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    Capítulo 091 – ‎Armadilha de raposa!

    O Grande Castelo de Sihêon mantinha-se imponente sobre todo o reino, aquelas torres de pedra cinzenta perfurando o céu nublado instigavam um poder solitário.

    No salão do trono, existia uma luz filtrada pelas janelas mais altas, que criavam sombras que tentavam dançar na tapeçaria avermelhada que se estendia finitamente.

    Os brasões das casas nobres pendiam nas paredes, mas no mais alto, o brasão dos Alvoradas.

    Um escudo verde com uma listra em seta para cima laranja, com um grande e imponente sol no meio.

    Ayel ocupava o trono de madeira entalhada e ferro, seus cabelos ruivos estavam levemente desgrenhados, o que contrastava com a seriedade da sua postura.

    O imperador bárbaro vestia, como sempre, couro simples. Entretanto, sua presença impunha tamanho respeito mesmo sem precisar de quaisquer vestes luxuosas que outros monarcas prefeririam.

    Os olhos do tribal focavam no pergaminho que ele segurava entre os dedos, os músculos do rosto estavam tensos enquanto ele lia e relia as palavras que estavam escritas.

    Yelena permanecia ao lado do trono, sua pele extremamente pálida soava quase translúcida sob a luz da manhã. Ela ajeitara seus cabelos loiros quase esbranquiçados que caíam sobre seus ombros enquanto observava atentamente cada movimento que vinha do imperador.

    Kord estava ao outro lado, à esquerda, após as escadinhas que levavam ao trono elevado. O guerreiro de cabelos arrepiados e castanhos mantinha uma posição de guarda, com sua armadura reluzindo discretamente.

    No corredor que levava ao trono, ainda estavam ambos os algozes que mantinham suas posições de reverência: Mudamir e Dalila.

    O homem, líder dos algozes, se ajoelhava com elegância, a sua máscara de porcelana no formato de uma raposa ocultava completamente as suas expressões.

    Já sua subalterna mantinha a mesma postura reverente, a menina de cabelos pretos médios com franja e pele caramelo parecia sussurrar levemente a cada respiração, mas, mesmo ajoelhada, sua postura continuava sendo regida por dignidade.

    O silêncio pairava no ar enquanto Ayel terminava de ler o pergaminho pela segunda, talvez terceira vez.

    O imperador enrolara cuidadosamente o documento, seus dedos moviam-se com uma precisão levemente assustadora.

    Essa carta continha informações preciosas sobre como adentrar na torre de Crono, o mago poderoso que havia ceifado a vida do irmão mais velho do tribal, Aiden.

    Cada palavra escrita por Anusha representava tanto uma oportunidade quanto um possível perigo.

    Até porque, o próprio Anusha quem tentara assassinar o rei Alvorada.

    — Yelena — disse o imperador, estendendo o pergaminho enrolado em direção à general.

    A mulher aceitou prontamente o documento, desenrolando cuidadosamente o pergaminho. Ela examinara o conteúdo com uma atenção bastante meticulosa.

    — Confira o conteúdo… Confira principalmente a assinatura.

    Yelena inclinou a cabeça, demonstrando que compreendeu as ordens.

    Ela estudou a assinatura no final do documento, comparava mentalmente com outras assinaturas que já havia visto em arquivos oficiais.

    A líder da guarda real conhecia bem a caligrafia do Anusha. Já que o algoz havia assinado diversos documentos para a coroa durante os seus anos de serviço.

    Após poucos momentos de análise silenciosa, Yelena erguera os olhos em direção a Ayel.

    — É a assinatura fidedigna de Anusha — ela declarou. — Ele já assinou diversos documentos para a coroa. Era exatamente essa.

    O bárbaro manteve-se imóvel no trono.

    Ele processava a informação.

    A confirmação de Yelena validava completamente a autenticidade do documento… Embora ele não pudesse dizer o mesmo sobre a veracidade do conteúdo que havia sido gravado naquele pergaminho.

    O imperador voltou o seu olhar para os algozes que permaneciam ajoelhados no corredor.

    — Mesmo… Que a assinatura seja dele. Devo eu confiar nas palavras de um lunático?

