‘425 – Hospital Santa Cláudia – 2 AM’

    Williams encarava a mensagem de um celular totalmente anacrônico, que logo foi fechado em um flip.

    A música latina ecoava pelo ambiente, mas Williams apenas conseguia se focar nos ponteiros do relógio de ouro que marcavam oito horas e vinte minutos.

    Ele suspirou, estava sentado em uma mesa na varanda interna de um bar; ele conseguia ver a decoração em neon nas paredes com rachaduras já aparentes, as pinturas que eram compostas principalmente por imagens de Jesus Cristo e Maria, assim como ouvir música lenta.

    Seu pé direito batucava embaixo da mesa inquietantemente; seu semblante cabisbaixo contrastava com o ambiente vibrante e eventualmente ele olhava para a janela ao seu lado que mostrava um céu coberto por nuvens espessas.

    No andar inferior, o local parecia um bar comum, as pessoas eram majoritariamente latinas, estavam bebendo, celebrando, curtindo um bom momento.

    Já na parte superior, uma boa parte dos homens vestiam roupas em tons de amarelo e cinza e na sacada do corredor, que dava vista para o andar inferior, estava escorado um homem — ele tinha pele clara e tatuagens por todo o corpo, vestia uma jaqueta com estampas amarelas e cinzas, camisa preta, calças largas, um tênis branco, uma bandana na cabeça e correntes em seu pescoço. 

    — Ainda vai demorar muito? — Williams olhou em direção ao homem que parecia mais interessado em uma partida de bilhar no andar inferior ao invés dele.

    Relájate cabrón. — o homem respondeu sem sequer olhar para Williams, bebendo um gole da garrafa de cerveja em sua mão.

    — Imigrante maldito… — Williams sussurrou para si, cerrando os lábios e checando seu relógio e uma pasta preta que estava ao seu lado no banco. 

    O homem então tragou sua bebida, deixando a garrafa com firmeza na mesa de Williams, assustando o sujeito.

    — Esta é por tua conta, cabrón — o homem disse ao soltar a garrafa na mesa e em seguida levantar levemente a camisa e mostrou uma pistola no quadril. — Cuidado com o que fala  se não tua boca iria te levar pra uma vala bem rápido.

    O homem se retirou, deixando Williams respirando fundo e organizando a garrafa, deixando a mesa livre à sua frente, então abaixando a cabeça e fechando os olhos.

    — Onde é que eu estou me metendo… ? — ele murmurou para si, passando a mão pelos cabelos.

    — Quando disseram que um engravatado entrou aqui, não vou negar, pensei que seria algum tipo de piada. 

    Williams abriu os olhos e notou que um homem maduro, estava um pouco acima do peso e deveria ter por volta dos cinquenta anos. Ele se sentou em sua frente, puxando as mangas de sua camisa social de bom material, demonstrando com algumas cicatrizes, em sua maior parte ocultas por tatuagens. 

    — Seja bem-vindo ao El Coyote Tuerto.

    O colete que estava por cima da camisa estava aberto, vestia calça e sapatos sociais e também usava um relógio de ouro, semelhante ao de Williams, mas com alguns arranhões. 

    — Como posso ajudá-lo?

    O homem disse ao passar a mão por seu cabelo que era penteado para trás e ele tinha entradas que denunciavam claramente sua calvície. 

    Williams olhou com surpresa, uma agradável que até o fez relaxar os ombros.

    O homem se acomodou deixando uma pequena caixa de charutos sobre a mesa, abrindo-a e retirando uma unidade de três.

    — É raro ver um de vocês por aqui, tenho certeza de que seu tipo não costuma frequentar esse tipo de local — o homem continuou a falar enquanto removia uma tesoura afiada da caixa e cortava a ponta do charuto. — Mas é como dizem: o destino nos leva a lugares que jamais imaginaríamos ir.

    Williams observava o homem com certo pertencimento, como se finalmente estivesse falando com alguém de seu calibre. 

    — Palavras de um homem inteligente.

