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    — Depois que você saiu — começou Claire, com a voz firme, mas baixa — eu, Nix e os serviçais precisávamos entender o que a ilha realmente tinha para nos oferecer. Não dava para depender apenas do que trouxemos conosco. Se fôssemos ficar, mesmo que por pouco tempo, precisávamos saber o que existia aqui. Terra, estruturas, estoque, tudo.
     

    Assenti em silêncio. A decisão fazia sentido. A ilha dos Argos nunca fora apenas uma mansão isolada no meio do nada. Eles eram meticulosos demais para isso.
     

    — Então exploramos uma área maior — continuou ela. — Campos antigos, áreas de plantio abandonadas, galpões, currais vazios. Havia sinais claros de uso recente. Nada organizado, mas alguém estava mantendo aquilo funcionando.
     

    Eu me inclinei um pouco na poltrona.
     

    — A casa Argos sempre foi rica demais para não ter infraestrutura paralela — comentei. — Mesmo depois de partirem, não deixariam tudo apodrecer de vez.
     

    — Exatamente — Claire concordou. — E foi numa dessas áreas de plantio, mais afastada da mansão, que encontramos eles.
     

    — Eles… — repeti, já antecipando.
     

    — Um grupo de demi-humanos ovelha. — Ela fez uma pausa curta, escolhendo as palavras. — Não estavam exatamente escondidos, mas viviam como se estivessem sempre prestes a se esconder. Próximos demais dos armazéns antigos para ser coincidência.
     

    — Abandonados — completei, sentindo um gosto amargo na boca.
     

    Claire assentiu, sem hesitar.
     

    — Pelos Argos. Deixados ali quando a ilha foi esvaziada. Tinham acesso a comida suficiente para não morrer de fome, mas não o bastante para viver com dignidade. Plantavam o que conseguiam, reaproveitavam ferramentas quebradas, dormiam onde dava.
     

    Nix soltou um som baixo, de confirmação, e cruzou os braços.
     

    — Eles pareciam ratos acuados — disse. — Sempre olhando por cima do ombro. Sempre esperando o próximo chute.
     

    Claire lançou um olhar rápido para ela, não de reprovação, mas pedindo cuidado, antes de continuar.
     

    — Eram dóceis. Assustados. Falavam pouco. Quase nada. Quando falavam, era sempre entre si. Evitavam contato visual. — Ela respirou fundo. — Menos uma.
     

    Levantei uma sobrancelha.
     

    — Sempre tem uma — murmurei, mais para mim mesmo do que para elas.
     

    — Havia uma garota diferente — disse Claire. — Mais inquieta. Não desviava o olhar como os outros. Falava mais, mesmo quando não era perguntada. Cabelos brancos… com uma mecha roxa. Aquilo me chamou atenção, mas não o suficiente naquele momento.
     

    Meu maxilar se fechou devagar. Instinto me dizia que aquele detalhe importava mais do que parecia.
     

    — Organizamos tudo com cuidado — prosseguiu Claire. — Pedi para os serviçais ficarem com o grupo principal enquanto eu fazia um reconhecimento rápido dos arredores. Precisava garantir que não havia outros grupos ou ameaças próximas. Nix ficou ajudando como sempre, distribuindo água, observando.
     

    Nix deu de ombros, como se aquilo fosse o óbvio.
     

    — Até que nos separamos por alguns minutos — concluiu Claire, a voz ficando mais tensa.
     

    Senti o aperto no peito antes mesmo de ouvir o resto.
     

    — Foi rápido — disse Nix, agora mais baixo. — Um descuido. O cheiro deles estava em todo lugar… o dela não me alertou.
     

    Claire retomou, com precisão quase cirúrgica.
     

    — Enquanto eu verificava um celeiro mais ao norte, Nix entrou sozinha em um galpão antigo. Escuro, fechado, cheio de ferramentas velhas. — Ela parou por um instante. — Foi atingida por trás.
     

    O silêncio caiu pesado no quarto.
     

    — Um golpe na cabeça — completou. — Com um porrete.
     

    Vi os dedos de Nix se contraírem levemente, mesmo agora. A lembrança ainda estava ali, viva.
     

    — Eu ouvi o barulho — continuou Claire. — O impacto seco. Corri imediatamente. Quando cheguei, Nix estava caída, atordoada. Sangrando. A garota ovelha ainda segurava o pedaço de madeira.
     

    — Ela tremia — acrescentou Nix. — Não parecia satisfeita. Não parecia orgulhosa. Parecia… desesperada.
     

    Claire assentiu de novo.
     

    — Curei Nix no mesmo instante. Magia direta, sem sutileza. Depois contive a garota. Ela não resistiu muito. Não tinha força, nem técnica. Só medo acumulado demais.
     

    Fechei os olhos por um segundo, organizando tudo na cabeça.
     

    — E vocês a trouxeram para cá.
     

    — Sim — respondeu Claire. — Prendemos no porão da mansão. Não como punição imediata, mas para evitar qualquer nova reação. Demos água e comida. Ela recusou ambos.
     

