Índice de Capítulo

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    O primeiro golpe sempre levava toda a força.

    O corpo se punia caso hesitasse — as mãos formigavam por horas.

    Era um gesto de divisão. Antes e depois. Quando o aço cedia sob o impacto, o mundo ficava branco.

    O fogo lambeu seu rosto e quase levou junto os cabelos castanhos. O olho bom se estreitou com ferocidade contida. O outro girou sereno, enxergando o que o lado direito ignorava.

    A segunda martelada foi menos bruta, acertando como precisava acertar.

    Depois da terceira, o branco floresceu.

    — Malditas plantas…

     Martelou de novo.

    Flores. Folhas. Raízes.

    Nasciam pelas bordas da visão como rachaduras verdes atravessando a forja. Cresciam da bigorna, do chão, do próprio ar. Trepadeiras grossas se enroscavam no forno. Pétalas negras se abriam sob seus pés.

    Asha não ousava olhar diretamente.

    Não com a presença que sentia por trás delas.

    — Sai daqui… sai daqui… sai daqui…

    O martelo acompanhava os murmúrios.

    Às vezes funcionava.

    O que quer que fosse se dissipava como névoa esmagada pelo som do aço, deixando apenas um arrepio na nuca. Às vezes, no entanto, sentia a coisa se aproximar passo a passo.

    Hoje não foi um dos bons dias.

    Apertou os olhos. Prendeu a respiração. Sentiu a presença acima da bigorna.

    “Ela se sentou?”

    O martelo girou num arco violento quando seu corpo se lançou para trás por reflexo.

    — Acorda.

    O corpo inteiro tremeu.

    “Falou?”

    Os dedos apertaram o cabo com força suficiente para embranquecer os nós.

    “Pelo menos um golpe bem dado eu vou dar nesse desgraçado…”

    O braço recuou, preparando o giro.

    — Asha, acorda!

    Os olhos se arregalaram.

    O mundo voltou.

    O forno. A bigorna. O salão vazio.

    — Lina? 

    — Quem mais ia ser, doida?

    Asha piscou duas vezes, o coração ainda acelerado.

    — Eu… é que…

    — Tá, tá, depois me explica. — Lina já se inclinava com olhos brilhantes. — Deixa eu ver logo isso aí.

    — Isso o quê? 

    — A faca, mulher. A faca!

    Asha franziu o cenho.

    Olhou para baixo e só então notou seu martelo no chão.

    Em sua mão, uma faca militar negra descansava. Uma arma que não refletia a luz.

    “Quando terminei isso?”

    Passou o polegar pela lateral da lâmina.

    — Que estranho… 

    Devagar, estendeu a faca.

    Lina puxou de uma vez só. Ergueu a arma à altura dos olhos, bateu uma vez com a unha no metal, depois duas vezes com o chifre. O som foi limpo.

    — Se superou nessa, hein? O mestre vai gostar.

    Asha coçou o pescoço, sem jeito. Lançou um último olhar ao martelo no chão e deixou os ombros caírem.

    — Nem ferrando que mostro isso pra ele. Só vai servir pro velho me dar mais trabalho.

    — E daí? Cê nasceu pra isso. — Depois de mais um giro da faca, a pequena mulher bateu com o dedo na própria mão. — Ele se apaixonou por esses calos seus desde a primeira vez que viu.

    A ferreira exausta apenas assentiu. Se escorou no banco logo em seguida.

    — Mas e aí? — Lina continuou. — Posso ficar?

    — Fala como se minha opinião fosse mudar alguma coisa.

    A mulher sorriu e se acomodou no chão, encostada na bigorna.

    — Obrigada, amore mio.

    Mandou um beijo exagerado no ar, depois desenrolou o conjunto de ferramentas preso ao cinto.

    Asha apoiou o cotovelo na bigorna.

    — Não sei como você tem paciência pra essas runas. São uma chatice.

    — E bater em ferro é mais legal?

    — Lógico. Tem fogo, força… emoção.

    — O poder da Mãe também tem emoção — Lina bufou.

    Pegou um bisturi médico um pouco mais robusto do que se esperaria de tal instrumento e encostou a ponta no fogo da fornalha até que o metal brilhasse num vermelho contido.

    Ergueu a faca, sorriu para Asha e lentamente começou a cortar a arma.

    No início, nada aconteceu.

    Porém, a repetição não parou. Logo pequenos sulcos se formaram — traços milimétricos que não eram cicatrizes, mas sim linhas elegantes. Agressivas no detalhe, mas harmoniosas no conjunto.

    Aos poucos, a ferramenta escureceu. Uma fumaça fina escapou de dentro dela — não do fogo, mas do próprio metal. As marcas começaram a brilhar com um negro mais profundo que o restante da lâmina.

    Em meio a minutos que passavam apressados e camadas de runas que ameaçavam se sobrepor, o estranho efeito se agitou. Parou de se concentrar no bisturi e tampouco retornou para Lina.

    A fumaça moveu-se para a faca.

    Seguiu um traço por vez, preenchendo os sulcos como tinta viva.

    Quando as mãos da artesã finalmente cessaram, dois fios de sangue escorriam de seus olhos.

    — Isso ainda vai te matar. — Asha cruzou os braços.

    — Vai mesmo. E tá tudo bem.

    Lina soltou um sorriso pequeno.

    Encostou a lâmina no próprio sangue escuro. A faca sugou de uma vez.

    Uma faixa vermelha nasceu entre as linhas negras, pulsando por um segundo antes de estabilizar.

    — Rejeitou? — Asha se inclinou, observando.

    — Um pouco… mas a maior parte entrou.

    A ferreira tomou a faca das mãos trêmulas dela.

    — Até que deu um charme — murmurou.

    Lina revirou os olhos. 

    — Falhei de novo…

    — Deixa disso. As runas tão perfeitas.

    — Ainda é uma falha. Um desrespeito com a Mãe.

    Asha prendeu a faca no cinto. Levantou-se e puxou Lina pelos braços, erguendo-a.

    — Nem vem com essa depressão hoje. Bora subior que o velho deve estar puto por eu ter ficado aqui o dia todo. Ele vai matar nós du…

    A porta explodiu para dentro.

    O estrondo ecoou pelo salão.

    Um homem entrou cambaleando, agarrando o próprio peito. Sangue jorrava da boca em goles grossos, quase mais do que da ferida aberta que tentava conter.

    Ele deu quatro passos antes de cair.

    Não houve tempo para entender. Passos firmes cruzaram a porta logo atrás.

    A invasora, no entanto, foi quem arregalou os olhos ao atravessar o limiar.

    — Irmã?
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