Índice de Capítulo

    Siegfried estava no balneário, quando Melias Kroft e Eroth lhe trouxeram a notícia:

    — Temos um problema.

    — O que houve?

    — Brandon Donoghan — disse Melias Kroft. — O herdeiro do Conde Donoghan está nos portões. E exige falar com o lorde do Castelo dos Ossos. Em nome da Duquesa Elsbeth Greenguard e Helmut Graylock, legítimo rei de Thedrit. É o que diz.

    “A primavera chegou e com ela veio também a guerra.”

    Siegfried sentiu a água quente ondular e, no instante seguinte, tinha Lili sentada em seu colo; os braços em volta do seu pescoço e o rosto tão perto que quase podia sentir o gosto dos seus lábios.

    “Até que enfim”, ela sorriu. “Esse lugar tava precisando de um pouco de ação.”

    — Você devia abrir os portões — disse Eroth. — Sei o que está pensando, mas o Rei Helmut é inimigo do Rei Negro, não seu. E a casa Kroft não tomou partido nesta guerra. Não há motivo para nos ameaçar. Somos neutros.

    — Não por muito tempo — disse Siegfried. — Se estão aqui para conversar, então estão aqui para me fazer dobrar os joelhos. É primavera. Época de recrutamento. Devem estar reunindo um exército pra marchar contra o Rei Negro ou algum de seus aliados.

    — Provavelmente — disse Melias Kroft. — Ainda assim, devemos recebê-lo. É o que manda a cortesia. Além do mais, não ganharemos nada mandando-os embora. Estaríamos ofendendo o futuro conde a troco de nada.

    Siegfried refletiu por um momento.

    Melias Kroft tinha razão. Ofender o herdeiro do Conde Donoghan seria apenas criar uma inimizade desnecessária e pôr em risco toda a casa Blackfield. Se pretendia manter o seu domínio sobre o Castelo dos Ossos, teria de manter uma boa relação com seus vizinhos.

    — Pois bem! — E se levantou da banheira, derrubando Lili. A água lhe escorrendo pelo corpo despido e coberto por cicatrizes. — Irei recebê-lo.

    — Se me permite — disse Eroth. — Siegfried é um nome bastante incomum. E há um certo mercenário estrangeiro homônimo que pode ou não ter chegado aos ouvidos do jovem Donoghan.

    — Eu preciso de outro nome.

    — De fato. O que acha de ‘Arannis Kroft’? Nós podemos dizer que o senhor é um dos filhos de Melias.

    — E como vai explicar o meu brasão? Até as minhas cores são diferentes.

    — O filho bastardo, talvez? Poucas pessoas dão importância a um filho bastardo. Ele irá comprar a explicação.

    — O filho bastardo que se casou com a neta legítima e tomou o Castelo dos Ossos? Não me parece uma história muito boa.

    — Mas está mais perto da verdade. Isso fará com que seja mais crível. Podemos manter a história intacta. A única diferença é que será o filho bastardo de Melias Kroft, reconhecido e admirado por ter ajudado o seu pai a levar à justiça o seu ‘meio-irmão’ traiçoeiro que se rebelou contra o pai de vocês e tentou tomar o Castelo dos Ossos. O seu brasão mostra a sua origem: Arannis Black. O que acha?

    — Pois bem! Que seja Arannis Black, então.

    — Irei avisar às servas. Estarão cientes da sua história e serão ordenadas a não interagir com os convidados mais do que o necessário.

    E assim foi feito.

    Eroth partiu para dar início aos preparativos e Siegfried se vestiu como um lorde: a túnica forrada com arminho por baixo de uma capa, calças de lã, luvas de seda e botas de couro — tudo em negro com detalhes de branco.

    Quando terminou, dirigiu-se até o salão de jantar, onde Melias Kroft e Eroth já haviam preparado tudo para receber os convidados. Siegfried sentou-se na cadeira que fazia às vezes de trono, com Eroth de pé à sua direita e Melias Kroft à esquerda — e Lili sentada no seu colo (não que alguém além de Siegfried e Eroth pudesse vê-la).

    Quatro das servas mais leais de Eroth foram autorizadas a permanecer no salão e servir os convidados quando necessário. E quanto ao resto? Receberam ordens de permanecer no prédio principal por tempo indeterminado.

    Eroth falou e uma das servas do salão correu até os portões para avisar a Wayne de que a comitiva poderia entrar. Seis minutos depois, ela retornou.

