Capítulo 41 - Parafusos Soltos
Dois dias se passaram. Derek por sua vez continuou sua rotina de treinar a visão e continuar a exploração, tanto no prédio, quanto na cidade.
Seus movimentos não só voltaram a como eram antes, mas se aprimoraram. Estava mais veloz e tinha uma força um pouco maior.
Ele chegou a pensar que sua força se equivaleria a da mutação. E, em um movimento imprudente, socou uma parede com força.
Uma decisão péssima de sua parte. Só pode escutar o som dos seus ossos se quebrando.
“Merda”, pensou na hora.
Fora isso, Derek percebeu que seu estilo de luta era falho.
Precisava de algo que desse mais vantagem, ainda mais por não sentir o toque.
Então praticou usando mortos-vivos de saco de pancada ao mesmo tempo que bolava um jeito de juntar sua habilidade sensorial com de luta.
Nesse mesmo tempo, mal sabia ele que suas saídas do prédio estavam sendo monitoradas.
Ao longe, na cobertura de um prédio de quatro andares, com uma pequena mercearia embaixo repleta de tábua pregadas e prateleiras sobre as portas e vidraças, um binóculo improvisado usando as miras de duas armas que não funcionam mais, com lentes riscadas e fita juntando as duas apontavam em direção ao hotel Vulcan.
Um homem de moicano, agachado atrás do meio muro da cobertura, usava aquele binóculo improvisado com bastante cautela.
Já observavam Derek desde a derrota da mutação.
De repente, um homem de longo rabo de cavalo se aproximou, colocando a mão sobre o ombro dele antes de se agachar ao seu lado.
— E aí, sô… descobriu alguma coisa?
O homem de moicano estalou a língua, insatisfeito, sem tirar os olhos do binóculo.
— Nada. O cara parece até um robô. Vai e volta quase no mesmo horário. Mas de algum jeito, os mortos evitam ele. Deve ter algum método pra isso.
— Hm… saquei. Cê acha que nóis consegue invadi aquele Vulcan? O chefe tá doido pra botá as mão naquele lugar.
O homem de moicano sorriu.
— Consegue fácil. Olha aí você mesmo.
Ele entregou o binóculo ao companheiro.
Pelas lentes riscadas, o homem de rabo de cavalo viu Derek usando roupas reforçadas e um capacete enquanto entrava no Vulcan sem qualquer dificuldade.
— Rapaz… então ele deve tê limpado quase tudo de caminhante naquela área pra andá desse jeito tranquilo.
O sorriso do homem aumentou aos poucos.
— E pelo jeito tá sozinho naquele lugar…
Ele olhou para o companheiro com malícia.
— O que significa que arrumamo uma presa facinha.
— Exato.
O homem de rabo de cavalo se levantou e devolveu o binóculo.
— Apesar do chefe odiá quando interrompe ele enquanto tá “domando” as cadela… acho que dessa vez ele vai gostá de ouvi isso.
Após descer as escadas da cobertura e entrar no prédio, o homem de rabo de cavalo foi recebido pela escuridão.
A única claridade vinha das janelas quebradas, por onde feixes fracos de luz atravessavam o ambiente empoeirado.
O ar era frio e úmido.
Um cheiro forte de mofo, álcool e comida estragada impregnava o lugar, misturado ao odor azedo de suor velho e fumaça de drogas.
Garrafas de bebida estavam espalhadas pelo chão, algumas quebradas.
Cigarros queimados e seringas vazias se acumulavam pelos cantos da sala.
Na mesa do centro, uma pequena linha de pó branco repousava sobre a madeira suja.
Um homem se inclinou sobre ela e aspirou tudo de uma vez.
Ao erguer o rosto, seus olhos ficaram arregalados, quase saltando das órbitas. Ele puxou o ar lentamente.
— Delícia…
O homem deu uma leve cambaleada para trás.
Um.
Dois.
Três passos.
Então tropeçou e caiu no chão.
Mas ao invés de reclamar de dor, começou a rir sem controle.
Seu tropeço se deu pelo fato de um outro homem estar jogado no chão.
Os olhos do sujeito permaneciam abertos e perdidos no vazio. Baba escorria pelo canto da boca enquanto uma seringa continuava cravada em seu pulso.
Sua respiração era fraca, com chiado ao puxar o ar.
Uma mosca pousou em seu olho e ele não reagiu.
E ele não era o único.
Outros corpos estavam espalhados pela sala. Alguns apagados sobre mesas e sofás. Outros sentados nos cantos, fumando em silêncio.
Havia até homens nus se esfregando contra mulheres magras e cobertas de hematomas, como animais sem qualquer humanidade restante.
