Fiquei paralisado onde estava, não apenas pela aproximação repentina, mas também por aquela pessoa de aparência ameaçadora ser uma mulher.

    “Devo dizer meu nome?”, contemplei a ideia em silêncio. 

    Mesmo que a figura à minha frente fosse uma mulher, meus anos como caçador me ensinaram que qualquer um poderia ser perigoso. Por isso, me fiz de difícil.

    Quando nada saiu de minha boca, pude sentir o olhar vermelho-sangue dela se tornar ainda mais intenso. Inquieta, seu rosto se aproximou do meu.

    — Você… me diga seu… — mas ela foi interrompida pelos seus companheiros que a seguiram.

    — Ei, Kaedra! O que você está fazendo? Outro duelo lucrativo já está para começar — o homem loiro, aquele que antes ria histericamente, falou. — Hã, quem são esses?

    Seu olhar caiu sobre mim, mas logo se desviou para a senhorita Aurora ao meu lado. Os braços dele, cruzados atrás da cabeça, caíram para baixo enquanto a observava.

    — Uau, não sabia que havia uma mulher tão bela nesta terra isolada.

    Minha testa franziu com as palavras repulsivas do sujeito. Nem sabia seu nome, mas me pareceu alguém desconfortável de se estar perto.

    Felizmente, outra voz irrompeu, o silenciando.

    — Hm, Johan, acho que não é bom dizer coisas assim… — o outro homem, também loiro, tentou ajeitar a situação.

    Agora que o analisava de mais perto, pude perceber que tinha pouco haver com o outro homem estranho. Enquanto este último parecia um jovem arrogante, o outro era… menos ameaçador?

    Como Edgar, ele possuía traços levemente delicados, despertando a velha sensação de admiração.

    — Não se intrometam, Johan e Irene — Kaedra falou de forma áspera, antes de retornar sua atenção para mim. — Tenho alguns assuntos a discutir com esse aqui.

    “Assuntos a discutir?”, sinceramente, não fazia ideia do que poderia ter feito. Além da breve troca de olhares ontem, nem ao menos nos encontramos.

    No entanto, enquanto desbravava minha mente em busca de uma resposta, Aurora finalmente rompeu o silêncio.

    — Não deve haver assuntos entre você e meu discípulo.

    Então ela tomou à frente, se pondo entre Kaedra e eu. Observei quieto, mas com o coração batendo forte no peito — estaria ela me protegendo? Era uma ideia doce.

    — Discípulo? Entendo… Então você seria a mestra dele? Seu rosto… me parece familiar.

    — Nunca nos encontramos, por isso peço que se afaste.

    — Haha, sim, você é familiar. Agora que me lembro, existia uma vadia com o mesmo olhar vazio que o seu no Sudeste.

    O ar pareceu congelar com o tom repentinamente ofensivo da mulher encapuzada. Mesmo seus companheiros se entreolharam como se aquilo fosse uma novidade.

    “É melhor eu parar isso logo.”

    No entanto, antes que eu pudesse fazer algo, as mãos de Kaedra se aproximaram de seu capuz que cobria o rosto. 

    Os dedos que escaparam para fora da manga, uma cor escura que só havia ouvido falar, agarraram o tecido enquanto o puxava para baixo lentamente.

    Suspiros escaparam de Irene e Johan com a cena. Mesmo eu fiquei apreensivo com a ação repentina da mulher. Mas imerso demais no ato, não movi um músculo.

    Finalmente, longos fios negros desceram de sua cabeça quando o capuz caiu. E por debaixo deles, um rosto com cicatrizes exibiu uma expressão séria.

    — Se bem me lembro — Kaedra repentinamente quebrou o silêncio — o nome daquela vadia era… Aurora.

    Seu rosto negro de lábios finos se contorceu numa expressão de nojo. Mas de tão surpreso com suas palavras, sequer dei atenção a isto.

    “Ela conhece Aurora?”, Poderia ser apenas uma coincidência, mas os olhos violentos com que a mulher encarava minha mestra fez essa ideia desaparecer. “Espera, Aurora havia se mostrado contra se apresentar para a caravana.”

    Duas semanas atrás, quando propôs o plano de se infiltrar na caravana, ela recusou abertamente a ideia de apenas pedir para se juntar a eles. Naquele momento, apenas descartei o pensamento sobre suas verdadeiras motivações, mas parecia ter algo mais.

    — Sinto muito pelo mal-entendido, mas nunca estive no Sudeste.

    — Hm, é mesmo? Acho que faz sentido; seria esperar muito que os céus me dessem a oportunidade de me livrar daquela mulher incômoda. 

    Mesmo com suas palavras, Kaedra continuou olhando fixamente para Aurora. Se a situação continuasse da forma como está, certamente um problema ainda maior surgiria. Por isso, decidi mudar de assunto.

    — Com licença, mas ainda não sabemos quem vocês são. Chamo-me Arthur e essa aqui… bem, ela é minha mestra.

    No fim, revelei meu nome. Era uma ação arriscada, sim, mas quando o conflito pareceu iminente entre as duas, não tive outra escolha.

    Finalmente os olhos da Cavaleira Negra se desviaram até mim. Não só ela, como também os dois homens que a seguiam. E embora ela não tenha dito nada, um deles o fez.

