As luzes à distância pareciam interagir com as nuvens, os prédios que partiam do chão pareciam como alfinetes enormes que seriam capazes de furar os céus e os veículos voadores como vagalumes a distância; parecia como um vislumbre de um sonho, como um paraíso distante e inalcançável.

    E lá estavam os dois jovens, ambos se limpando da lama que estavam agora pouco cobertos e perto deles, o buraco feito no chão sujo do topo daquela construção.

    Karoline suspirava ao ainda tentar limpar a lama de seu cabelo, seus cantos franzidos demonstravam que ela certamente não estava muito feliz.

    Demian estava sentado, ainda sujo de lama, mas agora sentado na beirada e olhando para o horizonte.

    — Acha que realmente vai ser preso? — a voz de Demian chamou a atenção de Karoline.

    A jovem fazia um rabo de cavalo com seu cabelo arruinado, mas em seguida também se sentando ao lado do jovem.

    — Eu não sei, eu decidi procurar você assim que soube — a jovem respondeu com um suspiro. — Só não sabia que seria recebida assim…

    Demian se manteve calado por um segundo enchendo as bochechas de ar, deixando as pálpebras caídas e finalmente deixando o ar sair.

    — É, foi mal…

    — O que deu em você? Por que me atacou?

    — Eu não sei — disse Demian ao olhar para o chão, o local não era muito alto e ele conseguia ver sua bicicleta. — Acho que fiquei com medo.

    Karoline parecia irritada, mas ao ouvir isso ela mudou o semblante, agora ele apenas encarava o horizonte com compreensão.

    — Eu sei como é…

    Demian grunhiu, não de forma sarcástica, mas de descrença.

    — Sua vida é perfeita; você é filha de um Defensor, tem poderes incríveis, tem dinheiro, é bonita e popular — o jovem respondeu quase com um sussurro. — Como você poderia saber?

    A jovem parecia tremer, Demian olhou em sua direção, e então viu que ela estava rindo, de forma contida até deixar a gargalhada fluir por todo o seu ser.

    Ele encarou com uma sobrancelha levantada: a jovem ria até lágrimas escorrerem por seus olhos.

    — É assim que parece do outro lado da vitrine? — questionou a jovem ao limpar as lágrimas de seus olhos. — Nem eu sabia que minha vida era tão boa assim…

    — Vai me dizer que é mentira? — Demian perguntou ainda com descrença.

    A jovem se manteve olhando em direção às luzes no horizonte, o brilho refletido em seus olhos verdes transmitiam um ar de melancolia.

    Ela inicialmente hesitou em responder, mas respirou fundo e deixou escapar um longo suspiro.

    — A realidade é que eu me sinto como um extra terrestre.Demian torceu o lábio e inverteu as sobrancelhas.

    — O que…?

    Karoline sorriu, não olhando em direção do jovem.

    — Eu sinto como se eu não pertencesse a lugar algum — ela respondeu balançando os pés e entrelaçando os dedos. — Mas sinto que treinei tanto o jeito que as pessoas agem, que agora eu consigo vestir-me como um ser humano e apenas fingir.

    O vento bateu balançando os poucos fios de cabelo da jovem que não estavam cobertos de lama. E o silencioso som da cidade foi ensurdecido por um mero grilo que começou a cantar.

    Demian parou de olhar para a garota e também olhou em direção de Tlamanalli.

    — Eu vim para Nova Atlântida com a minha mãe — Demian disse ao passar a mão por seu pulso direito, sob sua artéria. — Viemos para cá depois de… muita coisa…

    O jovem respondeu com a voz embargada, Karoline olhou em sua direção e notou seu semblante levemente abatido.

    — O que importa é que minha mãe só tem a mim, e eu pensei em desistir — os dedos de Demian afundaram sob o seu pulso mas rapidamente foram removidos. — Eu me odiei por isso, por ser fraco quando ela sempre foi forte e fez tudo por mim.

    O grilo continuava a cantar e o vento a soprar.

    — Quando eu descobri que era um aprimorado, eu não sabia o que fazer — Demian também começou a balançar os pés. — Eu sei como as coisas são, se você não for um filho de um aprimorado, você praticamente não vai mais ver sua família e eu não podia fazer isso com ela…

    — Então, Tyx te ajudou com isso?

