Índice de Capítulo

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    — Agrupar!

    A ordem de Ana veio antes do primeiro verbo assentar. Alex deslizou à esquerda com o calor subindo cada vez mais. Miguel quebrou o pelotão em três blocos e encaixou cada um no lugar sem desperdiçar um segundo sequer. 

    Os murmúrios do bibliotecário ficaram mais rápidos. Traços borrados da sua pele começaram a se iluminar e os dez livros nas correntes perderam o peso, subindo tecnicamente antes de orbitá-lo em elipses caprichosas com páginas virando como se respirassem.

    — Índice. — gritou, e toda a cidade pareceu gritar junto.

    — Atirem, desgraçados, atirem! — Ana sacou a própria pistola e queimou os dois tiros que tinha. Não mirou em Brayner, algo dentro dela dizia que não conseguiria acertar se o fizesse.

    Os dois azarados guerreiros para quem apontou caíram de uma só vez nos degraus, e ela, sem pausar o movimento, largou o ferro fumegante e estourou a fita de pano amarrada ao ombro. A cruz negra deslizou para as suas mãos com uma graça que contrariava sua aparência medonha.

    “Cruz” não foi um nome que escolheu sozinha, o nome pegou sozinho durante as invasões. Não gostava dele, o termo parecia estranho quando o usava para se referir a sua lâmina. Estranho, mas honesto. Desde que as duas protuberâncias apareceram na parte superior da espada-lança, cruz simplesmente… encaixava.

    De qualquer forma, não vinha usando muito a arma. Ultimamente, a guerra tinha virado música feita de cima do convés, então mal se acostumou com o peso do aço negro. Ali, no entanto, precisava de cortes, não de alegoria. 

    Não podia deixar que Brayner continuasse a ler.

    Infelizmente, só vontade não era o suficiente para pará-lo.

    O povo de Leviathan se curvou. Deu para ouvir os ossos estalando de longe. Uma luz amarelada, quase vidro, surgiu no abdome de cada um e subiu para a nuca, acendendo os olhos por dentro. 

    — Capítulo um — Brayner voltou a gritar enquanto largava o livro e pegava mais dois dos que o rodeavam. O tracejado de runas nasceu em seus dedos em um flash e correu até sua garganta. — Concordia.

    A palavra colou no ar e a aura dos civis se espalhou como verniz. Tudo brilhava quando as costas se endireitaram e os passos, antes caóticos, acharam um ritmo de procissão.

    Ana grunhiu e se lançou em direção a ele. A estocada estava bem alinhada quando notou as três lâminas vindo juntas, cronometradas como se tivessem treinado o golpe por anos só para a atingir. Ela recuou um palmo, girou o ombro além do que a coluna considera saudável e aparou as três espadas juntas. Metal raspou contra metal, mas logo as armas voaram com um arco ascendente da grande cruz. 

    Se lançou novamente para frente e a lâmina se enterrou em dois dos homens em um golpe seco. Não tiveram chance de gritar antes de desmoronarem. Ela largou a arma sem hesitação, torceu o tronco para baixo e subiu a perna. O calcanhar desceu na cabeça do terceiro oponente como um martelo, e sangue espirrou para todo lado.

    — Não podemos conversar antes de começar a briga? — ela soltou, limpando os respingos da bochecha com as costas da mão.

    No entanto, apesar dos murmúrios ainda estarem sendo ouvidos, Brayner já não estava onde deveria. Ana não teve o luxo de procurá-lo. No canto do olho, viu o efeito espalhar: rostos que há pouco só os fuzilavam com o olhar agora marchavam num mesmo compasso. Muitos tombavam sob os tiros dos piratas, mas, entre a bala que atravessava um estômago e a próxima que girava no tambor, o conjunto avançava uma dúzia de palmos.

    — Capítulo dois. Potentia.

