Capítulo 095 - O imaterial!
Capítulo 095 – O imaterial!
Kassandra piscara.
E o claro branco da orbe ainda latejava atrás das suas pálpebras…
Quando a necromante abriu finalmente os olhos. O salão do trono onde ela estava não era mais o mesmo.
As paredes altas e os vitrais haviam cedido lugar a uma versão muito mais sombria e corrompida do mesmo espaço.
O ar pesava tanto, parecia uma névoa antiga, ela também não estava mais segurando a relíquia.
Suas mãos estavam vazias.
Ninguém mais estava no salão.
A jovem dos cabelos acobreados fitou com concentração o ambiente e não reconheceu nada do que via.
O salão parecia um espelho quebrado do que era o original. As colunas erguiam-se ainda… Mas com rachaduras profundas e manchas por sombras que escorriam até o chão.
O tapete que levava ao trono estava desfiado e bastante escurecido, como se houvesse muita influência do tempo por ali.
Tempo e podridão.
Não existia alguma luz natural, apenas uma espécie permanente de crepúsculo, uma estranha claridade que não vinha de lugar nenhum.
As belas janelas do castelo, que outrora filtravam o sol, agora estavam opacas e destruídas.
Nenhum reflexo colorido. Apenas aquele crepúsculo uniforme.
Uma penumbra densa rodeava uma pequena camada obscura e destruída, carregada de entropia.
Os objetos e a estrutura do castelo ainda mantinham a sua forma, mas a energia estava corrompida, como se o lugar tivesse envelhecido séculos e mais séculos apenas no piscar de olhos da necromante.
Kassandra tentara dar um passo, entretanto seu corpo respondeu com uma lentidão muito estranha.
Cada movimento exigia muito esforço, como se ela se movesse dentro da água, seus braços e as pernas deslizavam de forma contínua e pesada.
Ela caminhou em direção a uma das laterais do salão, depois até a outra lateral.
Confusa.
Cada um dos movimentos era um esforço inexplicável, levantar o braço ou girar o tronco era custoso demais.
Tudo parecia fluir em câmera lenta, contínuo, como se o ar fosse na verdade, uma água densa.
O chão sequer conseguia transmitir a mínima sensação de contato, os pés da necromante tocavam algo que não era sólido, mas também não era vazio. Era… Algo.
Ela conseguia andar, mas não conseguia sentir o piso. A líder da guilda dos necromantes parou no meio daquele espaço e encarou as ruínas à sua volta.
“Onde estão os outros?”
A Yelena, que a encarava com desdém, o Bruxo Negro, o imperador…
Todos haviam sido cegos pelo clarão, Kassandra pensava que ela pudesse estar em um lado e eles do outro.
Ela não conseguia saber se estavam bem, mas ela teorizava.
Talvez o tempo não corresse igual nos dois lados, já que ela via o trono ao fundo, que estava desfigurado. A estrutura permanecia, mas manchada por veios escuros, quase como se corrompida pela entropia.
Uma abertura brilhava ao fundo, uma luz branca e bastante limpa, parecia bastante com o clarão da orbe.
Kassandra virou-se para essa saída e avançou em direção àquele brilho. Cada um dos seus passos era lento e arrastado.
Ela não olhou para trás.
Não havia nada no salão do trono que poderia ajudá-la, sua única âncora possível era aquela luz branca.
Assim que ela alcançou a abertura, a claridade a envolveu. Por um instante, tudo estava branco e pálido.
Sem forma, sem peso.
Assim que a sua visão voltou, assim que ela atravessou o limiar, não encontrou o exterior do castelo. Nenhum pátio, ou alguma muralha…
Ela não conseguia observar o céu do império, ela não estava em Sihêon.
Não era o império.
A luz branca que havia envolvido o seu corpo e dissipou-a fez emergir em uma cidade bem menor.
As construções eram de pedra polida e clara, quase branca.
Havia ruas estreitas que serpenteavam entre casas e barracas derrubadas.
Essa arquitetura era familiar, características que deram nome e fama à cidade-selo.
“Baartzabel”
Ela percebera, não havia nenhum movimento além do seu, nenhum único sinal de que alguém, vivo ou morto, no sentido em que ela conhecia, tivesse passado por ali há pouco. O silêncio era absoluto.
Ela avançou devagar, ainda presa naquela antiga lentidão de movimento, e entrou no que restava do mercado.
O que parecia ter sido um mercado estava abandonado, diversas estruturas desmoronadas e restos de toldos espalhados perto de bancas caídas.
Havia destruição para todos os lados, mesas viradas, cascos de cerâmicas e tecidos rasgados.
