Era noite e o céu estava coberto por nuvens densas que praticamente cobriam-no por completo.

    O som do estalar seco da língua criava uma melodia conforme o carro adentrava o local.

    As ruas estavam cobertas por neblina e fumaça que saíam de exaustores dos prédios.

    Em meio à escuridão, a ponta de um cigarro se acendeu — iluminando brevemente a pele alva, lábios finos e os olhos negros que encaravam o céu. O olhar era contemplativo, mas, ao mesmo tempo, levemente frustrado ao apenas ver luzes de drones voando e nenhuma estrela.

    — Noite limpa e lua cheia.

    A voz suave e cálida se queixou, deixando a fumaça escapar pelo nariz. Era um homem que estava sentado no banco de trás de um carro em movimento, agora ele olhava o bairro adornado com casas de tijolos vermelhos com pichações brilhantes que acendiam como LEDs, edifícios industriais convertidos e muitos prédios com hologramas baratos que demonstravam diversos serviços.

    — Eu esperava o clima perfeito para esta noite — ele massageou um dos bolsos de sua jaqueta segurando carinhosamente o cigarro com os dentes. — Que decepção.

    Como o motorista não respondeu, o homem então deu de ombros e suspirou, voltando sua atenção para o exterior. Seus olhos se estreitaram ao observar alguns sujeitos entre os becos e calçadas.

    — Pobres coitados — ele disse em bom-tom, mas prosseguindo sua fala com desdém. — Alheios à insignificância de sua existência patética…

    O motorista pareceu ignorar o homem, se mantendo focado no caminho com ruas iluminadas por luzes amareladas. 

    — Nem consigo imaginar como deve ser a existência de um ser como este — o homem disse ao observar uma mãe sem teto abraçada com seus filhos próxima do meio fio. — Como será a vida como uma barata ordinária?

    A rota era repleta de boates e bares com músicas altas e graves profundos, mesmo que muitas fossem ligeiramente ocultas, as pessoas próximas perambulavam embriagadas e fora de si — os gritos, os choros, tudo em meio a grande sinfonia noturna.

    Nas esquinas, também apareciam indivíduos vestindo roupas reveladoras, estes se aproximavam dos poucos veículos que passavam pela redondeza: insinuavam-se com expressões forçadas de prazer que mal conseguiam esconder o cansaço. 

    — Vale da Liberdade — o homem sorriu de maneira incitadora enquanto ele passava um dedo sobre seu lábio inferior. — Seria a antítese do paraíso ou o banquete dos oportunos?

    O seu olhar percorria os decotes e as saias curtas das mulheres, que por pouco escondiam a nudez. No entanto, ele se concentrava mais em seus rostos: a suave expressão de nojo que demonstravam, mas era rapidamente suprimida, dando lugar a um prazer forçado, fomentado pela necessidade.

    — O que acha de parar para uma pequena dose de diversão?

    O motorista se manteve em silêncio, firmando seu aperto no volante e contorcendo levemente seus lábios carnudos; sua respiração demonstrava, mesmo que de forma contida: raiva.

    — Você já não teve o suficiente? — a voz do motorista era grave, porém calma, ou talvez controlada. 

    — E deve existir limite agora? — o homem do banco traseiro tragou novamente seu cigarro, estalando sua língua ao apoiar a cabeça no banco. — Ah, mas você tem razão, é uma pena que o nosso compromisso não possa esperar.

    O motorista não respondeu, apenas continuou a seguir com o carro através das ruas solitárias. O homem do banco traseiro manteve-se focado no motorista, seus olhos aos poucos transbordaram com interesse.

    — Sombra, Sombra, Sombra… que codinome engraçado para alguém como você — ele se inclinou para frente, encarando a pele marrom escura do motorista através de sua mão no volante. — Haha, chega até ser irônico, você sabe, não é?

    — Por que eu sou negro? — Sombra questionou, sua barba cheia se moveu conforme sua boca retorcia.

    — Claro que não, porque você é quase um voyeur, sabe, ficar parado em um canto assistindo tudo — enquanto respondia, o homem massageou novamente o seu bolso. — Você é quase a personificação de seu codinome, apenas uma coisa escura no canto esquecível, mas no fim, admito que até gosto de trabalhar com você.

    A respiração do motorista se tornou levemente arisca, seus ombros se moveram e seu aperto firmou-se.

    O homem do banco de trás, apenas sorriu, mas eu sei olhar, o interesse surgiu.

    — Precisa parar para ir ao banheiro, caro amigo.

    — Por que você não cala a maldita boca? — Sombra respondeu quase que instantaneamente.

    O homem do banco traseiro deixou escapar mais uma breve risada, talvez um sorriso genuíno surgiu em sua face.

    — Eu adoro isso! Você é tão consistente que chega a se tornar previsível! — com um sorriso, ele amassou o cigarro no banco do motorista, deixando breve cheiro de couro queimado. — Mas no fim, acho que somos parecidos… de certa forma…

    — Eu não sou igual a você. — disse o motorista com certa repulsa na voz.

    — É claro que não… somos como sangue e vinho, apenas um é refinado e elegante.

    Sombra grunhiu, mantendo o silêncio.

