Índice de Capítulo

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    — Aceita?

    A figura estendeu uma pequena seringa para Lúcia. A voz saía abafada pelas vendas que cobriam quase todo o rosto. As orelhas longas escapavam pelas frestas do tecido.

    — Não, valeu. Vim só buscar o pacote.

    — Cê que perde.

    Dando de ombros, o elfo girou a seringa duas vezes entre os dedos antes de cravá-la no próprio braço. O líquido alaranjado entrou de uma vez, brilhando levemente quando tocou o sangue. Ele cambaleou, caiu na cadeira e jogou a cabeça para trás.

    Lúcia observou a cena com uma careta.

    Balançou os pés, esperando.

    Felizmente a consciência do homem voltou rápido. Sem dizer nada, ele puxou uma bolsa grande de baixo da única mesa do quarto.

    — Tá ligada onde fica o galpão três?

    — Na verdade, não. Minhas entregas sempre foram no sete.

    O elfo suspirou alto. Tirou um pequeno dispositivo do bolso, deu dois tapinhas nele e um mapa holográfico surgiu entre os dois.

    — Cidade… ainda cidade… — apontou para as marcações azuis. — Vila. Vila. Vila. Galpão.

    — É pro leste?

    — Isso aí.

    Lúcia se inclinou para observar melhor o mapa translúcido. Quando se deu por satisfeita, jogou a bolsa no ombro.

    Então franziu a testa.

    — Aqui tem mais que o combinado.

    — Decisão de última hora. O pagamento já vai tá com o ajuste.

    Ela cruzou os braços.

    — Trinta por cento antes.

    — Nem ferrando. Cê sabe que nem tenho esse dinheiro aqui.

    Lúcia largou a bolsa e se virou para sair.

    O elfo saltou da cadeira e entrou na frente dela.

    — Calma lá. Realmente não tô com grana… mas o que cê acha de uns dez por cento a mais?

    — Quinze.

    Ele pensou por meio segundo.

    — Quinze então — suspirou.

    Lúcia não respondeu. Apenas pegou a bolsa de novo, ajustou a máscara e saiu.

    A rua estava quieta demais. Ela ficou parada por um momento, observando as esquinas, as janelas escuras, as sombras que não se moviam.

    Só então começou a andar.

    Levou mais de uma hora até alcançar o lado direito da muralha. Esperou o tempo suficiente para ter certeza de que a patrulha já tinha passado.

    Depois repetiu a sequência de toques nas tábuas que fingiam ser apenas entulho encostado no muro.

    A porta demorou. Mas abriu.

    Do outro lado não havia ninguém.

    Apenas a floresta.

    Correu com todas as suas forças.

    Só parou quando encontrou o riacho.

    Apoiou a mochila numa pedra e esvaziou os bolsos.

    Nem se deu ao trabalho de tirar as roupas.

    Entrou direto na água.

    Esfregou a pele com força até arder, deixando a correnteza levar o máximo possível da sujeira da cidade.

    Quando terminou, estalou os dedos. Uma pequena chama surgiu entre eles, quente o bastante para secar as roupas e o cabelo.

    Depois pegou um pequeno dispositivo de um único botão entre os objetos espalhados na pedra.

    Apertou, sentou, esperou.

    Quinze minutos depois, ouviu movimento entre as árvores.

    — Tava por perto?

    — Por sorte, sim.

    A voz grave fez o peito de Lúcia tremer. Ela se levantou e acariciou o pescoço do grande lobo negro.

    — Hoje a gente vai ter que correr. Tem que chegar até amanhã cedo.

    Garm inclinou a cabeça.

    — Não é tempo mais que suficiente?

    — Lugar diferente.

    O lobo grunhiu e se abaixou.

    — E tem estrada?

    — Parece que sim.

    Lúcia prendeu a bolsa na lateral do corpo dele, saltou para as costas do animal e amarrou um pano ao redor do rosto.

    — Bora?

    — Claro.

    Garm disparou pela floresta.

    As árvores eram antigas e espaçadas. Troncos largos, raízes profundas, vegetação alta o suficiente para esconder quase qualquer coisa.

    Havia espaço de sobra para correr, apesar de a grama amassada denunciar a passagem do lobo.

    Mal tinham corrido trinta minutos quando o pelo do lobo eriçou.

    Garm parou. 

    Foi tão repentino que Lúcia teria caído se não se segurasse com toda força no pelo do animal.

    Não precisou perguntar o motivo. A lança estava cravada no chão.

    Um segundo depois, a arma explodiu em um clarão.

    — Volta, agora!

    Garm já estava girando antes do grito terminar.

    Mas outra lança caiu do nada e explodiu no solo.

    Um rosnado ecoou entre as árvores. Correntes sacudiram. Metal raspou contra metal.

    — Ih… que surpresa. — A voz saiu de dentro de uma armadura enorme que surgia lentamente de trás de uma árvore. — A caipira do lobo.

    A coisa tinha quase o dobro do tamanho de um homem. Cada passo deixava sulcos profundos na terra. Ele arrancou a lança do chão. A energia que corria pela arma acendeu as runas gravadas no metal.

    No centro da armadura, uma estrela de cinco pontas rachada brilhava, apoiada sobre um círculo azul profundo. Dentro dele, pequenas estrelas prateadas formavam a constelação do Cruzeiro do Sul. Ao redor, raios dourados se espalhavam como uma explosão congelada em metal.

    Dois ramos cruzados sustentavam o conjunto — café de um lado, folhas de louro do outro —, presos por uma faixa verde-amarela na base. Mesmo sob a sujeira e os riscos da armadura, o emblema ainda carregava o peso de algo oficial.

    Outras duas figuras iguais apareceram logo depois, rindo.

    Mas a atenção de Lúcia estava na quarta pessoa.

    Uma mulher.

    Cabelo branco curto, separado pelas mesmas orelhas pontudas que a jovem guerreira já estava cansada de ver. Pele marcada de sol. Usava uma saia longa de camuflagem militar e partes de armadura pesada nas áreas vitais. Dezenas de amuletos e ferramentas pendiam do cinto. O mesmo brasão estava bordado na camisa branca.

    Ela caminhava com um sorriso desconfortável. Na mão, levava um enorme lagarto branco em uma coleira. A criatura tinha quatro pequenos chifres, pernas fortes, corpo esguio — lembrava um cachorro de grande porte.

    Rosnou para Garm, mas logo se deitou aos pés da mulher.

    — Desce, garota.

    A frase saiu baixa. Mesmo assim, Lúcia obedeceu.

    — Porra… — sussurrou para si mesma. — A Eva vai me matar.
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