    Ao redor, o mundo continuava a seguir, porém, agora havia olhares em direção à conversa de ambos, principalmente de dois outros homens que vestiam as cores amarela e cinza como se fossem parte de sua identidade e estavam próximos à mesa, não o suficiente para ocultar a visão do salão, mas sim para manter os olhos fixos em Williams.

    O homem colocou o charuto em sua boca e estalou os dedos, e um dos sujeitos escorados veio lhe entregar um isqueiro. Desta forma, ele acendeu o charuto com um sorriso que revelava alguns dentes substituídos por próteses douradas.

    — Pode me chamar de Primo Augusto. — o homem deixou a fumaça sair por sua boca.

    Uma jovem corpulenta e de cabelos cacheados veio e deixou sobre a mesa dois copos baixos e uma garrafa de uísque, servindo ambos. 

    Ela claramente demonstrava certo nervosismo, tremendo levemente ao primeiramente o copo de Augusto.

    ¿Eres nueva aquí, señorita?

    O homem perguntou ao encarar a bunda da garota que desviava o olhar, não era uma tentativa de incitar, era temor em seu olhar.

    Augusto a apalpou, sorrindo e trazendo-a para próximo de si com força. A jovem quase se desequilibra e derruba a bebida.

    Williams notou a expressão da jovem, que não parecia sequer ter terminado o ensino médio.

    Ele então olhou para a sua aliança, e por fim limpou a garganta de forma extravagante.

    — Poderia nos dar licença se já o terminou de servir? Eu preciso conversar com este cavalheiro.

    O sorriso de Augusto não se desfez, na verdade ele o manteve, mas seu cenho se franziu lentamente.

    A jovem acenou com a cabeça, mas antes de sair, Augusto a segurou pela mão e assobiou em direção ao copo de Williams.

    — Você ainda não terminou, encha o copo. 

    A jovem segurou a garrafa de bebida com ambas as mãos, se preparando para se inclinar e servir até que Williams a interrompeu com um gesto de mão.

    — Vá, eu não quero beber.

    Augusto se manteve sorrindo, semicerrando os olhos e encarando Williams. A jovem olhou para Augusto, que a encarou e acenou com a cabeça e logo ela se retirou com rapidez do local, deixando a garrafa sobre a mesa.

    — Eu… — Williams limpou a garganta. — Pode me chamar de Williams, e eu preciso de seus serviços.

    Augusto encarou jovem com os olhos até o momento que ela desceu as escadas. 

    — Sim, claro, você quer seguranças, não é? — Augusto voltou sua atenção para Williams, fechando a caixa de charutos, porém deixando a tesoura sobre a mesa. — Mas por que um engravatado do centro de Nova Atlântida iria procurar uma gangue para proteção? 

    Augusto bebeu o uísque do copo em apenas um gole, saboreando a bebida enquanto ela passava por sua garganta.

    — Soube por um conhecido que vocês honram sua palavra, eu preciso de alguém que me dê proteção — Williams respondeu olhando para os lados, ele estava nervoso. — E esse alguém não pode fazer perguntas de preferência.

    Augusto concordou com a cabeça, mas não com seu olhar. Ele então empurrou seu copo para frente, e fez um gesto com as mãos para Williams beber o whiskey enquanto retirava a garrafa de seu campo de visão, a colocando próxima ao canto da mesa. 

    — Eu não estou com sede — William respondeu inicialmente de forma sucinta, mas deixando sua arrogância prevalecer. — Escuta, podemos falar de negócios ou isso vai ser apenas um desperdício de tempo?

    — Em Roma, faça como os romanos. — Augusto disse, oferecendo novamente a bebida com um gesto.

    Williams respirou fundo, estendendo sua mão em direção ao copo e olhando para Augusto, que fumava seu charuto e o deixava sobre um cinzeiro que estava na mesa. 

    Williams então alcançou o copo e o levou até a boca, entornando-o, sentindo o gosto da bebida de boa qualidade. Então levou o copo à mesa e quando o soltou, Augusto agarrou seu pulso esquerdo e apoiou a mão aberta de Williams sobre a mesa.

    Williams se desequilibrou ao sentir a força que puxou seu braço que ficou estendido, com seu rosto na extremidade da mesa e ele conseguia sentir as lâminas da tesoura que cortaram o charuto amassando levemente seu dedo anelar, onde estava sua aliança.