    — Mais que isso, ele me ajudou com um monte de coisas, por isso simplesmente ver ele ser preso e não poder fazer nada… — Demian respondeu fechando os olhos e suspirando.

    — Por isso que você não tem um EPIC e eu não achei nada sobre você fora o que Tyx me passou… — Karoline disse para si mesma em realização.

    — Eu pedi que eu não fosse integrado de forma oficial — Demian respondeu com um sorriso torto. — Até porque tecnicamente eu nem sou um aprimorado…

    Karoline levantou uma sobrancelha, olhando em direção de Demian.

    — Como assim?

    — Bom, eu não tenho um estigma.

    — Você não tem um IVP?

    — Nope!

    — Mas como isso é possível?

    Demian deu de ombros com um sorriso desconcertado.

    — E o que exatamente é isso? — Karoline perguntou ao olhar para as veias aparentes em seu braço e a pele ressecada.

    — Eu não sei explicar muito bem, só que parece que meu toque é capaz de corroer as coisas — Demian respondeu pegando um pequeno pedregulho. — Quando eu faço isso em objetos, eles viram pó, quando eu faço em seres vivos acontece isso.

    O pequeno pedregulho se transformou em poeira em instantes e a poeira esvaiu até desaparecer.

    — Então meu braço vai…?

    — Não, não! É temporário, geralmente volta ao normal em algumas horas… — Demian respondeu rapidamente balançando as mãos. — Tyx me fez testar diversas vezes nele.

    Karoline suspirou em alívio, sorrindo ao colocar a mão sobre o peito.

    — Tem certeza que você não é um mutado?

    — Tyx testou várias coisas em mim, mas nada funcionou, então ele disse que eu não era um aprimorado.

    Karoline apenas acenou a cabeça positivamente, voltando a olhar para a cidade a distância.

    — Por que você procurou por mim?

    — O que? — Karoline perguntou.

    — Você disse que veio direto até mim quando descobriu sobre Tyx — Demian olhou em direção da garota novamente. — Por que?

    — Eu não sei — a jovem respondeu olhando para baixo. — Eu realmente não sabia o que fazer, só imaginei que você poderia estar na mesma situação que eu.

    — Entendo.

    — Eu realmente estou perdida agora, Tyx disse que eu saberia fazer a coisa certa quando a hora chegasse.

    Demian silenciou-se por um momento, se colocou de pé e então, com um olhar determinado ele encarou para a cidade.

    — Então ele tem um plano, ainda temos como ajudar ele!

    — Como? Ele não explicou nada…

    — Deve ter a ver com a nossa equipe, o que você sabe?

    — Não muito, Tyx já foi condenado, mas…

    Demian piscou os olhos e encarou a jovem que estava pensativa.

    — Mas?

    — Existe o julgamento de Black, e eu fui convocada a comparecer e participar. — a jovem respondeu olhando para Demian.

    — Acha que ele estava se referindo a isso?— Talvez — a jovem também se pôs de pé. — mas não saber está me deixando louca.

    — Você só precisa confiar em si mesma. — Demian respondeu encarando a garota.

    Ela respondeu com um olhar de estranheza.

    — Isso é estranho vindo de você…

    — Se Tyx disse que você consegue, então eu acredito nele — Demian respondeu com seriedade. — E se ele acredita em você, eu também acredito, nós não podemos decepcionar ele, ele está contando conosco!

    A jovem deixou escapar um leve sorriso, passando as mãos no seus shorts para tentar limpá-las.

    — Então, estamos juntos nessa? — a jovem perguntou oferecendo uma mão. Demian olhou para a mão, desta vez ele não hesitou e aceitou, apertando a mão.

    — É claro, pelo Tyx. — Demian respondeu com um sorriso que logo ficou torto. — Mas isso só depois do pagamento…

    — Pagamento? — Karoline perguntou inclinando a cabeça.

    — Sim, Tyx me pagava pelo meu tempo — Demian disse coçando atrás de sua cabeça — Você vai me pagar também, não é?

    Karoline fechou os olhos e demonstrou um sorriso raivoso e firmou o aperto, o que fez Demian recuar um pouco.

    — Tudo bem, eu vou pagar você.

    — Então, estamos juntos nessa. — Demian respondeu ao soltar a mão da jovem e balança-lá. — Como você tem um aperto tão firme?

    A jovem apenas riu e deu um leve soco no ombro do rapaz.

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