Capítulo 195: O encontro!!!
O dia passou num piscar de olhos. Eu estava exausto, mas satisfeito. Os alunos também pareciam cansados, porém animados. O brilho nos olhos deles me dizia que tinha valido a pena. Tínhamos tido um dia produtivo. Melhor que isso: eu havia alcançado meu objetivo.
Mesmo Gus, o mais rígido entre eles, começava a romper com as estruturas antigas que o limitavam. Todos ali haviam dado um passo além na compreensão da magia. Perceberam que ela não era um conjunto engessado de fórmulas decoradas, nem uma sequência de comandos frios. Era algo vivo. Maleável. Se você enxergasse os padrões ocultos e se conectasse com eles, a magia se tornava dócil, moldável, pronta para romper barreiras, até mesmo aquelas impostas por séculos de tradição.
Sentia-me energizado, mesmo com o corpo pedindo descanso. Subi para meu quarto, deixei as roupas pelo caminho e entrei direto no banho. A água quente escorria pelas costas, relaxando cada músculo tensionado do meu corpo. Aos poucos, fui ficando mole, sonolento… e acabei dormindo ali mesmo, na banheira.
Acordei com um movimento sutil, uma presença entrando sorrateiramente na água. Nix.
— Não era pra você ter acordado — murmurou, com um sorriso predador nos lábios. — Eu ia te atacar dormindo…
— Dormindo? — resmunguei, ainda sonolento. — Tem graça nisso?
— Ah, se tem… — respondeu ela, aproximando-se com olhos maliciosos. — Aposto que você esqueceu.
— Esqueci do quê? — perguntei, já sentindo um frio subindo pela espinha.
— Da Claire — disse Nix, quase cantando o nome, e me lançando um olhar travesso.
Gelei na hora. O encontro! Tinha prometido e… tinha esquecido. Completamente. A aula, os alunos, o entusiasmo… tudo tinha me distraído.
Levantei num pulo.
— Calma — disse Nix, rindo da minha reação. — Você ainda não está atrasado. Nós duas acabamos de chegar. Ela está no banho. Eu ainda vou ajudá-la a se arrumar.
— Mesmo assim! Não posso perder tempo. Esqueci de reservar o restaurante!
— Então corre. E Lior… — ela me olhou, séria de repente. — Não aceito nada menos que tudo perfeito pra ela.
Sem dizer mais nada, saí do banheiro molhado mesmo e fui me trocar às pressas. Vesti algo elegante, discreto, e desci as escadas enquanto ajeitava a gola da camisa.
— Anna! — chamei, quase tropeçando no último degrau.
A governanta surgiu, solícita.
— Por favor, envie alguém ao restaurante da Praça Imperial. É urgente. Peça uma mesa especial para Lior Aníbal, hoje à noite.
Anna assentiu com um aceno curto, eficiente. Não perguntou nada, como sempre fazia quando percebia que algo era sério.
— Ah, e deixe o cocheiro de sobreaviso. Quero a carruagem pronta. Tenho um encontro com Lady Claire.
Ela inclinou a cabeça mais uma vez, com um sorriso discreto nos lábios. Quando se virou para sair, achei ter escutado um murmúrio escapando dela.
— Já era tempo…
Fiz uma nota mental de manter meus serviçais um pouco mais afastados da minha vida pessoal. Mas, no fundo, era impossível não achar aquilo engraçado. No fundo, eu gostava dessa proximidade silenciosa, desses pequenos gestos que indicavam que, de alguma forma, eles torciam por mim.
O restaurante em questão não era qualquer lugar. Localizado na Praça Imperial, ele era frequentado por nobres de todas as Casas e seus segredos. Era lá que Lady Althéa, a mestra espiã da Casa Vulkaris e subalterna direta de minha mãe, mantinha boa parte de seus contatos, era um lugar onde influência e discrição andavam de mãos dadas.
Se havia um local capaz de me acomodar de última hora, com classe e elegância, era aquele. E hoje, tudo precisava ser perfeito. Claire merecia.