    — E-eu sou Irene, prazer em te conhecer! — o da aparência nem um pouco ameaçadora estendeu a mão ao falar. Seguindo seus passos, também estendi a minha.

    Depois disto, trocamos algumas breves palavras. Então, movi a atenção para o homem ao lado. Ele não se aproximou para um aperto de mãos como seu companheiro, ficando parado no mesmo lugar.

    — O meu é Johan, um… — Seu olhar correu até a mulher perigosa, antes de retornar após um aceno de cabeça dela — guarda-costas da Caravana Comercial de Trown.

    — Caravana Comercial de Trown? — repeti, fingindo surpresa. — Acho que seria seguro supor que todos vocês fazem parte dela?

    — Você é um rapazinho bem-falante, hein? — Kaedra subitamente falou. — Mas está correto: todos nós servimos como guarda-costas. Se bem que agora… estamos ocupados com outra coisa.

    Seu olhar correu sobre a área demarcada no centro da praça. Naquele local, há poucos minutos atrás, havia acontecido a luta de dois camponeses de Veldoren. Mesmo agora, o cheiro de suor e barro impregnava-se nas narinas.

    A multidão ainda debatia sobre o duelo, aqueles que haviam perdido a aposta gritando de raiva. Contudo, a empolgação palpável ainda estava presente. Sem dar indícios de que diminuiria tão cedo, outros dois lutadores se preparavam para mais uma briga.

    — Foram vocês que preparam essa “arena”?

    Kaedra deu um sorriso leve, mas que era ameaçador demais graças as suas cicatrizes. Ela parecia se divertir com a minha pergunta.

    — Claro! Olha só para eles, tão sedentos por dinheiro. As mesmas pessoas que antes sorriam umas para as outras agora espancam seus rostos sem a menor hesitação.

    Diferente da minha impressão inicial, ela não se calava facilmente, nem parecia o querer fazer. Palavras absurdas sobre entretenimento continuaram a escorrer de sua boca. Foi quando ela me abordou com uma ideia.

    — Interessado em participar, Arthur?

    Seus olhos vermelhos pousaram em mim com a pergunta. O sorriso ainda persistia em seus lábios, mas aqueles olhos… eles me observavam com uma frieza estranha.

    “O que é real aqui?”, me questionei, confuso. Vez olhavam-me com cautela, vez com indiferença. Mas eu não sabia a resposta.

    — Participar? Se você diz dessa tal arena, acho que vou passar: minha mestra me ensinou a nunca lutar contra pessoas indefesas.

    — É mesmo? — ela duvidou, se aproximando lentamente.

    Bem, Aurora nunca me ensinou algo assim, na verdade. Pelo menos não com palavras. Embora fria com as pessoas, ela também nunca levantou sua espada contra um cívil.

    Minha mestra não é incrível?

    — Você é igualzinho àquela vadia.

    — O que disse?

    — Pensa que pode me enganar, Arthur? — seu tom de voz se tornou de incógnita ao pronunciar meu nome. — Será mesmo este seu nome? De qualquer forma, você não pode mentir para mim.

    Lancei um olhar rápido para Aurora que observava a situação em silêncio. De forma natural, sua mão delicada caiu sobre a espada escondida em suas vestes, mas rapidamente acenei para que parasse.

    — Quando chegamos à esse lugar surrado, não sentiu nada de estranho? Talvez uma pressão esmagadora e invisível que mais ninguém sentiu?

    Suas palavras que escorriam pelos meus ouvidos em tom venenoso me fizeram refletir, mesmo naquela situação problemática. Como ela disse, senti algo no momento em que a caravana chegou em Veldoren.

    “Poderia ser…?”, um pensamento alarmante surgiu, e como se lesse minha mente, Kaedra o confirmou.

    — Foi um teste rápido para identificar possíveis ameaças. Mas nunca esperei que houvesse alguém realmente forte neste lugar.

    — Você deve ter se confundido…

    — Não, isso não aconteceu. Assim que me viu, sua expressão entregou seus sentimentos — sua fala se tornou mais baixa, quase como um sussurro.

    Foi quando aconteceu.

    Sua mão, antes caída ao lado do corpo, desapareceu em um borrão. Um tilintar ecoou pelo espaço quando uma luz prata me cegou momentaneamente. Todo o mundo ficou quieto, gelando meu peito.

    Havia acontecido algo? Aquela mulher louca nos atacou quando não ouviu o que queria? As dúvidas inundaram minha mente ansiosa, mas logo descobri as respostas delas.

    As pesadas pálpebras que cobriam meus olhos se ergueram. Como cortinas de um teatro, logo revelaram a lâmina prateada encostada na garganta de Aurora.

    Kaedra estava com ela no fio da espada.

    — Arthur — a mulher disse — não repetirei outra vez.

    Sua face vazia se desprendeu de Aurora e se virou para mim.

    — Você gostaria de participar de um duelo?

    Algo estranho invadiu as brechas de meu ser. Foi um sentimento nojento — o mesmo que me odiei por sentir todas as vezes que vinha à tona.

    — Claro, por que não? — Minha carne se rasgou quando as unhas de meus dedos se fincaram em minhas palmas.

    Hoho~, que maravilha. Então nos encontramos na arena em meia hora.

    Senti a miséria da raiva.

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