Índice de Capítulo

    div

    O sangue cascateava.

    A cada batida do coração por pouco não destruído, um jato quente escapava pelo buraco aberto no peito. Ana pressionou a palma sobre a ferida novamente, mas a mão só afundou mais. A pele rasgada cedeu sob os dedos, mole e quente como uma fruta passada.

    “Fecha… fecha, porra, FECHA!”

    A manifestação veio trêmula, uma camada de mana negra instável que devia se solidificar — mas se dissolvia no ar, espirrando fagulhas inúteis. O fluxo se partia, tremia, se desfazia antes mesmo de realmente se prender à carne. A dor subiu pela têmpora como um raio e a fez tropeçar contra a mesa.

    Ela puxou a primeira gaveta com tanta força que o puxador ficou na mão. Papéis, frascos vazios e tralhas vieram ao chão. A segunda, a terceira — tudo caiu, tudo foi chutado, tudo revirado sem qualquer método. Linhas cirúrgicas, estiletes não tão afiados, agulhas tortas, instrumentos de metal que não lembrava de ter guardado ali. Pegava tudo. Derrubava tudo. O sangue escorria pelos cotovelos, salpicando as bordas abertas dos móveis.

    — Ana! — Alex tentou tocar seu ombro.

    Ela se virou com um rugido. Instinto puro com um toque homicida.

    — Saiam. Os dois. AGORA. — O grito estalou a garganta; veio junto de um jorro de sangue que ela cuspiu no chão sem olhar. — EU DISSE AGORA!

    Miguel parou na porta, dividido entre medo e a vontade de ficar. Alex, ainda com as pupilas manchadas da insanidade recém-quebrada, tentou dar um passo, mas o olhar dela o paralisou. Um olhar dourado afundado que não era típico da Ana que ele conhecia, pregado à dor e a uma fúria que não tinha direção.

    — Vão. — A voz desabou num sussurro, mais fraco. — Não deixem ninguém entrar…

    Os dois recuaram. Ela nem esperou ver se a porta se fechava.

    — NIALA! — berrou, mesmo sabendo que o grito provavelmente não alcançaria a mulher. — PREPARE O VOO. E NÃO ME FAÇA REPETIR!

    Sua perna falhou. Ela se apoiou no balcão, respirando como se puxasse ar por uma fenda estreita. Apertou o tecido que cobria precariamente o olho perfurado e voltou a focar no peito, que silvava com o som de algo aberto demais para permitir vida por muito tempo. A mão esquerda tremia tanto que quase derrubou o fósforo.

    Acendeu o fogão.

    A chama respondeu num baque seco.

    O clarão azul refletiu na poça de sangue que já se formava ao redor dos pés.

    Ela pegou o ferro quente que usava para soldas em momentos de tédio. A ponta incandescente tremulava como um fogo-fátuo. O cheiro metálico do próprio corpo fez o estômago dar uma onda.

    — Vamos… vamos… — arfou com o que lhe restava de ar, posicionando o ferro na altura do peito. — É só carne. Sempre foi só carne.

    A pele chiou antes mesmo do contato total. Um som úmido, grotesco, queimado. O cheiro subiu rápido, denso, enjoativo.

    Ela gritou. Gritou com tudo.

    Gritou com a garganta rasgando, com o pulmão falhando, com a cabeça querendo apagar. O ferro tremeu, escapou por um instante da mão, mas ela o segurou de volta e pressionou mais forte, sentindo a carne dobrar e estalar sob o calor.

    A lágrima que desceu não era de dor — dor era uma velha conhecida — Era de raiva.

    Raiva dela mesma, raiva da falha, raiva de ter deixado a porra do alaúde lá embaixo, raiva de ter tido que fugir, raiva de estar viva.

    Sua espada, ao menos, Miguel teve a decência de trazer. Estava largada no chão atrás dela, encostada na cadeira. Não seria útil nessa situação, mas de alguma forma trazia conforto. Segurança.

    O cheiro de carne tostada inundou a cozinha. Ana largou o ferro no chão, cambaleante. O fluxo de sangue diminuiu — mas só isso não salvaria sua vida. Mordeu os lábios até sentir gosto sujo e voltou às gavetas quase às cegas.

    — Onde está… ONDE ESTÁ ESSA MERDA?! — vociferou, atirando uma caixa inteira contra a parede.

    Foi então que olhou pra mesa. Riu o mais alto que pode.

    “Preciso me acalmar, droga.”