Cerca de quarenta minutos depois, ela desceu. A notícia de que o restaurante havia confirmado a reserva já tinha chegado, trazida por um dos mensageiros de Anna. Tudo estava pronto.
Mas, no instante em que vi Claire surgir no topo da escada, todos os preparativos desapareceram da minha mente.
Ela estava deslumbrante.
Seu vestido, de um azul profundo, fazia contraste com o tom claro de sua pele e destacava o brilho suave de seus olhos. Seus cabelos estavam presos de maneira simples, mas elegante, e havia algo na forma como ela se aproximava, tímida, mas confiante, que me deixou sem palavras.
— Uau… — murmurei, prendendo o fôlego. — Você está ainda mais linda que de costume.
Ela corou, desviando os olhos, e aquele gesto me desmontou. Era uma das coisas que mais adorava nela.
Me aproximei, fiz uma mesura cerimoniosa e estendi a mão.
— Vamos?
Ela assentiu, com um leve sorriso nos lábios, e deixou que eu a guiasse.
Naquela noite, eu não ia deixar nada, absolutamente nada, dar errado.
A carruagem já nos esperava à porta da mansão. Estava polida e reluzente, como se soubesse que aquela noite era especial. A acompanhei até os degraus e estendi a mão, ajudando-a a subir com calma. O cocheiro fechou a porta com discrição, e logo me acomodei ao lado dela.
Sem dizer nada, peguei sua mão. Era quente, macia, e parecia feita sob medida para encaixar na minha. Permaneci assim, apenas observando seu rosto à meia-luz, como se pudesse decorá-lo por inteiro.
— Que foi? — perguntou ela, corando sob meu olhar atento. — Tem alguma coisa no meu rosto?
Sorri, me inclinando até que nossos rostos estivessem próximos o suficiente para que eu sentisse sua respiração. Era doce, como ela. Cheiro de algo sutil, talvez flores, talvez só Claire.
— Tem algo aqui… — murmurei, me aproximando ainda mais.
Toquei seus lábios com os meus. Um gesto suave, mas cheio de intenção. Senti ela retribuir, primeiro com timidez, depois com entrega. O beijo se aprofundou por alguns segundos, ganhando calor e vontade.
Quando me afastei, ela estava ofegante. Seus olhos brilhavam, um pouco arregalados, como se tentasse entender o que estava sentindo.
Eu também queria mais. Queria mergulhar naquela conexão, me perder ali. Mas precisava me conter. Aquela noite não era só sobre desejo. Era sobre nós.
Sobre dar a ela, e a mim também, o espaço para algo mais profundo nascer. Intimidade de verdade.
Em breve teríamos nossa noite de núpcias, e eu não queria que fosse apenas um ritual ou uma formalidade. Queria que fosse um desdobramento natural de algo que estávamos construindo juntos. Um momento pleno. Sem receios, sem pressa, sem fantasmas.
E Claire merecia tudo isso, e mais.
A carruagem entrou na Praça Imperial, e as luzes alimentadas por cristais de mana acenderam-se gradualmente à nossa passagem, lançando brilhos suaves sobre a imensa fonte central. A água dançava em arcos cintilantes, refletindo o céu escurecido como um espelho quebrado em movimento. Era uma noite limpa, silenciosa, e tudo parecia conspirar para aquele momento.
A carruagem contornou a praça com elegância, até parar diante de um prédio de três andares, discreto, mas imponente. Nenhum letreiro na fachada, apenas a arquitetura refinada, as janelas altas com cortinas translúcidas e uma aura de exclusividade denunciavam o tipo de estabelecimento que era.
Dois pajens do restaurante se adiantaram imediatamente, sincronizados e silenciosos, como se ensaiados. Um abriu a porta da carruagem com um leve aceno de cabeça, enquanto o outro já se preparava para conduzir-nos até o interior.
Desci primeiro, com calma, e estendi a mão. Claire colocou a dela sobre a minha, e, ao sair, ergueu o olhar. O brilho nos olhos dela e o sorriso que se abriu em seus lábios valeram cada segundo de correria, cada improviso de última hora.
Naquele instante, soube que tudo aquilo tinha valido a pena.
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