    Brandon Donoghan revelou-se um jovem de dezoito ou dezenove anos; cerca de um ano mais velho que Siegfried. Um rapaz bastante orgulhoso e atlético, acompanhado por mais treze soldados; onze deles vestindo as cores branco e vermelho em suas roupas, e outros dois ostentando verde e negro — tal como o próprio Brandon.

    Mas não era uma simples comitiva. Todos ali traziam armas, cota de malha e bruneas. Um pequeno esquadrão. E não estavam ilesos; a aparência desgastada mostrava que vinham de um combate, embora não houvesse entre eles quem não pudesse se manter de pé com as próprias pernas.

    Contra o que lutaram? Isso ficou bastante óbvio quando os soldados adentraram no salão trazendo a cabeça decepada de um ogro. Uma coisa enorme e deformada — do tamanho de uma cadeira e com uma boca grande o bastante para devorar a cabeça de um homem adulto numa única mordida.

    Brandon Donoghan devia estar bastante orgulhoso com o seu troféu para se dar ao trabalho de trazê-lo todo o caminho até ali.

    Siegfried não se impressionou, mas ficou grato por terem se livrado de um dos ogros de Eroth.

    “Menos um monstro rondando pelo pântano.”

    — Imagino que você seja o lorde do Castelo dos Ossos — disse Brandon, se referindo a Siegfried.

    — Este é Arannis Black — disse Eroth. — Lorde do Castelo dos Ossos e senhor do Baronato de Kroft.

    — Eu sou Brandon Donoghan, herdeiro de sua graça, o Conde Esmond Donoghan. E venho em nome de sua majestade, Helmut Graylock, com uma mensagem: o Condado de Donoghan se mantém leal ao legítimo rei de Thedrit e responde ao chamado de sua graça, a Duquesa Elsbeth Greenguard. Meu pai irá marchar contra os rebeldes no Condado de Essel e exige saber onde está a lealdade da casa Kroft!

    — A casa Kroft é neutra — lembrou Eroth de imediato. — Não tomamos partido nesta guerra.

    — Todas as casas tomam partido! Aqueles que não lutam por seu legítimo rei são todos traidores. Está me dizendo que a casa Kroft quebrou seus votos?

    — De forma alguma — interveio Melias Kroft. — Mas lembro-lhe de que a casa Kroft não é vassala da casa Donoghan. Seu pai não tem o direito de exigir que lutemos por ele!

    — Sua graça, o Conde Donoghan, pode não ser o suserano legítimo da casa Kroft, mas é o protetor das terras que a circundam. Nosso dever é manter as terras do rei seguras e livres de rebeldes. Não exigimos que lutem pela casa Donoghan. Apenas queremos saber onde repousa a lealdade de vocês.

    A ameaça velada pairou no ar por um momento. Devia matá-los?

    “Sim”, sugeriu Lili.

    “Não!”, gritou o bom senso.

    Além de covardia, matá-los seria também estupidez. Se Brandon Donoghan não deixasse aquele pântano são e salvo, a próxima comitiva a bater em seus portões traria um exército.

    Refletiu por um momento.

    “Os rebeldes no Condado de Essel.”

    Tinha de estar falando do Barão Kessel. Isso significa que a Condessa Essel conseguiu o apoio do Conde Donoghan. Não. Ele havia mencionado a Duquesa Greenguard e o Príncipe Helmut. Era possível que um deles tivesse assumido as rédeas da situação. A Condessa Essel pode nem mesmo ser a responsável pelo esforço de guerra.

    — E quem vai liderar essas tropas? — perguntou Siegfried.

    — Meu pai irá lutar sob o comando de sua graça, Araphor Greenguard. Imagino que já tenha ouvido falar dele.

    — Bem pouco.

    — Humpf! Araphor é um herói! O campeão de sua majestade. Ele já enfrentou as tropas do Rei Negro em mais de uma centena de batalhas e sempre prevaleceu. Desta vez não será diferente. Qualquer um mataria pela oportunidade de servir sob o seu comando.

    — Ele já está no campo de batalha?

    — Claro que não! Que tipo de pergunta é essa?! Nunca participou de uma campanha militar, garoto?! Iremos nos reunir no Castelo Essel. Devemos marchar ao final da primavera. Talvez antes.

    Uma chama tímida e fraca se acendeu no peito de Siegfried ao ouvir a resposta. Tão frágil que a menor brisa poderia apagá-la e, ainda assim, estava lá.

    “Talvez ainda dê tempo de salvá-la.”

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