Capítulo 252: Documentos que mostram a verdade
Com a ajuda dos homens de Rosa, Lenora conseguiu reaver os documentos que provavam as armações de Juliani e Annabela. Não foi algo simples. Muitos desses registros tinham sido espalhados, alguns guardados em cofres menores, outros em mãos de intermediários que sequer sabiam o que estavam protegendo. Rosa conhecia algumas dessas pessoas. Outras entregaram tudo com a apresentação do selo de Lenora. Em poucas horas, o que Juliani acreditava estar enterrado começou a ressurgir.
Relatórios financeiros adulterados, ordens assinadas com selos falsificados, correspondências cifradas entre Annabela e os escravagistas. Tudo conectado. O suficiente para desenhar um padrão claro de conspiração, ainda que não fechasse todas as pontas.
Também com a ajuda dela, conseguimos enviar mensagens por toda a capital. Não eram anúncios públicos. Eram comunicações direcionadas, cifradas, enviadas apenas às Casas certas. Informavam que seus Anciãos estavam fora de perigo imediato. Que não tinham sido executados, nem estavam sob custódia imperial direta. Explicavam, de forma cuidadosa, que todos seriam levados para um local seguro, fora do alcance do Imperador e de seus inquisidores.
Não era uma promessa vazia. Era o melhor que podíamos fazer naquele momento.
Naquela manhã, eu me mantive ocupado quase sem pausa. Levava os Anciãos de dois em dois até a fronteira da névoa, passava na casa dos familiares dos meus serviçais. Nunca mais do que isso. Não por limitação de mana, mas por prudência. Eu não iria vacilar em permitir que minhas pedras de ancoragem caíssem nas mãos do Império. Cada deslocamento era calculado, cada retorno feito por rotas diferentes.
Alguns Anciãos mal conseguiam andar sozinhos. Outros tentavam manter uma dignidade que já tinha sido arrancada à força. Não era o momento de mostrar força.
Quando o esconderijo finalmente ficou quase vazio, restavam apenas Lenora, Rosa, Pandora e a inquisidora Isadore. Ela ainda lia os documentos, sentada sobre um caixote, virando páginas com atenção quase obsessiva.
— Tem certeza de que não quer vir conosco? — perguntei a Rosa. — Eles vão saber que você ajudou. Cedo ou tarde.
Ela ergueu os olhos lentamente e sorriu de canto.
— Ainda assim, prefiro ficar. Posso ser seus olhos e ouvidos aqui. — Deu de ombros. — E me pegar não é tão fácil quanto parece.
— Imagino.
Nesse momento, Isadore se levantou. Caminhou até Lenora e devolveu o calhamaço de documentos. Pandora se adiantou e pegou os papéis antes mesmo que Lenora estendesse a mão.
— Tudo isso parece muito consistente — disse a inquisidora. — O suficiente para que eu não trate vocês como culpados por traição de imediato. Também me dá margem para iniciar minhas próprias investigações.
— Cuidado — avisei. — Juliani vai perceber se você começar a mexer nisso. Principalmente depois do que aconteceu esses dias.
Ela bufou, cruzando os braços.
— Mesmo assim, preciso fazer isso. Os documentos de Lenora têm lacunas. Muitas conclusões ainda se apoiam em especulação, especialmente sobre a invasão da capital. — Fez uma pausa. — A história de Ester, Naksa e Annabela é tão absurda que beira contos infantis.
Não respondi. Não havia resposta adequada. Era verdade. Aquela associação só fazia sentido porque eu tinha visto as lembranças de Pandora e porque Mahteal tinha preenchido as lacunas que ninguém mais podia enxergar.
Era inacreditável. Eu sabia disso.
Isadore nos encarou, um por um.
— Vocês vão mesmo me deixar ir?
— Claro — respondi, assentindo. — Você descobrir a verdade faz parte do plano. Precisamos de alguém lá dentro.
Ela inclinou levemente a cabeça, aceitando.
— Então agora sou eu quem pergunta — eu disse. — Quer mesmo ir embora? Você vai se tornar um alvo imediato.
— Não posso abandonar meus votos — respondeu. — Existe uma conspiração grande demais para ignorar.
Pandora deu um passo à frente.
— Lior, vamos. Não temos mais nada a fazer aqui.
Concordei com a cabeça, mas ela não fazia ideia do peso que aquela decisão carregava. As famílias dos meus serviçais. Um canal de comunicação seguro. Uma forma de organizar resistência sem expor civis. Proteger as ilhas aliadas. E, acima de tudo, minha mãe e minha irmã, presas em Vesúvia, sob domínio dos Vulkaris.
Eu não sabia ao certo por onde começar.
— Certo — disse, por fim. — Vamos.
Peguei Lenora nos braços. Pandora segurou firme em mim. Com um pensamento, uma runa se acendeu no fundo do meu oceano de mana. O espaço ao redor se dobrou, depois se rompeu.