Mas o homem de rabo de cavalo não se incomodava.
Aquilo já fazia parte da rotina.
Com um sorriso tranquilo no rosto, atravessou o corredor até parar diante de uma pesada porta de metal.
Respirou fundo, levantando a mão para bater.
Mas um segundo antes de seus dedos tocarem a porta, um grito feminino ecoou do outro lado.
O homem parou imediatamente.
Atrás daquela porta se encontrava o verdadeiro horror.
Um banheiro grande e amplo como o de uma antiga suíte de luxo, mas completamente tomado pela decadência. As cerâmicas brancas das paredes estavam manchadas de mofo, sangue seco e sujeira escurecida pelo tempo.
O ambiente era escuro.
Tábuas haviam sido pregadas sobre a janela, deixando apenas pequenos feixes de luz atravessarem as frestas. Os raios iluminavam partículas de poeira suspensas no ar úmido e revelavam partes daquele inferno aos poucos.
O cheiro era sufocante.
Sangue velho.
Urina.
Álcool.
Mofo.
Suor.
E algo podre vindo do ralo do banheiro.
Garrafas vazias e restos de comida apodrecida estavam espalhados pelo chão junto de seringas, roupas rasgadas e embalagens abertas de drogas.
Correntes pendiam do teto.
Presas nelas, três mulheres permaneciam suspensas pelos braços. Seus corpos nus estavam cobertos de cortes, hematomas e marcas arroxeadas. Sangue escorria lentamente pelas pernas e pingava no chão frio de cerâmica.
Os gritos delas ecoavam pelo banheiro.
No canto da sala, outras cinco jovens permaneciam encolhidas umas contra as outras. Tremiam sem parar, nuas, tentando esconder o corpo com os próprios braços. Algumas choravam em silêncio. Outras encaravam o vazio com os olhos perdidos pelo choque.
Duas estavam caídas no chão.
Ainda respiravam, mas mal conseguiam se mover. Lágrimas escorriam lentamente por seus rostos inchados enquanto permaneciam imóveis, como se já não tivessem forças nem para implorar.
O estalo brutal de um chicote cortou o ar.
As três mulheres penduradas gritaram ao mesmo tempo.
O impacto abriu novamente algumas feridas, espalhando gotas de sangue pelas paredes brancas.
E junto dos gritos, surgiu uma gargalhada alta e doentia.
Ficava mais intensa a cada segundo.
— Grita mais… Mais! MAIS! — berrava o homem.
Ele estava completamente nu.
Era alto, de corpo musculoso e coberto por cicatrizes antigas. O rosto carregava um sorriso distorcido, quase infantil de tão insano. Seus olhos arregalados brilhavam de prazer enquanto observava o sofrimento diante dele.
Mais uma chicotada.
Mais gritos.
Mais risadas.
Do lado de fora, o homem de rabo de cavalo respirou fundo antes de finalmente bater na porta metálica.
As chicotadas cessaram.
O silêncio durou alguns segundos.
Então a voz do homem veio do outro lado, pesada e sombria.
— É melhor ser importante… se não…
Ouviu-se o couro do chicote sendo apertado com força.
— É sobre o cabra do Vulcan, chefe.
Por alguns segundos, não houve resposta.
Então, lentamente, a expressão de prazer no rosto do homem desapareceu.
Sua respiração ficou pesada.
O corpo chegou a tremer levemente enquanto apertava o chicote com tanta força que a própria palma começou a sangrar.
No canto da sala, as mulheres se encolheram ainda mais, apavoradas.
— Tá bom… — murmurou ele, respirando de forma irregular. — Manda todo mundo se reunir. Vou discutir o plano.
— Pode deixá, chefe.
O homem caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
Virou lentamente o rosto para as mulheres no canto.
— E vocês!
Os pequenos gritos de medo surgiram imediatamente. Elas abaixaram a cabeça e protegeram o rosto com os braços, tremendo.
— Escaparam por hoje — disse ele, com um sorriso frio surgindo novamente. — Que isso sirva de lição por terem bebido a água do meu cachorro sem permissão.
Antes de deixar o banheiro, vestiu apenas uma calça velha e uma blusa de regata suja de sangue.
A sala estava tomada por fumaça de drogas, cheiro de álcool e suor.
Cerca de quinze homens estavam espalhados pelo lugar. Alguns encostados nas paredes. Outros sentados no chão ou largados nos sofás.
Apesar da aparência relaxada, todos ficaram atentos no instante em que o chefe entrou na sala.
Os olhares o acompanharam imediatamente.
Alguns homens até sorriram.
O chefe caminhou devagar pelo cômodo, o som pesado de seus passos ecoando no silêncio. Sua expressão permanecia séria, quase irritada.