    — Em últimos momentos de lucidez — explicou Mudamir. — Anusha entregou uma forma de acabar com o mal que alimenta o desejo de vingança do senhor, Imperador.

    Ayel riu.

    Um som seco e sem humor algum que ecoou pelo salão.

    O imperador inclinara ligeiramente para frente no seu trono, com seus cabelos caindo sobre os olhos por um breve instante, por conta do movimento ser muito brusco.

    — Isso poderia ser outra armadilha do algoz!

    O bárbaro declarou, com uma voz tão carregada de amargura, principalmente porque ele já havia sido traído.

    — Uma última tentativa de me destruir! Mesmo após a sua morte pela minha espada.

    O senhor de Maut Ka Mandir manteve-se imóvel.

    — Já que eu zelo tanto pelos algozes… Tanto que entreguei tanto a minha vida quanto a vida de Dalila à mercê do senhor, Imperador, em nome da segurança dos meus irmãos. Eu não mentiria.

    A frase do homem mascarado pesou no silêncio que se sucedeu.

    Dalila, que estava ao lado, continuara em sua reverência, mas seus ombros pareceram se ajeitar enquanto escutava as palavras do seu líder.

    Eles haviam entregado suas próprias vidas como garantia. Tudo isso para proteger os outros algozes que ainda sofriam a quarentena.

    — Muito bem — declarou finalmente o monarca, erguendo-se do trono com movimentos fluidos. — Ordeno que o conteúdo dessa carta seja devidamente testado para uso futuro.

    O imperador caminhou alguns passos à frente do trono, seus passos ecoando no mármore. Kord ajustou discretamente sua posição, mantendo-se alerta enquanto observava a cena se desenrolar.

    Ayel compreendia o sacrifício vindo dos dois que estavam à sua frente, mas a desconfiança ainda existia no seu coração, alimentada principalmente pela perda de Aiden e traição de Anusha.

    — Quero que os algozes se aventurem no meio do Bosque das Folhas Densas — continuou o imperador, sua voz ganhando um tom de comando — a fim de seguir todas as instruções na carta para averiguar sua veracidade.

    Mudamir ergueu rapidamente a sua cabeça.

    Mesmo com a máscara ocultando as suas expressões, a sua voz trazia uma nota de surpresa que era impossível esconder, inclusive sua entonação neutra habitual fora quebrada.

    — Majestade… O quão perigoso isso seria?

    O Bosque das Folhas Densas era um velho conhecido, principalmente por ser um dos lugares mais perigosos do reino, pouco se sabia do que poderia ainda repousar de lá.

    Depois da infestação de goblins.

    Mesmo com a recuperação parcial do bosque, havia uma parte fechada, intocada, assustadora.

    O tribal cruzou os braços, um sorriso quase imperceptível passou rapidamente nos seus lábios, mas quase ninguém reparou a tempo.

    — Você pode escolher quais algozes farão essa excursão, solicito que não se preocupe, pois eu não vou poupar recursos.

    Ayel fizera uma boa pausa, para fazer com que todos compreendessem, então ele prosseguiu:

    — É preciso deixar claro que, se você aceitar essa excursão… Então, os algozes serão perdoados.

    A promessa ecoou como uma oferta bastante tentadora, mas também gritava uma armadilha em potencial.

    O perdão completo dos algozes dependia do sucesso de uma missão extremamente perigosa, e a vida de quem participasse estaria em risco constante.

    Mudamir sorriu, embora a máscara escondesse isso dele, ele estava surpreso e levemente contrariado.

    “Ele nos pegou… Se for realmente uma armadilha do Anusha, os próprios algozes sofrerão as consequências… Que bárbaro é esse que consegue pensar tão além?”

    Enquanto o líder dos algozes continuava quieto, pela primeira vez desde o início da conversa, Dalila erguera a cabeça.

    — O imperador com o qual já dividi algumas canecas de hidromel na taverna… Não seria tão cruel a ponto de tentar punir os algozes mesmo depois de todo o período de quarentena, seria?

    Seus olhos encontraram os olhos de Ayel com uma coragem que surpreendera até mesmo Yelena, que observava toda a interação.

    Ayel riu mais uma vez, porém agora o som carregava uma nuance diferente.

    Nostalgia.