Em um canto, algo que poderia um dia ter sido uma balança, já em outro, uma pilha de objetos que a jovem não conseguia identificar.
Em tempos de outrora, o mercado da cidade-selo de Baartzabel fora um lugar de muita vida, agora ele era um cadáver de uma paisagem. Todo dividido em tons de cinza e branco sujo.
Kassandra se concentrou, buscava observar a paisagem com os olhos do exício, suas duas escleras brancas e sem vida, e havia algo na disposição das ruas e no traço que parecia familiar.
Ela percebeu vultos.
Formas que se espreitavam nos cantos, atrás de pilares caídos e portas entreabertas.
Não eram totalmente visíveis, soavam mais como sombras com contornos humanoides, às vezes tinham braços, às vezes tinham singelos contornos de um rosto, porém, nenhum deles tinha detalhes tão nítidos assim.
Ela pensou que talvez pudesse falar com eles ou ao menos interpretar intenções… Como uma necromante, o pós-vida era outro território: já que ela lidava com restos, com corpos e com o que pudesse ficar preso à carne.
Aqueles vultos não eram isso… Eram outra ordem de existência.
Aquilo era diferente, eram presenças que não se encaixavam no que ela dominava.
Espíritos no sentido que xamãs e visionários davam à palavra. Almas que não haviam seguido para sabe-se lá onde existisse depois.
A não ser que fossem entidades que nunca tiveram um corpo, ecos de quem fora sombras que nunca encarnaram.
A partir de livros antigos que Kassandra havia lido há muito tempo, conseguiu chegar a uma fina, porém complexa, conclusão.
Afinal.
Ela estava no plano etéreo.
O plano etéreo é uma dimensão sutil, bastante enevoada e em grande parte até incorpórea. Ele se sobrepõe ao plano material, como uma segunda pele invisível.
Não é um reino à parte, mas sim, uma fronteira. Uma pequena passagem entre mundos.
Muitos magos e místicos que o estudam falam de um tecido fino que existe entre a realidade que se toca e as outras que não se tocam.
Quem aprende a atravessar esse tecido pode viajar sem ser visto, costuma ser invisível e inaudível para os que permanecem no mundo físico. Pode espiar, pode ser encontrado também, por quem habita do outro lado.
O mundo material é espelhado ali de forma difusa e bastante silenciosa, as formas existem sim, mas desbotadas, como lembranças dos lugares.
Por isso, o salão do trono e depois a cidade-selo não passavam de ecos do que existia do outro lado.
O som e a luz no plano etéreo chegam amortecidos e o tato é enganoso, quem entra sem o preparo pode perder a noção de onde termina o corpo e começa o enorme vazio.
Nos tratados e livros que Kassandra leu há muito tempo, o plano etéreo era descrito também como um caminho por onde certas entidades buscam alcançar os vivos.
Patronos e forças antigas usam essa camada para se aproximar de suas futuras vítimas, sendo os jovens destinados a se tornarem bruxos.
A líder dos necromantes não era uma arcana, mas o estudo do plano etéreo e do esoterismo sempre pareceu relevante. A morte e o que vem depois não se limitavam ao que ela comandava com a guilda, havia camadas e muitas fronteiras.
Ela lera trechos aqui e acolá, por curiosidade, mas também por cautela.
Naquele momento, esse conhecimento fragmentado bastou para que ela pudesse compreender onde estava, e essa compreensão veio junto de um medo.
Até porque, uma mortal no plano etéreo é um alimento ambulante, qualquer entidade ancestral, espírito maligno ou demônio poderia alcançá-la sem grandes esforços.
Ela não tinha as defesas de um arcano e nem os dons de um xamã para conseguir negociar com o invisível.
Kassandra olhou de novo para os vultos e sentiu uma vulnerabilidade tão pesada dentro do seu peito, ou onde pudesse ser o peito.
Por via das dúvidas, ela decidiu tocar no próprio corpo para confirmar se estava ali fisicamente. Levantara o dedo ao torso, devagar, no ritmo pesado daquele ambiente.
A ponta dos dedos atravessou o peitoral completamente… Não houve dor, nem sangue.
A carne não estava se comportando como carne, era como atravessar fumaça.
Kassandra retirou o dedo e fitara a própria mão.
Percebeu então que não estava no plano etéreo em corpo… mas apenas em consciência.
Significava que o corpo verdadeiro ficara do outro lado, no salão do trono.
Deitado no chão, ou talvez ainda de pé, com a mão estendida onde a orbe estava.
Isso poderia deixá-la calma, mas ao analisar a situação na totalidade.
Kassandra ficou ainda mais desesperada.

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