Ele foi direto até a única poltrona da sala.
Um homem estava largado nela, completamente apagado. Uma seringa ainda permanecia cravada em seu pulso.
O chefe observou aquilo por alguns segundos.
Então estalou a língua, claramente incomodado.
— Patético…
Sem qualquer dificuldade, agarrou o homem pela gola da blusa e o puxou da poltrona.
O corpo caiu no chão com força.
Mesmo assim, o sujeito continuou desacordado.
Alguns homens riram baixo.
O chefe se sentou na poltrona logo em seguida, apoiando os pés sobre o homem caído como se ele fosse apenas um apoio qualquer.
Passou a mão pelo rosto lentamente antes de suspirar.
— Vou te falar, viu…
Seu olhar percorreu a sala inteira.
O sorriso dos outros desapareceu aos poucos.
— Enfim… qual é a situação?
O homem de rabo de cavalo deu um passo à frente.
— Conforme ocê mandô, nóis ficou de olho no cabra nesses últimos dias. Pelo jeito, ele mora naquele prédio mesmo, sô. Sai e vorta quase sempre nos mesmo horário. E os caminhante num chega nem perto dele.
— Deve ser um daqueles malucos que aquele mercante falou pra gente — comentou um dos homens encostados na parede. — Os que espalham sangue e tripa de morto pelo corpo pra disfarçar o cheiro.
O chefe permaneceu quieto por poucos segundos e então perguntou:
— Conseguiram ver quantos outros têm lá dentro?
— Não consegui. Mas se tiver mais alguém, devem ser poucos — respondeu o homem de moicano. — Se fossem muitos, mandavam mais gente junto dele quando saísse.
O homem de rabo de cavalo complementou:
— E tem mais uma coisa… toda vez que o cabra sai, num carrega nadinha. Se fosse uma vez ou outra, inté vai. Mas é sempre assim. Então é capaz daquele prédio tá abarrotado de coisa boa. Comida, bebida e… — ele deu uma pequena pausa, abrindo um sorriso torto. — remédio.
Ao ouvirem aquilo, vários homens sorriram. Não porque queriam se tratar de doenças, mas pelas drogas que poderiam fazer usando os remédios.
O chefe apoiou o rosto na mão por alguns segundos, pensativo. Então abriu um sorriso torto.
— Certo… então vamos arrancar aquele lugar dele.
Os homens comemoraram baixo.
O chefe levantou um dedo.
— Mas…
Todos se atentaram ao que ele ia falar.
— … não vai todo mundo.
Todos exclamaram com desgostos.
Seu olhar percorreu a sala devagar até parar em três homens específicos. Três irmãos gêmeos.
— Vocês três vão.
Os escolhidos sorriram na mesma hora.
— Hein? Só eles? — reclamou alguém no fundo.
O chefe sequer olhou para o homem.
— Porque são os mais capacitados daqui — respondeu calmamente. — E os únicos em quem eu consigo confiar numa missão importante.
Os três trocaram olhares satisfeitos.
— Descubram como ele entra e sai daquele lugar sem atrair os caminhantes. Depois tragam tudo que tiver valor.
— E o cara? — perguntou um deles.
O chefe sorriu.
— Se ele resistir… matem.
Os três assentiram antes de deixarem a sala.
A porta bateu atrás deles e o ambiente ficou silencioso por alguns segundos.
Então o homem de rabo de cavalo se aproximou devagar da poltrona do chefe.
— Uai… achei que eu era dos cabra mais confiável pra esse tipo de missão… — resmungou ele, tentando esconder a irritação.
O chefe ergueu lentamente os olhos para ele. Por alguns segundos, ficou apenas encarando. Então abriu um pequeno sorriso estranho.
— Você é confiável.
O homem ficou confuso, mas antes que pudesse perguntar o porquê, o chefe continuou.
— Mas é burro demais pra improvisar sozinho.
Todos os presentes riram sem se segurarem.
O sujeito ficou calado na mesma hora, claramente sem saber como responder.
Então, de repente, o chefe começou a rir. Uma gargalhada seca e alta.
— Relaxa, porra. Tô brincando.
A tensão do homem abaixou.
O chefe se ajeitou na poltrona antes de continuar:
— O verdadeiro motivo é simples… aqueles três são os mais inúteis daqui. Nunca fui com a cara deles.
Ele deu de ombros.
— E já que são gêmeos… se morrerem, é bom que os três se encontrem com os pais deles, não é?
A sala explodiu em gargalhadas.
— Cê tem os parafuso tudim solto, chefe! — exclamou o homem de rabo de cavalo, rindo sem parar enquanto batia a mão na coxa.

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