Capítulo 196: O Jantar
Os pajens nos acompanharam até a entrada do restaurante. O ambiente era acolhedor, banhado por uma luz suave e intimista, pensada para criar atmosfera e conforto. As paredes eram decoradas com pinturas de paisagens, algumas reconhecíveis, outras de lugares que pareciam saídos de sonhos ou mundos distantes.
O maître nos recebeu com uma mesura impecável.
— Lorde Lior. Lady Claire. Sejam muito bem-vindos.
Fomos conduzidos até uma sala lateral, reservada para hóspedes que desejavam mais discrição. A decoração era refinada e harmoniosa. A mesa, iluminada apenas por velas finas e rodeada por arranjos florais delicados, parecia ter sido pensada especificamente para nós. Não era grande a ponto de criar distância, nem pequena a ponto de forçar intimidade. Era perfeita: permitia que nossas mãos se encontrassem e que nossos olhos conversassem livremente.
Puxei a cadeira para Claire e a ajudei a se acomodar. Assim que ela se ajeitou, dei a volta e me sentei à sua frente. Ela sorria, com aquele sorriso que parecia iluminar mais que as próprias velas. Seus olhos, brilhando sob a luz bruxuleante, prenderam os meus. E naquele instante, tive certeza de que, sendo ou não um casamento arranjado, eu era o homem mais sortudo do mundo.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, um garçom surgiu com discrição, como se tivesse se materializado das sombras.
— Milorde, milady… Serei seu garçom exclusivo esta noite.
Ele nos apresentou dois cardápios e se afastou respeitosamente. Peguei o meu, mas passei os olhos apenas por formalidade. A comida era o detalhe menos importante daquela noite.
Chamei-o de volta com um gesto sutil.
— Traga-nos um vinho espumante. Algo suave e elegante.
Ele assentiu com um leve sorriso e desapareceu tão silenciosamente quanto havia chegado.
Claire me observava, ainda sorrindo, os dedos distraídos brincando com a borda do cardápio.
— Já se decidiu? — perguntou ela, mantendo o olhar em mim.
— O mais importante eu já tenho comigo — brinquei, sem desviar o olhar. — Tenho certeza de que qualquer coisa que nos servirem será deliciosa.
Ela baixou os olhos, tímida. Meus gracejos sempre a faziam corar, e eu adorava ver isso.
O garçom voltou com o espumante. Serviu com destreza, sem dizer uma palavra, e se afastou, posicionando-se a uma distância que respeitava nossa privacidade, mas atento caso precisássemos.
Ergui minha taça, tocando levemente a dela.
— A nós.
— A nós — respondeu, com aquele sorriso pequeno e sincero que era só dela.
Bebi um gole e deixei o silêncio confortável se estender por um instante antes de falar.
— Sabe… é bom estar aqui com você. De verdade. Não tivemos tempo de ficarmos a sós. Sempre há tarefas, compromissos… ou a Nix, ou as outras garotas por perto. Eu queria muito esse momento. Só nós dois. Queria te conhecer melhor. De verdade. Sem máscaras. Sem distrações.
Claire respirou fundo antes de responder. Seus olhos estavam fixos nos meus.
— É uma oportunidade excelente, mesmo. Sou muito tímida, e sempre que posso, acabo me escondendo de você.
— Não precisa. Você sabe disso, não é?
— Bem… não sei. Ainda penso muito sobre esse casamento arranjado. Sobre se você realmente quer isso.
— Eu também tive essa dúvida no início. Mas agora tenho certeza de uma coisa: gosto de você. E muito. Você é uma garota especial, Claire. Não merece nada menos do que minha sinceridade e minha atenção completa.
Ela sorriu com os olhos marejados.
— Eu gosto de você desde o baile de máscaras… desde que dançamos. Nunca ninguém tinha me feito sentir segura daquela forma. A maneira que me ajudou a relaxar, e dançar… foi mágico para mim. Depois, seu mistério só cresceu na minha cabeça. Quando percebi… já não conseguia parar de pensar em você.
Ela sorriu tímida, mas hesitou por um instante. Seus dedos deslizaram pela borda da taça. Havia algo mais, algo que ela ponderava se devia dizer.
— Lior… — começou, em um tom mais contido — tem uma coisa que talvez você já saiba… mas acho que preciso contar com minhas próprias palavras.
Assenti, sem interrompê-la.