Quando abri os olhos, a névoa estava diante de nós.
Entreguei uma pedra de ancoragem a Lenora e outra a Pandora. A travessia foi limpa. Sem resistência. Soube que estávamos seguros quando senti o mar frio encharcar minhas botas e calças. O cenário era quase pacífico demais para o momento, mas emergir em águas rasas era um desconforto aceitável.
Subimos a trilha que levava à mansão. Lenora já não tinha forças. Pandora a carregou sem dizer uma palavra.
Claire e Nix estavam à frente da casa, dando ordens. Um novo pavilhão estava sendo erguido diante da mansão, maior do que qualquer outro que eu lembrava. Aquilo, por si só, já seria estranho.
Mas não foi isso que chamou mais minha atenção.
Um grupo de demi-humanos estava ajoelhado no jardim. Um homem, uma mulher e duas crianças. Choravam de forma desesperada. O homem mantinha a cabeça encostada no chão.
— Por favor, senhoras, perdoem-na — repetiam.
— O que está acontecendo? — perguntei.
Ao ouvir minha voz, Claire e Nix se viraram ao mesmo tempo. As duas correram em minha direção. Os demi-humanos começaram a chorar ainda mais alto.
Nix saltou em mim, mostrando a língua para Pandora. Claire veio logo atrás e me abraçou.
— O que está acontecendo aqui? — repeti.
— Ela quase quebrou minha cabeça — resmungou Nix.
Claire lançou um olhar duro para a garota raposa.
— Vamos entrar — disse ela. — Contamos tudo lá dentro. E depois você nos conta o que aconteceu.
Enquanto seguíamos para a casa, olhei novamente para os demi-humanos ajoelhados pensando no que tinha acontecido na minha ausência.
A casa estava fervilhando de gente. Anciãos aguardavam quartos ficarem prontos, sentados onde dava, alguns em silêncio pesado, outros murmurando entre si. Serviçais cruzavam os corredores carregando roupas limpas, bacias de água, bandejas com comida simples. Tudo funcionava, mas no limite. Um equilíbrio frágil, sustentado mais pela disciplina de Claire do que por qualquer planejamento prévio.
Notei os olhares dela, discretos, rápidos, avisando silenciosamente um ou outro serviçal para procurar Anna. Não era um pedido, era uma ordem silenciosa, daquelas que não admitem falha. Agora, porém, Claire estava ocupada comigo. E eu senti um incômodo real por isso. Aquela casa tinha uma ordem própria, construída com cuidado, e eu tinha acabado de jogar uma pedra no meio dela.
Ao entrarmos no quarto principal, fechei a porta atrás de nós. O barulho da casa ficou mais distante, abafado pelas paredes grossas. Me sentei em uma das poltronas, sentindo o corpo finalmente cobrar o preço do que eu tinha feito desde a noite anterior.
Nix continuava agarrada em mim. Não de forma brincalhona, como de costume. Era diferente. Me segurava pelo braço, apoiada contra meu peito, e me olhava como se tivesse medo de eu desaparecer se soltasse. Seus olhos estavam vermelhos, marejados, pedindo atenção sem dizer nada.
— Que foi que houve, afinal? — perguntei, tentando manter a voz leve.
Ela fungou antes de responder.
— A garota ovelha quase quebrou minha cabeça — disse, dramatizando sem pudor. — Quase que fui dessa pra uma melhor. Claire quem me salvou.
Senti o sangue esquentar. Não de imediato, mas como uma chama lenta subindo pelo peito. Primeiro Selune. Agora Nix. A simples ideia de alguém ter tentado tocar nela daquela forma fez minha mão fechar em punho sem que eu percebesse.
Claire notou. Sempre notava.
— Calma — disse ela, se apoiando na lateral da mesa. — Não foi bem assim. Nix e os bebês nunca estiveram realmente ameaçados.
Nix virou o rosto, contrariada.
— Já viu como a cabeça dela é dura? — completou Claire, com um sorriso cansado, quase provocador. — Aquilo foi mais um susto do que qualquer outra coisa.
— Ei! — protestou Nix, fazendo uma careta. — Minha cabeça não é dura, é resistente.
Não consegui segurar o riso. Saiu curto, involuntário. A tensão deu uma pequena trégua.
Passei a mão pelos cabelos de Nix, num gesto automático, tranquilizador. Ela se aconchegou um pouco mais, como se aquilo fosse a confirmação de que estava tudo bem agora.
— Certo — disse, olhando de uma para a outra. — Agora me contem direito essa história. Do começo. Sem drama… — olhei para Nix — …ou pelo menos com menos drama.
Claire cruzou os braços e respirou fundo antes de começar. O tipo de respiração de quem organiza os fatos antes de falar.
— Bem…

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