    Passei a mão pelo rosto, lentamente. A história não tinha buracos. Abandono prolongado, isolamento, medo constante. Um ataque impulsivo, mal calculado.
     

    Nada ali cheirava a conspiração. Cheirava a sobrevivência mal direcionada.
     

    Olhei para Nix.
     

    — Doeu?
     

    Ela fez uma careta e um beicinho.
     

    — Muito. Fui pega desprevenida, minha cabeça sangrou bastante. — Bufou. — Mas fiquei mais com raiva do que com dor. Não por ter apanhado… mas por ter sido pelas costas. E fiquei com medo. Pelos nossos bebês.
     

    O sangue me subiu ao rosto, mas me forcei a respirar fundo.
     

    — Vocês fizeram certo — falei, por fim. — Ainda bem que não executaram a garota.
     

    Claire relaxou visivelmente os ombros.
     

    — O que pretende fazer agora?

    Primeiro, falar com ela — respondi. — Eu mesmo. Sem intermediários. — Apoiei a mão nas costas de Nix. — Depois decidir o destino desse grupo. Se os Argos os mantiveram aqui, mesmo que de forma cruel, é porque sabiam que eram úteis.
     

    Nix me olhou de lado, curiosa.
     

    — E se ela tentar de novo?
     

    — Então lidamos com isso — respondi, sem elevar a voz.
     

    Levantei-me.
     

    — Vamos ao porão. Quero ouvir o porquê da boca dela.
     

    Deixei Nix escorregar do meu colo e me levantei. Ela me lançou um olhar atravessado, daqueles que diziam claramente que eu deveria tê-la carregado até o fim do dia, se não até o fim da semana.
     

    — Vocês vêm comigo — falei, olhando para Claire e depois para Nix. — Vamos ver essa garota.
     

    Descemos pela escada da mansão em direção à área de serviços. O caminho era estreito, funcional, longe dos corredores largos pensados para exibição. Uma pequena escada de pedra conduzia para baixo. A cada degrau, o ar mudava. Ficava mais frio, mais úmido. O cheiro de pedra antiga misturado à madeira esquecida se infiltrava nos pulmões.
     

    — Só pra constar — disse Nix, enquanto descíamos —, se fosse um serviçal comum, aquele golpe teria matado.
     

    Assenti sem hesitar.
     

    — Eu sei. — Olhei para ela de lado. — Você só está aqui porque é teimosa, resistente… e porque tem um sol de mana já bem formado.
     

    — Bonito jeito de dizer que sou dura na queda — resmungou.
     

    — É exatamente isso.
     

    Claire seguia à frente, em silêncio. Não era distração. Era foco. Eu conhecia bem aquele tipo de quietude: ela observava ângulos, portas, sombras, rotas de fuga. Registrava tudo.
     

    O porão ficava atrás de uma porta reforçada. Ferro antigo, madeira grossa. Os Argos claramente usavam aquilo como cela quando precisavam. Uma parte de mim esperava, talvez de forma ingênua, que aquela fosse a última vez que eu pisaria ali com esse propósito.
     

    Empurrei a porta.
     

    A garota estava sentada no chão, encostada na parede. Não estava amarrada. Um detalhe que registrei de imediato. Não parecia ferida. Mesmo suja e assustada, ainda olha a com um certo desafio.
     

    Cabelos brancos, grossos, mal cortados, caindo de forma irregular sobre os ombros. As orelhas de ovelha estavam baixas, coladas à cabeça. Os chifres curtos traziam marcas de desgaste, mas havia algo firme ali. Os olhos grandes nos acompanharam assim que entramos.
     

    Ela encolheu o corpo instintivamente.
     

    Me abaixei até ficar à altura dela.
     

    — Eu sou Lior. Ela é Claire. — Apontei levemente para o lado. — E essa aqui, que você quase matou, é Nix. Qual é o seu nome?
     

    — War… — a voz falhou. Ela respirou fundo. — Warlia. Eu já pedi desculpas. Não queria matar ninguém.
     

    — Eu acredito — respondi, sem suavizar nem endurecer o tom. — Mas às vezes nossas ações causam mais do que pretendemos.
     

    — Ela é uma raposa… eu sou uma ovelha… — disse rápido. — Eu me assustei. Não pretendia atacar ninguém.
     

    Ela me observava com mais atenção agora. Tentava medir o perigo, mas não tinha ferramentas para isso.
     

    — Você sabe quem eu sou? — perguntei.
     

    Ela hesitou, depois balançou a cabeça negativamente.
     

    — Sou o dono desta ilha agora — falei. — E ela é uma das minhas esposas. Está grávida dos meus filhos.
     

    Os olhos de Warlia se arregalaram. Olhou rápido para Nix, depois desviou para o chão.
     

    — Eu… eu não queria… — engoliu em seco. — Só queria que fossem embora. Eu vi que ela era demi-humana, então pensei que não poderiam ser novos mestres. Achei que… — a frase morreu antes de terminar. — Eu estava errada.
     

    Ela começou a chorar. Não alto. Não de forma encenada. Um choro contido, irregular, difícil de assistir.
     

    Não tinha escolha a não ser esperar ela se acalmar.

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