— Eu fui criada pelos meus tios. Meus pais morreram quando eu ainda era muito pequena. Nem lembro direito deles. Desde então, cresci com a Zia. Ela era a estrela. A guerreira prodígio. Forte, corajosa, admirada. Eu… eu fui moldada pra ser o apoio dela. A ajudante. O escudo. Nunca a lâmina.
Ela respirou fundo, desviando o olhar por um instante.
— Quando você me olha como se eu fosse capaz… como se eu importasse por mim mesma, não por quem estou ajudando… é difícil de acreditar. Mas também é por isso que me faz tão bem. Porque é diferente de tudo o que já senti.
A honestidade em sua voz me atravessou. Era o tipo de verdade que só se diz uma vez, e com coragem.
Toquei sua mão sobre a mesa, com firmeza e carinho.
— Claire… você não precisa ser o apoio de ninguém. Você é muito mais do que isso. Tem força, tem brilho, tem valor, por si só. Eu vejo isso. Sempre vi. E vou fazer o possível pra que você veja também.
Ela sorriu, e havia algo novo no brilho dos olhos dela. Algo leve. Como se, por um instante, aquela corrente invisível que sempre a puxou pra trás tivesse se soltado só um pouco.
O silêncio que se seguiu à minha resposta não era desconfortável, mas era denso, carregado de significado. Claire ainda segurava minha mão. A dela era quente, um pouco trêmula, mas não se afastou da minha.
— Você não tem ideia do quanto isso significa pra mim — disse ela por fim, a voz suave.
Sorri de leve.
— Tenho, sim. Porque também já me senti como se meu valor estivesse sempre atrelado aos outros. Sei como é lutar pra acreditar que você merece mais do que o papel que te deram.
Ela me olhou nos olhos. Ali havia algo novo: reconhecimento. Cumplicidade. Era como se uma ponte invisível tivesse se formado entre nós, sólida, silenciosa e profunda.
O garçom se aproximou mais uma vez, inclinando-se com discrição. Não interrompeu, apenas aguardou com um leve sorriso.
— Acho que podemos pedir agora — falei, ainda sem soltar a mão dela.
Pegamos os cardápios. Claire deu uma risada leve.
— Estou um pouco nervosa. Nunca sei o que escolher nessas ocasiões. Me ajuda?
— Claro — respondi, e me inclinei para o lado dela. Nossos ombros se encostaram. Comecei a apontar com o dedo por sobre o menu.
— Que tal algo leve de entrada? Esse creme de cogumelos com azeite trufado parece bom.
— Hmm… sofisticado — disse ela, brincando. — E o prato principal?
— Medalhões de carne ao molho de vinho negro e ervas. E… batatas douradas com lascas de cebola roxa.
— E a sobremesa?
— Essa é a parte mais importante. — Sorri. — Torta de frutas vermelhas com creme fresco ou… torta quente de avelã com raspas de chocolate.
— Avelã — disse ela, sem hesitar. — Definitivamente avelã.
Chamamos o garçom e fizemos o pedido. Claire ainda mantinha um meio sorriso nos lábios, como se estivesse se permitindo aproveitar, pouco a pouco, a noite.
O vinho espumante ainda tinia em nossas taças, e brindamos. Não por formalidade, mas por um impulso.
— Ao primeiro de muitos — murmurei.
— Encontros?
— Momentos em que somos só nós dois.
Claire corou. Dessa vez, não escondeu o rosto. Apenas segurou minha taça com firmeza e brindou comigo.
O tempo passou devagar. Falamos de coisas pequenas, de flores, de livros que gostávamos, das comidas da infância. Mas mesmo os assuntos mais triviais pareciam íntimos. Era como se, ali, no calor das velas e da música suave que mal se ouvia ao fundo, estivéssemos nos redescobrindo.
Quando a entrada chegou, Claire experimentou e arqueou as sobrancelhas em aprovação.
— Está perfeito — disse ela. — E isso vindo de alguém que sempre preferiu sopa de batata…
— Ainda há tempo de te corromper pro lado da comida pelo prazer — brinquei.
Ela riu, e naquele instante, eu soube que a conquista mais importante daquela noite já tinha acontecido. Não era sobre o restaurante, a comida ou o ambiente. Era sobre ver Claire se permitindo ser ela mesma e confiar que eu estava ali, não pra moldá-la, mas pra admirá-la. Deixar ela ser quem ela desejasse ser.
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