    — O que é isso!? Espera! — Williams tentou sair da situação, mas ele sentiu que outras pessoas também o seguraram, mantendo-o naquela posição.

    — Tu acha que tá falando com quem!? Engravatado de merda!

    Uma voz masculina disse bem próximo de seu ouvido, era de um dos homens que estava próximo à mesa.

    — Acho que começamos com o pé esquerdo Williams — Augusto disse amassando a tesoura, não o suficiente para cortar, mas sim para Williams sentir a lâmina amassar sua pele. — Vou te explicar essa regra apenas uma vez, em minha casa, minha palavra é lei, acene com a cabeça se entendeu.

    Williams acenou repetidamente, ele respirava ofegante e seus olhos lacrimejavam, apenas podendo ver levemente o reflexo de Augusto na janela.

    — Ótimo — Augusto esboçou um sorriso. — por que está aqui?

    — Eu já disse…! Eu preciso de seguranças armados, é só isso! — Williams respondeu rapidamente, com as mãos trêmulas e o coração palpitando. — Eu… estou com um pressentimento que irão atentar contra minha vida, não é nada relacionado a polícia! Mas eles são perigosos!

    — Quem vai atentar contra sua vida? — Augusto perguntou com certo interesse. 

    — Escuta, eu não posso falar! Eu falo sério, você não vai querer saber! — Williams disse com claro temor em sua voz. — Mas eles vão apenas me encontrar hoje, então eu apenas preciso descobrir do que se trata! Talvez não seja nada!

    — Sua resposta não está me agradando muito. — Augusto disse apertando um pouco a tesoura.

    — Espera! Calma! Calma! Eu vou pagar! O dinheiro está na maleta! — Williams apontou com a cabeça para a maleta. — É tudo seu! Tem vinte e cinco mil!

    Augusto olhou para um dos homens e acenou para ele verificar a maleta. Este o fez sem pestanejar, agarrando a maleta e a colocando sobre a mesa; quando estava prestes a abrir as travas, o outro homem que ainda imobilizava Williams interrompeu a ação.

    ¿Y si es una bomba? — o homem segurando Williams olhou para o que estava com a maleta.

    ¿Primo? Marcos tiene razón. ¿Y si ese cabrón es de los Crimson? — o homem com a maleta hesitou, olhando em direção de Augusto.

    Augusto parou por um momento, olhando para Williams, que estava praticamente deixando escorrer lágrimas e então sorriu.

    Los Crimsons pueden ser unos hijos de puta, pero no se mezclan con basura como esta. — Augusto disse com gargalhadas após sua fala.

    Os outros homens também riram, então o homem abriu finalmente a maleta, revelando maços de notas de cem dólares acumulados.

    Carajo… — o homem que abriu a maleta riu e concordou com a cabeça para Augusto, que deixou escapar um sorriso.

    Williams sentiu a pressão sobre o seu corpo diminuir até desaparecer; os homens se afastaram da mesa, deixando ambos a sós novamente.

    — Williams, não é? Peço desculpa pelo tratamento repentino, mas um homem em meu ramo de negócios tem que ter suas precauções. — Augusto virou a pasta para si e retirou um maço de dinheiro, passando os dedos pelas notas que faziam barulho ao encostar uma na outra.

    Williams se ajustou em seu assento novamente, calado e massageando o dedo de sua aliança, e em seguida fechando a mão e encarando Augusto com um olhar afiado.

    — Então? Temos um acordo? — Williams, apesar de claramente temeroso, ainda assim demonstrou seriedade.

    — Se é de proteção que você precisa, proteção que você terá. — Augusto olhou para um homem e e deu-lhe uma ordem. — Ve a llamar a Javier.

    Javier, ¿estás seguro? — o homem perguntou olhando para Williams.

    Augusto apenas acenou a cabeça com um sorriso de satisfação enquanto o homem se retirava e ele oferecia não apenas a mais uma dose de bebida, mas também um charuto para Williams, que inicialmente hesitou, mas acabou aceitando a oferta cuidadosamente.

    Ahora, estamos hablando de negocios.

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