Capítulo 62
A escuridão já deveria tomar conta de todo o ambiente, já se fazia algumas horas desde que o sol havia se posto e o céu noturno estaria limpo se não fosse pelos drones que estendiam propagandas como tapetes brilhosos que espalhavam nomes de grandes marcas, criando um show holográfico que era capaz de ocultar o brilho de qualquer estrela noturna.
Nova Atlântida brilhava mais que qualquer astro, os prédios se estendiam como lanças enormes apontadas para as nuvens, e na varanda de uma das lanças mais altas, estava Tyx.
A ponta amarela do seu cigarro se acendeu; como a luz de um vagalume em meio a canhões de luz.
Em sua mão direita, um telefone celular antigo estava em seu ouvido; ele estava com uma expressão cansada, os olhos caídos enquanto seu pulmão se enchia daquela fumaça tóxica, mas deliciosa.
— Tem certeza que você consegue fazer isso?
Tyx questionou ao encarar a vida abaixo de si — tão natural quanto a luz de um poste, infestada de insetos ao seu redor; confusos com aquela fonte luminosa, repetindo os mesmos hábitos e movimentos, como se fossem achar o que sempre estão procurando, mas nunca saem do mesmo lugar.
‘Sim, tenho certeza.’
A voz de Bobby ecoou do aparelho. Tyx sorriu.
— Ótimo, porque seria um baita problema conseguir mais um assento para sua bunda grande. — Tyx disse com um tom risório.
‘Se fosse com você seria mais fácil, afinal sem as duas pernas, ocuparia menos espaço.’
Ambos riram, o sorriso permaneceu na face de Tyx enquanto ele olhava para os prédios espelhados que refletiam as luzes da cidade perfeitamente.
‘Me desculpe Raimundo, sei que foi um pedido egoísta da minha parte.’
— O único cara que não foi egoísta nesse mundo, foi crucificado, não parece algo muito sábio de se fazer.
‘Eu vivi para ver você citando Jesus, e eu pensando que não acreditava nessas coisas.’
— Não acredito, mas acho que quando estamos caindo em um abismo, tendemos a olhar para a luz que vem de cima esperando por algo — Tyx tragou novamente seu cigarro, olhando para as poucas nuvens no céu que eram iluminadas pela cidade. — Mesmo que essa luz seja apenas a luz do sol.
‘Então você vai seguir com o que me contou?’
Tyx se manteve em silêncio, deixando a fumaça escapar por sua boca.
— Sim, você assinou os documentos não prestando queixa do que aconteceu?
‘Sim, já fiz isso. Por mim, Black apenas ficou com muita raiva e me atacou. Nada de perda de controle, apenas raiva contida’
— Ótimo.
Tyx olhou para os drones que seguiam cadeias de movimentos tão precisas para não atrapalhar a propaganda alheia, tão ordenados em ordem de não desperdiçar sequer um segundo sem que as pessoas olhassem para cima e vissem um anúncio.
‘Obrigado por tudo amigo, acho que essa vai ser a última vez que vamos nos falar.’
Tyx respirou fundo, mas o sorriso não escapou dos seus lábios.
— E o Shinji, se despediu dele?
‘Deixei uma mensagem agradecendo a ele por tudo, afinal ele fez muito por mim e pelo Garry.’
— Certo, aproveite a viagem, e manda um adeus para o Gayrry por mim.
‘Ha ha, eu farei isso. Foi bom te ver depois de todo esse tempo, mais uma vez, obrigado e adeus meu amigo, até outra vida.’
Tyx apenas ouviu o som da chamada ser desligada. Ele pegou seu EPIC e encarou a tela, desceu a barra de tarefas e notou que o GPS estava em uso a todo o momento.
— Já estão vindo…
Com um sorriso, ele guardou novamente o aparelho, e olhou em direção daquele que estava em sua outra mão — digitando alguns números e ligando novamente.
