Índice de Capítulo

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    Carroças não andam bem na neve.

    Balançam, rangem, atolam. Péssimos lugares para manter alguém dormindo.

    Ainda assim, Asha acordou dentro de uma.

    Demorou um pouco para abrir os olhos. Naquele mundo branco, a luz doía quando se olhava direto para ela.

    Apalpou o próprio corpo. Nenhuma dor.

    Sentou devagar.

    O interior da carroça não era grande, mas estava cheio. Uma caixa com roupas, outra com ferramentas e tralhas diversas. Dois barris que, pelo cheiro ácido, deviam guardar frutas em conserva. Nos três últimos, ela apostaria sem medo: hidromel roubado do Cinzel Silencioso.

    Uma pedra no caminho fez a carroça pular.

    O corpo dela foi junto, batendo a lateral do abdômen em um dos baús.

    — Ngh…

    Resmungou, ajeitando-se no banco.

    À frente dela estavam três pares de chifres.

    Duas mulheres e uma cabra da montanha enorme puxando tudo.

    Lina virou o rosto quando percebeu o movimento. Se apoiou no ombro de Joana e saltou para a parte de trás da carroça.

    — Finalmente acordou, hein.

    Asha abriu espaço para ela sentar.

    — Quando eu dormi?

    — Na forja do salão. — Lina deu de ombros. — Desmaiou de um segundo pro outro. Tá tudo bem?

    As sobrancelhas de Asha se juntaram.

    Ela lembrava da briga. Do mestre quase sem respirar. Da acusação.

    Apertou os lábios.

    — Li… eu matei mesmo suas irmãs?

    A pequena sombra a encarou. Abriu a boca algumas vezes sem falar nada.

    Suspirou.

    — Isso eu não sei. — Tocou o peito de Asha com um dedo. — Mas que elas tão aqui… tão sim.

    Asha baixou o olhar.

    — Me desculpa…

    — Deixa de ser boba.

    O sorriso de Lina era pequeno. Triste.

    Ela se inclinou e deu um beijo breve no canto da boca de Asha.

    — O que passou, passou. Tenho certeza que teve uma razão pra acontecer o que aconteceu.

    — Mesmo assim…

    Lina beijou de novo. Dessa vez cobrindo a boca dela por inteiro.

    — “Mesmo assim” nada. Só esquece isso.

    Asha ficou parada por alguns segundos, indecisa.

    Beliscou os próprios dedos. Suspirou. Deixou o corpo cair contra um barril próximo.

    Quando falou, ainda evitou olhar Lina diretamente.

    — E aí… o mestre tá bem?

    Lina fez uma careta.

    — “Bem” é uma palavra forte… mas tá respirando. O velho é duro de matar.

    — Mas é velho.

    — Você subestima demais ele. — Lina riu. — Uma semana de descanso e ele já vai estar de volta arrumando as ferramentas do pessoal da vila. Cê vai ver.

    Asha revirou os olhos.

    — Arrumando ferramenta o caramba. Vai caçar a gente até o fim do mundo quando perceber o quanto você roubou de bebida.

    — Ah, isso eu não duvido.

    Lina riu também e encostou a cabeça no ombro dela.

    Ficaram ali, balançando com a carroça, apreciando o silencioso mundo de neve, até que Asha deu um pequeno tranco de repente.

    Olhou de lado para Lina.

    — Mas e aí… — murmurou. — Não vai me explicar o que eu tô fazendo numa carroça de cabra?

    — Tamo sendo sequestrada!

    Asha cruzou os braços, mantendo apenas um sorriso torto.

    Já o de Lina se abriu ainda mais.

    Joana, no entanto, foi quem tomou a frente.

    — São minhas contratadas.

    — Viu? — Lina sussurrou, fazendo concha com a mão ao lado da boca. — Sequestro.

    A sombra guerreira bufou e puxou o cabresto.

    A cabra travou as patas na neve.

    A carroça deu um solavanco seco. Um barril girou meio palmo antes de Lina segurá-lo com o pé.

    Joana não se virou. Apenas estendeu a mão para trás.

    O estandarte deslizou do suporte preso ao arreio do animal.

    Ela o ergueu na direção de Asha.

    — Vocês vão arrumar pra mim. Vou pagar bem, é claro.

    A ferreira não respondeu. Estava olhando para o metal.

    A haste branca não refletia a luz da neve. Engolia.

    Runas minúsculas percorriam cada trecho como cicatrizes quase invisíveis. Algumas estavam rachadas. Outras pareciam ter sido refeitas tantas vezes que já não eram exatamente as mesmas.

    Os olhos de Asha brilharam.

    A mão dela quase avançou sozinha.

    “Nunca vi esse tipo de metal.”

    Percebendo para onde seu corpo estava indo, bateu duas vezes nas próprias bochechas e forçou o olhar para Joana.

    — A gente tava literalmente numa forja — disse, apontando com o polegar para trás. — Não podia ter feito isso lá?

    Joana girou o estandarte uma vez antes de prendê-lo novamente no arreio.

    — Podia.

    Puxou o cabresto outra vez.

    A cabra bufou vapor no ar branco.

    — Mas não vou poder voltar lá toda vez que isso quebrar.

    Asha inclinou a cabeça.

    — Toda vez? Uma arma bem feita dura anos.

    Joana sorriu e soltou um grunhido curto.

    — Você não tá errada, garota. Mas também não tá certa.

    Lina cutucou o braço da ferreira com o cotovelo.

    — Essa megera é mercenária de expedição.

    — E daí? — murmurou Asha.

    A cabra começou a andar outra vez, abrindo caminho na neve profunda.

    Joana respondeu sem olhar para trás.

    — E daí… — Puxou o cabresto com mais força — que armas e guerra têm uma relação complicada.

    Uma roda afundou na neve antes de voltar a girar.
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