seguida. Ela baixou, subiu, girou, sem quebrar a corrida.
Duas explosões depois, ela já tinha fechado metade do caminho. Continuou indo direto pra criatura, enquanto novas esferas ainda nasciam ao redor dele.
Lou-reen entrou no alcance no meio de um clarão.
O braço esquerdo da criatura subiu por instinto, a pele grossa demais. O golpe dela bateu ali e desviou, raspando e soltando faísca no próprio fogo.
Lou-reen já girou no ar com o desvio, usando o impulso como curva.
A ponta voltou alinhada e a espada entrou no peito.
O rugido veio preso na garganta. Nos clarões das esferas e na chama da lâmina, Lou-reen encarou os olhos da criatura. Lágrimas quentes escorriam dali, abrindo trilhas na sujeira do rosto.
O corpo perdeu força e desabou no chão, pesado.
E, quando caiu, Lou-reen sentiu.
Essência vazando como uma maré, escapando do peito aberto e se espalhando no ar frio, fazendo a neve ao redor vibrar por um instante antes de voltar a assentar.
Lou-reen ficou um instante em guarda, respirando vapor no frio, sem tirar a lâmina do alvo até ter certeza que estava morto.
Nas sombras, dois pares de olhos observavam em silêncio.
Quando a criatura caiu, eles recuaram e sumiram na escuridão.

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