    Balançou a cabeça. O núcleo da Colecionadora estava ali. Sempre estivera.

    Parado, brilhando de forma irritante, como se zombasse dela.

    Era basicamente um enfeite, uma lembrança de uma inimiga que já não existia. Às vezes Ana o estudava, às vezes só aprecia­va o brilho instável enquanto caía em memórias antigas — mas nunca avançara muito. A energia dentro dele vibrava como uma fera enjaulada, ameaçando explodir sempre que ela o forçava além do limite. Não sabia como abrir aquilo.

    Não ainda.

    Agora, entretanto, não via escolha além de o usar.

    Pegou-o num único agarre. Era grande demais, mas nada que um pouco de corte não resolvesse. O estilete deslizou de sua mão com precisão desesperada, cortando apenas o necessário. Pequenos pedaços de carne caíram sobre a mesa, ainda fumegantes. Ela focou nas minúsculas conexões vivas sob a pele, ajustando a abertura até que o metal pudesse adentrar.

    — Que sirva para algo, desgraçada — rosnou, empurrando o núcleo até onde a carne deixava.

    Esperou. Tentou infundir energia.

    Como esperado, nada aconteceu.

    Suspirou fundo — quase um soluço seco — e apoiou o peso do corpo em uma cadeira. Tudo tremia, mas cravou a mente no gesto. Desta vez, felizmente, não precisava criar nada, precisava apenas comandar. Impôs cada grama de força mental que possuía para guiar sua carne, a fazer avançar pelas pequenas aberturas do dispositivo.

    Um controle minucioso e infelizmente tão doloroso quanto se lembrava.

    Sua carne deslizou para dentro do metal, infiltrando-se nos espaços impossíveis, costurando-se ao núcleo com teimosia viva. Sentiu a fricção, o atrito quente, a mistura de sangue e energia ressoando em pulsos irregulares.

    Não parecia funcionar. Na verdade, não parecia nada.

    Até que aconteceu.

    Um choque atravessou seu corpo como uma lança elétrica. Ana arqueou violentamente para trás, o corpo curvado em espasmo absurdo, o ar fugindo dos pulmões como se tivesse levado um soco de dentro para fora. As pernas cederam. O chão girou.

    Por um instante horrível, pensou que fosse morrer ali, sufocando como uma idiota com um pedaço de metal enfiado no peito. A garganta tentou formar uma palavra, mas só um gemido rouco escapou.

    Então o núcleo pulsou. Foi uma batida forte, quase como se tivesse dois corações. Outra veio em seguida, ainda mais profunda.

    Algo em seus pulmões de repente forçou o ar para dentro dela. Foi como se uma mão invisível acertasse seu diafragma defeituoso e o obrigasse a funcionar. O ar entrou seco, rasgando a garganta, mas entrou. 

    Ela inspirou outra vez. E outra.

    O corpo respirava sem saber respirar; quem comandava aquilo não era ela.

    O núcleo estava fazendo o que o pulmão destroçado não podia.

    Ana caiu de lado, apoiando o antebraço no chão, arfando como um animal ferido. O tremor nas mãos diminuiu apenas o suficiente para ela perceber uma segunda coisa… Collectio tremeu.

    Não por completo, mas algo em sua estrutura, no casco lá embaixo. Não entendia como sentia aquilo, mas sentia.

    Ana franziu a sobrancelha, sorrindo e confusa, ainda meio cega pela dor.

    — …que porra foi isso?

    Não teve tempo de pensar.

    A porta foi escancarada com força, batendo contra a parede como um tiro.
    div


    Quer apoiar o projeto e garantir uma cópia física exclusiva de A Eternidade de Ana? Acesse nosso Apoia.se! Com uma contribuição a partir de R$ 5,00, você não só ajuda a tornar este sonho realidade, como também libera capítulos extras e faz parte da jornada de um autor apaixonado e determinado. 🌟

    Venha fazer parte dessa história! 💖

    Apoia-se: https://apoia.se/eda

    Discord oficial da obra: https://discord.com/invite/mquYDvZQ6p

    Galeria: https://www.instagram.com/eternidade_de_ana


    div

    Ficaremos sem imagens por um tempo, mas logo volto a postar!

    Estou meio sem tempo e não estão saindo resultados bons…

    Curtiu a leitura? 📚 Ajude a transformar Eternidade de Ana em um livro físico no APOIA.se! Link abaixo!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (3 votos)

    Nota