    A luz amarelada puxou para um rosa febril. O passo não apenas manteve o ritmo: ganhou voz. Gritos, corrida, uma fome coletiva em direção à biblioteca.

    — Recuem para as paredes. Não sejam cercados! — Ana já corria até Miguel enquanto falava.

    O recuo veio correto: um passo, tiro; mais um passo, tiro. Uma fileira menor puxou sabres e aparou o que chegava perto demais. Ainda assim, dois dos seus já estavam deitados sem respirar, seus corpos fortes visíveis demais entre os cadáveres magros do povo do céu. Ana apertou os lábios.

    — A situação tá uma merda.

    — É, mas não são tão fortes. Devemos conseguir segurar até os aviões da Cassandra, minha rainha.

    Ana olhou para cima, ouvindo mais três cliques do monóculo em algum lugar entre as colunas.

    — Nesse ritmo, segurar não vai ser o suficiente… — rosnou, enterrando a ponta da cruz no peito de um que vinha em linha reta demais. — Marujos! — riu alto. — Preparem uma montanha de corpos! 

    Um suspiro coletivo de alívio veio da tripulação. Os piratas apertaram a formação, deixando armas ombro a ombro. Sabiam que a ordem da capitã viria junto de música, e não era hora de se colocar a frente.

    Não contavam apenas com o novo brado que ecoou de algum ponto dos degraus.

    — Capítulo 3. Feritas.

    A luz mudou de novo. O vermelho escureceu para um marrom sujo. 

    O som cessou. E então, lâminas caíram das mãos.

    Corpos enrijeceram e, como um único bicho faminto, o organismo chamado povo saltou.

    — Se abaixem e levantem as armas! — A ordem veio de Alex, que já se colocou em posição. Travou o cabo da arma na diagonal, o apoiando diretamente no chão, seu corpo quase chegou ao ponto de se deitar. Os demais fizeram o mesmo, embora nem todos com a mesma técnica.

    A onda humana bateu em seguida. O som de ferro abrindo carne não é algo que se confunda, e mesmo assim, os saltos não pararam. Em um só impacto, o povo de Leviathan cobriu os trinta. A parede de piratas rangeu.

    — Firmem o calcanhar! — O vice-capitão corrompido mordeu as palavras entre os dentes.

    Por um momento, pareceu estar dando certo. Estavam segurando bem. Mas a cada corpo que empilhava, outro vinha por cima, depois mais um, e mais outro. Em segundos, já eram centenas empurrando sobre um tapete de gente e loucura. O mundo, então, fez aquele favor cruel de se calar de repente em um silêncio pesado.

    Brayner finalmente reapareceu. O monóculo ardia num laranja doentio e exalava um cheiro de queimado do ponto onde tocava a pele. Três livros estavam firmes em suas mãos, com as bordas também levemente chamuscadas. Os outros ainda o orbitam sem rumo. Ofegante, ele encarou um dos poucos homens que ainda se mantinham ao lado, longe do frenesi da batalha.

    — Desçam e eliminem os que sobraram. Mandem os corpos pro Lixão o mais rápido possível, não quero que o cheiro impregne no papel.

    O guarda assentiu com um sorriso desolado e ergueu a mão, outros repetiram o gesto. Os civis começaram a se levantar, puxando uns aos outros. Havia tristeza quando passavam pelos seus mortos, mas as mãos já sabiam o que fazer e não paravam.

    Brayner esvaziou os pulmões, satisfeito. Os livros desceram de uma vez, o corpo dobrou a coluna, vencido pelo cansaço. Virou-se para a porta, não queria ser visto assim.

    Foi quando um estalo de corda cortou a praça. Alto. Logo outro. E outro.

    O bibliotecário girou, furioso.

    — Eu já disse que os festivais acabaram. Desliguem essa música agora.

    Centenas de olhares se cruzaram, confusos. 

    — Senhor… — Um dos guardas engoliu seco. — Ninguém ligou os alto-falantes.
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