Descartando seu cigarro e encarando a distância a estátua que segurava um livro e uma espada erguida; a espada brilhava como se estivesse em chamas, iluminando a ilha como se fosse um pequeno sol no horizonte.
‘Ora Ora, eu não esperava que você ligasse tão cedo, o que houve? Ficou com saudades?’
Uma voz masculina, porém afeminada podia ser ouvida através do telefone.
A pupila de Tyx passou a emanar aquele brilho vermelho sobrenatural, inicialmente fraco e inconstante, mas pegando forma e constância.
— Preciso de um favor.
Houve um breve silêncio, seguido de um suspiro através da linha.
‘E quando você não precisa querido? Mas sinto dizer, seu saldo está negativo comigo.’
Tyx olhou para frente, ele conseguia ver pequenos fios avermelhados que se entrelaçam e flutuavam por toda cidade. Partindo de estruturas, eram estáticos; de objetos, ondulavam brevemente; mas de pessoas, moviam-se como as cordas de um violão sendo tocadas.
As flutuações interagiam diretamente umas com as outras — como uma enorme teia de aranha; quando um fio mexia, sua dissonância afetava uma cadeia de fios.
E assim ele conseguia ver a entropia bem em frente de seu olho, ações de milhares de fios que partiam do chão até os céus.
— Vou te dar algo em troca, obviamente.
‘Interessante, mas sua palavra não tem mais tanto peso assim bonitão. Você se provou alguém não confiável quando decidiu me usar e invadir minha rede.’
As sobrancelhas de Tyx se enrugaram ao ouvir o tom de voz no telefone. Ele encarou o céu; ele conseguia ver diversas linhas que mareavam como ondas que tingiam o céu de vermelho, distantes, mas cada vez mais se aproximando.
— Usamos um ao outro, eu te dei o que queria e peguei o que eu precisava.
‘Por isso que minha mãe me disse que não se deve confiar em homens com um olhar vazio como o seu, eu me abri e você se aproveitou de mim. Que menino mal!’
Tyx entortou o lábio, franzindo levemente o cenho. Ele notou o sarcasmo na voz e se irritou.
— Você sabia?
‘É claro, querido, pessoas na minha posição sempre tem que estar um passo à frente, ainda mais lidando com sujeitos que se acham espertos. Você não foi o primeiro, e não será o último que acha que é capaz de controlar tudo e mudar o mundo.’
— Então todos os dados que consegui…
‘Foi o panorama que eu queria que você visse, querido. Coloquei dificuldade o suficiente para você achar que descobriu algo, não o suficiente para te fazer desistir, afinal eu precisava de você.’
Tyx respirou fundo, seu rosto demonstrava sua raiva contida, mas ele não deixou transparecer diretamente através da ligação.
‘Seu tipo sempre se acha esperto demais, e é só dar um empurrãozinho e você vai exatamente para onde eu quero que vá.’
Tyx firmou seu aperto no ferro da varanda, sua expressão era claramente de raiva.
‘Não se sinta mal, ambos conseguimos o que queríamos, você precisava de um alvo e eu um peão.’
Tyx sorriu com raiva, balançando a cabeça.
— Então você sabia de tudo…
‘Não exatamente meu amor, eu não prevejo o futuro. Mas como tempo, todo o ser humano se torna previsível.’
— Bom, então você sabe o que fiz, não é?
‘Ah, sim, neste exato momento um conhecido seu está a caminho, você não irá ficar com os Convergentes, mas sim, conosco.’
— Então desde o início você já planejava me prender, não é?
‘Ter um peão que quer chegar do outro lado do tabuleiro é perigoso, eu não posso perder o controle do jogo, mas no fim, você realmente vai estar ajudando a causa que acredita.’
— Será? Agora tenho minhas dúvidas se você não é apenas mais um filho da puta em busca de benefício próprio.
‘Isso é algo que você jamais vai saber, agora você só pode me entregar ou aceitar tudo e acreditar que eu estou realmente lutando pelo certo.’
