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    Na bancada, o que o ferreiro tinha cedido já estava todo aberto diante deles: uma base circular de metal leve, duas hastes estreitas para sustentação, um aro fino, um disco de vidro do tamanho de uma mão aberta, blocos pequenos de selenita bruta, lâminas estreitas de cobre, fio metálico enrolado em carretel curto, parafusos irregulares, presilhas, duas chapas finas para encaixe e um suporte estreito.

    Kalamera puxou a bandeja de peças para perto e já começou antes mesmo de sentar direito.

    Os quatro braços já estavam em funções diferentes ao mesmo tempo. As duas de baixo seguraram a base metálica. A da direita de cima encaixou a haste central no eixo. A da esquerda de cima separou os anéis finos de metal e deixou cada um alinhado na bancada, por tamanho.

    Marco acompanhou sem hesitar, já acostumado ao ritmo dela. Puxou a caixa menor para o próprio lado, abriu, e foi distribuindo o resto do material onde Kalamera alcançaria sem desviar o corpo. Disco de vidro aqui, fio fino ali. Ferramenta de corte mais para a ponta, selenita no centro.

    A oficina ficou só no som de metal tocando metal, vidro raspando leve em madeira, peça pequena mudando de lugar.

    Marco bateu o olho em tudo uma vez.

    — Pelo menos material pra errar a gente tem.

    Kalamera nem olhou.

    — Então tenta não gastar.

    Marco soltou um sopro pelo nariz, largou o parafuso de lado e puxou a corrente para fora da gola. O colar desceu até o peito com um brilho opaco no metal. O segundo que ele usava desde que chegara em Taeris.

    Ele segurou o pingente entre os dedos e ergueu um pouco, na altura do disco de vidro ainda solto sobre a mesa.

    — Esse aqui é um rastreador simples. O colar manda um sinal já sintonizado. O disco não procura nada sozinho.

    Kalamera ajustou a haste central sem tirar os olhos da peça.

    — Só aponta de onde o sinal vem.

    — Isso.

    Marco girou o colar de leve entre os dedos.

    — Um chama, o outro responde.

    Kalamera empurrou dois anéis finos para o lado, abrindo espaço no centro da base.

    — E o esse aqui não vai ter essa vantagem.

    Marco baixou o colar e o deixou cair outra vez contra o peito.

    — Não. A gente não vai esperar um sinal vindo do alvo. O aparelho vai mandar um pulso por conta própria… e ler o que o ambiente devolve.

    Kalamera levantou os olhos pela primeira vez.

    — Então isso vai devolver ruído de todo lado. Taeris inteira tem essência. Lareira, parede, chão, gente, metal, tudo.

    — Vai. Mas a gente não vai atrás do ruído todo. Vai buscar um desvio específico dentro dele. Um eco torto na faixa que a gente sintonizar.

    Marco pegou um dos blocos pequenos de selenita, virou entre os dedos e apontou com o queixo para ele.

    — A base da sintonia vai ser a essência residual do corpo da criatura da estrada. O que sobrou nele. Se a gente conseguir ajustar o mecanismo pra reconhecer esse padrão, ele para de responder ao ambiente como um todo e passa a procurar deformação nessa faixa.

    Kalamera encaixou a chapa fina na lateral da base e apertou com dois dedos de cima, firme.

    — E como isso vai separar uma coisa da outra?

    — Vai sair daqui, bater no que tiver pela frente e voltar. Se encontrar essência diferente, volta como eco comum. — Marco pegou o disco de vidro e apoiou com cuidado no aro. — Mas, se pegar uma essência muito próxima da que a gente usou na sintonia, parte do pulso acopla por ressonância. O eco volta deformado.

    — Deformado como?

    Marco fez um gesto curto com a mão, girando dois dedos no ar.

    — Como se alguma coisa tivesse mordido um pedaço do retorno. O bastante pra dizer que ali tem alguma coisa respondendo perto da mesma frequência.

    Ela voltou para a peça.

    — Então esquece alcance.

    — Já esqueci. — Marco prendeu o fio no primeiro ponto da base. — Isso aqui não vai varrer a vila. Vai funcionar perto. Dentro de casa, numa rua, talvez um pedaço pequeno de quarteirão se a sorte ajudar.

    — Leitura imperfeita.

    — Sim, mas é o que temos.

    Ela assentou o suporte estreito no centro da estrutura.

    — Bom. Ferramenta que faz tudo costuma fazer besteira também.

    Marco soltou um ar pelo nariz.

    — Essa aqui só precisa fazer uma. Confirmar suspeita em área curta.

    Kalamera apertou o encaixe até a peça parar de ceder.

    — Então vamos montar isso logo.

    Algumas horas depois, a bancada já não parecia a mesma.

    Peça solta tinha virado mecanismo.

    A base circular segurava o aro sem folga. O disco de vidro estava preso no centro, limpo, firme, com as lâminas finas de cobre correndo por baixo dele até a selenita encaixada na estrutura. Fio metálico cruzava a parte interna em voltas apertadas. As hastes sustentavam tudo sem ceder. Nada tremia, nada raspava onde não devia.

    Marco segurou o aparelho com as duas mãos, apontou para a parede da oficina e soltou um pulso curto de essência.

    O disco vibrou.

    Uma linha fina correu pela superfície, oscilou, voltou ao centro.

    Kalamera já estava do outro lado da bancada com o fragmento que tinham usado na sintonia. Moveu a peça devagar pelo lado do aparelho.

    A linha falhou no mesmo instante.

    Não apagou nem disparou. Só entortou por um ponto, como se alguma coisa tivesse arrancado um pedaço do retorno no meio do caminho.

    Marco abaixou o mecanismo.

    — Funcionou.

    Kalamera ficou olhando para o disco por mais um instante. Depois olhou para as próprias mãos, para o encaixe da selenita, para a base fechada do jeito que ela tinha desenhado horas antes. O peso saiu dos ombros dela devagar.

    — Eu falei que ia fechar.

    O ferreiro estava a meio passo da bancada, braços cruzados, testa franzida desde o teste. Ele olhou o aparelho, depois olhou as quatro mãos de Kalamera paradas sobre a madeira.

    — Nunca vi ninguém montar peça tão pequena nessa oficina sem perder metade no caminho.

    Kalamera ergueu o queixo um pouco.

    — Porque ninguém aqui tem quatro mãos.

    O velho soltou um ruído curto pelo nariz. Não era deboche dessa vez.

    — Queria que você estivesse aqui quando a doutora me pediu aquelas facas fininhas dela.

    Marco virou o rosto.

    — A doutora?

    O ferreiro deu de ombros.

    — Foi logo depois das Olimpíadas. Umas coisas bem irritantes de fazer. Finas demais, chatas de alinhar, cabo pequeno, ponta delicada.

    Marco sentiu um arrepio subir pelos braços ao ouvir aquilo. As Olimpíadas. Kalamera já estava limpando a bancada com duas mãos e puxando o aparelho para perto com as outras duas.

    — Nós precisamos ir ver ela agora mesmo.

    Marco fechou a mão em volta do mecanismo.

    — Agora.

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