    — Confio na tentativa dos algozes de buscarem a sua redenção, mas não significa que eu dobraria diante das palavras escritas por um homem que tentou me matar.

    O imperador voltou a caminhar, seus passos medidos enquanto refletia sobre suas próprias palavras. A luz das janelas criava sombras alongadas que seguiam seus movimentos.

    — Por isso desejo designar que sejam apurados os fatos pelos próprios algozes — continuou Ayel, voltando-se novamente para os dois ajoelhados — antes de eu mesmo tentar por um fim nisso.

    Suas palavras revelavam uma camada de estratégia que se escondia por trás de uma certa crueldade.

    Ayel não desejava simplesmente punir, como também não desejava confiar cegamente.

    Ele desejava verificar a veracidade das informações por meio de uma prova prática.

    Então, quem melhor para testar as instruções de um algoz do que os outros algozes?

    Yelena abriu um sorriso, discreto, mas bastante orgulhoso.

    O tribal fechara seus olhos por um momento, quando ele finalmente os abriu, havia uma sombra de ódio que cruzava o seu rosto.

    Ayel não precisava sequer verbalizar o que ele sentia por Crono, o mago dos portais que matou Aiden.

    O ódio estava presente em cada um dos seus gestos.

    — Se tudo que estiver nesta carta for verdade… Vocês retornarão… Relatarão tudo… E eu partirei para cima desse homem com tudo que eu tenho.

    Existia, no fundo de tudo, uma determinação que era bastante calculada.

    Ayel pensava que, se Aiden não havia sido cuidadoso ao interagir com os magos dos portais, ele seria.

    O imperador bárbaro faria de tudo para não se deixar levar pela emoção cega… Embora a vingança queimasse no seu peito como um combustível, vermelho e poderoso.

    A líder da guarda real, que havia permanecido silenciosa durante boa parte da conversa, aproximou-se discretamente do tribal.

    Yelena sussurrou algo inaudível no ouvido do monarca, palavras tão baixas que nem mesmo o Kord, relativamente próximo, conseguira captar o que foi dito.

    Ayel inclinou a cabeça ligeiramente em direção à general, seus olhos encontrando os dela por um breve momento. Algo passou entre os dois, uma comunicação silenciosa que apenas eles compreendiam.

    Yelena então se afastou, seus passos leves e fluidos enquanto se retirava do salão do trono. Ela deixou o imperador, o guerreiro e os dois algozes sozinhos.

    Ayel voltou ao trono, sentando-se com um movimento que revelava um pouco de cansaço, um pouco de impaciência.

    O imperador observara os dois algozes que permaneciam ajoelhados.

    Mudamir soltou um ar de riso, como uma criança pega aprontando.

    — Meu imperador, pode se tranquilizar, uma ordem dada à guilda dos algozes é uma tarefa que pode ser considerada feita.

    Tanto Mudamir quanto Dalila abaixaram as cabeças.

    Por um momento, a expressão do Ayel suavizou ligeiramente.

    — Ótimo, nesse caso, podem se retirar — ordenou o monarca, sua voz carregando uma nota final de autoridade.

    Os dois algozes ergueram-se com movimentos sincronizados, mantendo a reverência mesmo após terem se levantado.

    Eles fizeram uma última inclinação respeitosa antes de se voltarem pelo corredor de mármore.

    Kord permaneceu em sua posição, observando a retirada dos algozes com atenção. O guerreiro não relaxou sua postura de guarda, mantendo-se alerta mesmo após a partida dos visitantes.

    O salão do trono voltou a ficar em relativo silêncio, apenas o sussurro do vento e os sons distantes do castelo quebrando a quietude.

    Ayel permaneceu sentado no trono, seus dedos batucavam levemente nos braços da cadeira enquanto refletia sobre tudo que havia acabado de discutir.

    Poucos momentos se passaram antes que os passos pesados de uma armadura ecoassem pelo corredor.

    Um soldado da guarda adentrou o salão. O guarda ajoelhou-se diante do trono, mantendo a cabeça baixa em sinal de respeito.

    — Sua Majestade — anunciou o soldado, sua voz ecoando pelo amplo salão do tribal — a senhorita Kassandra acaba de se apresentar.


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