— Pelo certo, é?
‘Obviamente, caso não fosse o certo, você teria feito tudo que fez?’
Tyx se calou, perdido em seus próprios pensamentos.
— Eu ainda preciso de um favor…
‘Você não tem muito tempo, e não se preocupe, eu já paguei todos os dados do Esmagador. Vê, eu acho que até gosto de você ao ponto de fazer favores para quem me deve.’
O olho de Tyx se arregalou, ele deixou escapar uma expressão que parecia ser um respeito, mas também certo temor.
‘E tenha calma, você não vai apodrecer em uma prisão chinesa, ainda tenho planos para você. Veja isso mais como férias não remuneradas’
— E os garotos?
‘Se eles eram seus, agora são meus. Não tema, por enquanto irei apenas os observar, e quando o momento vier, eles servirão nosso propósito.’
— Vai sacrificar crianças também?
‘Se eu o fizer, finalmente teremos algo em comum, não acha?’
Tyx não respondeu, apenas se manteve estático.
‘De qualquer forma, foi um prazer te conhecer Tyx, você realmente é um sujeito especial.’
— Igualmente.
‘Agora se desfaça desse telefone, seria um desperdício perder tudo por algo tão simples. Aproveite, veja sua detenção como uma folga, você está precisando…’
A ligação foi interrompida porque Tyx esmagou o telefone em sua mão — o vermelho de suas pupilas infectaram o restante de seu olho, o deixando completamente avermelhado. Então ele amassou o telefone com os dedos como se fosse feito de papel.
Ele encarou as minúsculas linhas que partiam de cada poro de sua pele; as pequenas se uniam, formando uma corda cada vez mais concisa. Até que finalmente ele olhou para cima notando que a corda avermelhada que partia de si, tremulava com força, e as ondas no céu se aproximavam cada vez mais.
Ele abriu a mão, os restos do aparelho caíram em meios às luzes ofuscantes e de repente uma enorme corrente de vento partiu de sua frente, ele se manteve olhando para frente observando a enorme aeronave, com quatro rotores e uma cabine com armas; ela voava e apontava canhões de luz em sua direção.
Atrás dele, da única porta que levava à varanda vazia, surgiram diversos soldados armados, todos vestidos com o logo da Divisão Zero.
Rapidamente todos o cercaram, apontando as armas em sua direção.
— Olá de novo Tyx! — a voz animada partiu de um homem vestido com vestes negras e que tinha uma barba branca de formato triangular. — Sabia que iriamos nos encontrar de novo, mas cedo ou mais tarde.
Tyx olhou por cima dos olhos e além dos diversos soldados, ele viu em meio deles Visionário e Maverick.
— Defensor Tyx, você está sendo acusado por obstrução da justiça, falsificação de documentos, invasão de privacidade, fraude, roubo…
Enquanto Visionário descrevia os crimes, os soldados se aproximavam de Tyx o agarrando com truculência, o atirando no chão e rapidamente colocando algemas grossas e prateadas que cobriam completamente seus pulsos.
— Você tem direito a um advogado, se não puder pagar por um, o estado cederá um para interceder por você.
Tyx sorriu ao olhar para Visionário que apesar de nem sequer gaguejar, parecia relutante em seu semblante.
Quando a algema fechou, Tyx fez uma expressão de dor, e o brilho em sua pupila foi rapidamente falhando até desaparecer por completo.
Maverick se aproximou de Tyx no chão, pegando o seu chapéu fedora e o girando em seus dedos.
— O mundo não dá voltas não é? Ele capota!
Tyx apenas olhou diretamente para Maverick, mas em seguida encarou Visionário, que agora desviava levemente o olhar da cena.
— Defensor Tyx! Não é…? — um sorriso emanou no rosto do homem velho ao olhar como se quisesse confirmar com Visionário, mas rapidamente encarando Tyx novamente. — Você está preso.

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