Capítulo 111 — Então eu separo.
Marco entrou primeiro, carregando o aparelho com as duas mãos.
Kalamera entrou logo atrás, no mesmo ritmo, ainda animada mesmo depois das horas sobre a bancada. Entre as mãos de Marco, o aparelho balançou com os passos: base de metal leve, aro fino, disco de vidro preso na estrutura improvisada. Ainda tinha cara de protótipo.
A sala recebeu os dois com frio, cheiro de sangue velho e metal lavado.
Hegoria já tinha tomado o espaço inteiro.
O corpo da criatura permanecia aberto sobre a mesa central. O tórax estava escancarado. Cortes firmes percorriam braços, abdômen, pescoço. Bandejas diferentes cercavam a mesa, cada uma com uma parte separada. Frascos pequenos alinhados numa lateral, lâminas finas e panos marcados de vermelho. Instrumentos estreitos descansando sobre um tecido limpo. Horas tinham passado ali dentro, e dava para ver.
Venia estava num canto, quase colada à parede, com o caderno apoiado no antebraço. A pena seguia riscando sem pressa.
Marco parou a dois passos da mesa.
— Conseguimos montar um rastreador.
Kalamera já veio colando do lado, olho no aparelho.
— Tá feio. — Bateu de leve na lateral da base com a ponta do dedo. — Mas funciona.
Hegoria tirou os olhos do corpo e encarou a estrutura nas mãos dele. O olhar desceu pela base, subiu pelo aro, parou no disco de vidro.
— Rastreador de quê?
Marco avançou mais um passo e ergueu o aparelho na altura do peito.
— Da mesma coisa que tinha na criatura. Se ainda tiver outro lugar usando esse mesmo padrão, isso aqui pode apontar.
Hegoria estendeu a mão na direção do aparelho, sem tocar.
— Me expliquem.
Marco assentiu.
— A gente vai colocar um resquício dela aqui como referência. — Indicou o encaixe. — O aparelho solta um pulso, lê o que volta e tenta responder quando encontra algo parecido.
Kalamera se aproximou mais, já apontando peça por peça.
— A base segura a estrutura. Aqui entra a amostra. — Tocou o encaixe estreito. — O aro ajuda a manter o fluxo estável. E o disco mostra a resposta. Se reagir, a leitura aparece nele.
Marco completou:
— Não vai dizer tudo sozinho, mas vai nos dar uma direção. Se tiver mais algum lugar mexendo com a mesma coisa, já basta.
Hegoria manteve os olhos no encaixe por mais um instante.
— Qualquer resquício serve? Ou precisa vir de alguma parte específica do corpo?
— De preferência, uma parte próxima do coração. — Marco apontou para a abertura estreita da base. — Se teve essência forçada aí dentro, é onde deve ter se concentrado mais.
O olhar dela voltou para a mesa.
— Então eu separo.
Ela virou de lado, pegou a pinça e escolheu um fragmento de uma das bandejas mais próximas do tórax aberto. Ergueu a peça à altura dos olhos por um instante, medindo forma, espessura e o quanto ainda escorria dela. Em seguida, trouxe o fragmento para perto do tecido limpo estendido na lateral da mesa.
Com um pano dobrado, pressionou de leve a superfície, tirando o excesso de sangue e daquele fluido escuro que ainda brilhava nas bordas. Depois ajustou o tamanho com uma lâmina fina, aparando as extremidades com precisão. Virou o pedaço uma vez entre a pinça e os dedos, conferiu o encaixe no ar, e só então parou.
Quando terminou, a peça estava mais limpa, mais seca e no tamanho exato para entrar no aparelho. Hegoria estendeu a peça na direção dele.
Marco pegou o fragmento com cuidado e aproximou do encaixe.
“Isso não parece que vai funcionar”.
A voz da Nova passou na mente dele e deixou um incômodo seco. Não bastou para fazê-lo parar. Podia ser o material improvisado, podia ser a montagem corrida. Podia ser só a Nova sendo cautelosa cedo demais.
Ele baixou os olhos para o encaixe e continuou o movimento.
Hegoria acompanhou sem mudar o rosto.
— Só não demorem demais. — A voz saiu calma. — Daqui a pouco vou ter que fechar isso tudo. A general mandou enterrar a criatura ainda hoje, lembram?
Kalamera nem tirou os olhos do aparelho.
— Foi por isso que a gente montou isso correndo.
Marco encaixou o fragmento no suporte estreito e firmou a peça com o polegar.
— Vai.
Marco soltou um pulso curto de essência.
O disco de vidro vibrou.
Uma linha fina correu pela superfície, oscilou por um instante e então cedeu para um lado só.
Kalamera virou o aparelho alguns graus.
A linha voltou a entortar na mesma direção.
Marco ergueu os olhos. A distorção apontava direto para a mesa central. Para o corpo aberto da criatura.
Kalamera abriu um sorriso.
— Funcionou.
Marco girou o aparelho mais uma vez, só para testar. A linha tremeu, escapou do centro e tornou a puxar para o mesmo lado, firme, torta, respondendo ao que restava na mesa.
Marco soltou um ar pelo nariz, ainda olhando o disco.
Ele ergueu o rosto para Hegoria.
— Obrigado, doutora.
Kalamera fez um aceno curto com uma das mãos livres.
— Ajudou.
Hegoria só assentiu.
— Vão logo. Se isso serve mesmo, a general vai querer ver antes de eu fechar essa sala.
Marco puxou o aparelho de volta para o peito.
— Então vamos achar a Lou-reen.
Os dois saíram quase no mesmo ritmo em que tinham entrado, levando o protótipo entre as mãos e a empolgação de volta no corpo.
Hegoria acompanhou os dois até a porta.
Quando eles sumiram no corredor, ela soltou o ar pelo nariz.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.