Índice de Capítulo

    Marco entrou primeiro, carregando o aparelho com as duas mãos.

    Kalamera entrou logo atrás, no mesmo ritmo, ainda animada mesmo depois das horas sobre a bancada. Entre as mãos de Marco, o aparelho balançou com os passos: base de metal leve, aro fino, disco de vidro preso na estrutura improvisada. Ainda tinha cara de protótipo.

    A sala recebeu os dois com frio, cheiro de sangue velho e metal lavado.

    Hegoria já tinha tomado o espaço inteiro.

    O corpo da criatura permanecia aberto sobre a mesa central. O tórax estava escancarado. Cortes firmes percorriam braços, abdômen, pescoço. Bandejas diferentes cercavam a mesa, cada uma com uma parte separada. Frascos pequenos alinhados numa lateral, lâminas finas e panos marcados de vermelho. Instrumentos estreitos descansando sobre um tecido limpo. Horas tinham passado ali dentro, e dava para ver.

    Venia estava num canto, quase colada à parede, com o caderno apoiado no antebraço. A pena seguia riscando sem pressa.

    Marco parou a dois passos da mesa.

    — Conseguimos montar um rastreador.

    Kalamera já veio colando do lado, olho no aparelho.

    — Tá feio. — Bateu de leve na lateral da base com a ponta do dedo. — Mas funciona.

    Hegoria tirou os olhos do corpo e encarou a estrutura nas mãos dele. O olhar desceu pela base, subiu pelo aro, parou no disco de vidro.

    — Rastreador de quê?

    Marco avançou mais um passo e ergueu o aparelho na altura do peito.

    — Da mesma coisa que tinha na criatura. Se ainda tiver outro lugar usando esse mesmo padrão, isso aqui pode apontar.

    Hegoria estendeu a mão na direção do aparelho, sem tocar.

    — Me expliquem.

    Marco assentiu.

    — A gente vai colocar um resquício dela aqui como referência. — Indicou o encaixe. — O aparelho solta um pulso, lê o que volta e tenta responder quando encontra algo parecido.

    Kalamera se aproximou mais, já apontando peça por peça.

    — A base segura a estrutura. Aqui entra a amostra. — Tocou o encaixe estreito. — O aro ajuda a manter o fluxo estável. E o disco mostra a resposta. Se reagir, a leitura aparece nele.

    Marco completou:

    — Não vai dizer tudo sozinho, mas vai nos dar uma direção. Se tiver mais algum lugar mexendo com a mesma coisa, já basta.

    Hegoria manteve os olhos no encaixe por mais um instante.

    — Qualquer resquício serve? Ou precisa vir de alguma parte específica do corpo?

    — De preferência, uma parte próxima do coração. — Marco apontou para a abertura estreita da base. — Se teve essência forçada aí dentro, é onde deve ter se concentrado mais.

    O olhar dela voltou para a mesa.

    — Então eu separo.

    Ela virou de lado, pegou a pinça e escolheu um fragmento de uma das bandejas mais próximas do tórax aberto. Ergueu a peça à altura dos olhos por um instante, medindo forma, espessura e o quanto ainda escorria dela. Em seguida, trouxe o fragmento para perto do tecido limpo estendido na lateral da mesa.

    Com um pano dobrado, pressionou de leve a superfície, tirando o excesso de sangue e daquele fluido escuro que ainda brilhava nas bordas. Depois ajustou o tamanho com uma lâmina fina, aparando as extremidades com precisão. Virou o pedaço uma vez entre a pinça e os dedos, conferiu o encaixe no ar, e só então parou.

    Quando terminou, a peça estava mais limpa, mais seca e no tamanho exato para entrar no aparelho. Hegoria estendeu a peça na direção dele.

    Marco pegou o fragmento com cuidado e aproximou do encaixe.

    “Isso não parece que vai funcionar”.

    A voz da Nova passou na mente dele e deixou um incômodo seco. Não bastou para fazê-lo parar. Podia ser o material improvisado, podia ser a montagem corrida. Podia ser só a Nova sendo cautelosa cedo demais.

    Ele baixou os olhos para o encaixe e continuou o movimento.

    Hegoria acompanhou sem mudar o rosto.

    — Só não demorem demais. — A voz saiu calma. — Daqui a pouco vou ter que fechar isso tudo. A general mandou enterrar a criatura ainda hoje, lembram?

    Kalamera nem tirou os olhos do aparelho.

    — Foi por isso que a gente montou isso correndo.

    Marco encaixou o fragmento no suporte estreito e firmou a peça com o polegar.

    — Vai.

    Marco soltou um pulso curto de essência.

    O disco de vidro vibrou.

    Uma linha fina correu pela superfície, oscilou por um instante e então cedeu para um lado só.

    Kalamera virou o aparelho alguns graus.

    A linha voltou a entortar na mesma direção.

    Marco ergueu os olhos. A distorção apontava direto para a mesa central. Para o corpo aberto da criatura.

    Kalamera abriu um sorriso.

    — Funcionou.

    Marco girou o aparelho mais uma vez, só para testar. A linha tremeu, escapou do centro e tornou a puxar para o mesmo lado, firme, torta, respondendo ao que restava na mesa.

    Marco soltou um ar pelo nariz, ainda olhando o disco.

    Ele ergueu o rosto para Hegoria.

    — Obrigado, doutora.

    Kalamera fez um aceno curto com uma das mãos livres.

    — Ajudou.

    Hegoria só assentiu.

    — Vão logo. Se isso serve mesmo, a general vai querer ver antes de eu fechar essa sala.

    Marco puxou o aparelho de volta para o peito.

    — Então vamos achar a Lou-reen.

    Os dois saíram quase no mesmo ritmo em que tinham entrado, levando o protótipo entre as mãos e a empolgação de volta no corpo.

    Hegoria acompanhou os dois até a porta.

    Quando eles sumiram no corredor, ela soltou o ar pelo nariz.

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