    — Sei que pra você é apenas mais um pagamento, mas pra mim não — o homem disse se afundando no banco, pela primeira vez o seu tom de voz mudou, agora havia raiva. —  detesto quando alguém se intromete em meus afazeres, se preferir assim.

    Sombra não desviou os olhos da estrada, mas franziu o cenho e enrugou o nariz. O sujeito do banco de trás se inclinou e se aproximou mais dele, sussurrando em seu ouvido.

    — Dito isto, eu sinceramente espero que você seja compreensivo para podermos manter o clima amistoso — ele tocou suavemente o ombro de Sombra, realizando um leve e breve carinho com o dedão. — Porque se você insistir em se intrometer onde não deve…

    O homem do banco traseiro fez menção de dizer algo, mas se afastou, se acomodando novamente no assento, porém mantendo os olhos atentos no motorista.

    — Bom, você sabe, a curiosidade matou o gato…

    — Isso é uma ameaça? — Sombra olhou pelo retrovisor para a figura do homem no banco traseiro.

    — Não, nunca! Ameaças são para burocratas, eu, faço promessas.

    O motorista grunhiu novamente ao ouvir a resposta e então o carro seguiu em silêncio até o sul do distrito, onde as luzes do centro de Nova Atlântida brilhavam ao fundo como uma paisagem de neon. O veículo parou no canteiro direito de uma rua deserta, diminuindo os faróis e mantendo o motor ligado. 

    — Chegamos. — Sombra ajustou o câmbio do carro e vasculhou a área com seus olhos.

    — Finalmente.

    Os olhos negros observaram friamente um grande prédio em reforma — o local contava com uma placa à sua frente, com a inscrição ‘Reforma do Hospital Santa Cláudia’, acompanhada da imagem de uma senhora negra, retratada com um sorriso acolhedor.

    Sombra estava atento; olhou para os prédios residenciais e encarou algumas luzes acesas.

     — Você vai ter um pouco mais que uma hora, então seja breve, mesmo sem a segurança do local, qualquer cidadão é uma câmera ambulante. 

    — Nada vai dar errado, afinal, o que você acha que ele é capaz de fazer? — respondeu o homem do banco traseiro ao acender outro fumo.

    Com um sorriso ele abriu a porta, observando o prédio que tinha em sua composição uma grande área, com diversos maquinários e estruturas de ferro.

    — Seja discreto Koji. — Sombra acionou o relógio digital em seu pulso, cronometrando sessenta e cinco minutos. — A última coisa que precisamos é de atenção.

    — Não posso negar que gosto de um pouco de bagunça, mas em seu respeito, serei prudente. — Koji empurrou a porta e pisou no asfalto irregular. Seus olhos fixaram no prédio à frente. — Pode deixar, vá se divertir e volte em uma hora.

    Koji apoiou seus dedos finos na porta e saiu do veículo. Sua pele clara foi iluminada pelas luzes amareladas, demonstrando sua fisionomia oriental. O sorriso em seu rosto exalava simpatia, enquanto ele ajustava suas roupas escuras e justas — por fim, passando a mão por seu cabelo negro, tornando-o para a direita, com mechas que caíam sobre seu rosto, as laterais de seu couro cabeludo eram raspadas em um degradê.

    — Não esqueça: ele pode não estar sozinho — Sombra disse após abaixar o vidro da porta frontal. 

    — Para ser sincero, tanto faz: quanto mais, melhor.

    Sombra silenciou-se por um momento, deixando escapar um grunhido.

    — Vou logo atrás de você. — Sombra acendeu novamente o farol do carro, e ajustou a marcha.

    — Honestamente, não há necessidade. — Koji fechou a porta e deu dois leves tapas no carro. — Só vou dar uma liçãozinha nele.

    — Do mesmo jeito que fez mais cedo? — a voz de Sombra carregava um misto de desdém e nojo.

    — Ossos do ofício.

    — Eu vou com você, não vou demorar, vá em frente.

    Após sua fala, Sombra partiu com o carro para um destino desconhecido. 

    — Você está brincando com sua sorte… — Koji forçou um sorriso estressado, amassando involuntariamente o cigarro em seus dedos enquanto observava o carro partir. 

    O vento frio soprou e ele atravessou a rua deserta, se aproximando do portão gradeado da construção. Ao alcançá-lo, ele notou que este estava levemente aberto com correntes e um cadeado rompido, ambos largados no chão de terra. 

    — Apenas um? — Koji focou-se nos rastros recentes de pegadas na área, provavelmente de duas pessoas. 

    Também havia avisos de construção em andamento, sinais de alerta e uma placa que indicava: ‘Entrada apenas para pessoas autorizadas’.

    Ele encarou a placa e sentiu o cheiro de terra e concreto, levantou o cigarro para o tragar e estalou a língua ao perceber que ele estava amassado — então o descartou e pisou nele. 

    Em seguida, retirou um celular do bolso e observou uma mensagem com caracteres que não pareciam fazer sentido, incluindo o número 425 em seu final. 

    — Vai ser uma reunião interessante — ele murmurou para si ao tocar um bolso de sua jaqueta, adentrando lentamente o prédio em reforma. — Não é querida?

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