Capítulo 254: Warlia
Depois que Warlia se acalmou, disse:
— Eles sempre levavam alguém — disse, entre soluços. — Sempre chega alguém… e depois alguém some. Os Argos levavam. Os homens deles. A gente se escondia. Às vezes funcionava. Às vezes não. O corpo nunca mais aparecia.
Claire cruzou os braços, o corpo rígido. Nix ficou parada, observando sem intervir.
— E você achou que atacar um de nós resolveria isso? — perguntei.
— Eu achei que se machucasse… vocês iriam embora — respondeu. — Que era melhor do que esperar e ficar à mercê.
Respirei fundo. Não por pena. Por reconhecimento. Já tinha visto aquele raciocínio antes. Em soldados, em feras, em povos inteiros empurrados para o limite. Não tinha sequer pensado, apenas reagido.
— Você sabe o que teria acontecido se não fosse ela? — apontei para Nix.
Ela levantou o olhar, confusa.
— Um serviçal comum teria morrido — continuei. — Um golpe daquele, daquele jeito. Você teria sangue nas mãos. Não medo. Sangue.
Ela tremeu visivelmente.
— Eu não sou uma assassina…
— Ainda — corrigi. — E não gostei das mentiras que me contou no início. A verdade só veio quando você foi pressionada.
O silêncio se espalhou. Apenas o som distante da casa acima, viva demais, respirando.
— Quantos são vocês? — perguntei.
— Trinta e sete — respondeu rápido. Não parecia ensaiado.
— Todos ovelha?
— Sim.
— Trabalham?
Ela piscou, surpresa com a mudança de rumo.
— Plantamos. Consertamos coisas. Guardamos comida. Fazemos o que dá. O que sempre fizemos para nossos senhores.
Olhei para Claire. Ela entendeu antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
— Vocês sobreviveram aqui sem proteção — continuei. — Sem contrato. Sem nome. Isso tem valor.
Warlia me encarava agora, sem saber o que fazer com aquelas palavras.
— Mas isso — apontei para o espaço entre nós — não pode se repetir. Nesta ilha, ninguém ataca ninguém pelas costas. Nem por medo. Nem por desespero.
— Eu aceito punição — disse ela rápido. — Qualquer coisa. Só não manda a gente embora. Lá fora… não tem pra onde ir.
Nix se mexeu ao meu lado.
— Ela me bateu — disse, simples. — Mas não tentou de novo quando eu caí. Só ficou parada.
Assenti. Era ela desculpando a garota.
— Eu estou pensando em outra coisa — falei, voltando o olhar para Warlia. — Você falou em “vocês”. Em tribo. Aqui não é mais terra dos Argos. Mas também não é terra sem dono.
Ela prendeu a respiração.
— Eu preciso de gente que trabalhe — continuei. — Que conheça a ilha. Que não fuja ao primeiro sinal de problema. Em troca, eu ofereço proteção. Comida. Um lugar fixo. Regras claras.
Claire arqueou levemente a sobrancelha. Nix sorriu de canto.
— Isso… isso é um contrato? — perguntou Warlia.
— É um acordo — respondi. — Não de servidão. De trabalho. Vocês ficam. Ajudam. E enquanto estiverem sob minha proteção, ninguém toca em vocês. E você vai servir diretamente a Claire e Nix.
— E se eu disser não?
— Então vou reunir todos e fazer atravessar a névoa. A ilha é minha agora. Que encontrem outro lugar.
Ela baixou a cabeça. Pensou. Mais tempo do que alguém acostumada a agir no impulso.
— Eu aceito — disse por fim. — Eles vão aceitar também.
Me agachei diante dela, ficando no mesmo nível.
— Então escute bem, Warlia. Aqui não é o lugar onde o mais desesperado sobrevive. Eu os tratarei bem, se colaborarem.
Ela assentiu.
— Você vai responder pelo que fez — completei. — Trabalhando. Protegendo os seus. E nunca mais levantando a mão contra alguém desta casa sem ordem direta.
— Nunca mais — disse, rápido.
Me levantei.
— Claire, leve-a até a família dela. Explique o que foi decidido aqui.
Olhei para Warlia.
— Você tem esta noite para se reunir com os seus. Amanhã cedo, quero você aqui. Vai aprender suas obrigações.
Nix abriu um sorriso satisfeito. Eu sabia que ela faria a garota trabalhar duro, e não a repreendi por isso.
— e você mocinha, vá descansar.
— Só se você vier cuidar de mim depois — disse Nix, tocando a própria cabeça. — Ainda dói, sabia?
Suspirei, já prevendo o que me aguardava.
Subimos a escada devagar. A pedra fria cedia lugar ao piso de madeira, e o ar ia ficando menos denso a cada degrau. Eu vinha logo atrás de Claire; Warlia subia à frente, com passos curtos, contidos. Nix fechava o grupo, próxima demais para ser coincidência.
— Anda — murmurou Nix, cutucando Warlia entre as omoplatas com dois dedos. — Mais rápido. Isso aqui não é picnic.
Warlia se encolheu, mas obedeceu. Não reclamou. Nem olhou para trás.
Claire esperou passarmos pela metade da escada antes de falar comigo, a voz baixa o suficiente para não ser ouvida.
— Aproveitando que você voltou — disse —, tomei algumas decisões enquanto esteve fora.
— Imaginei — respondi. — E pelo jeito, nenhuma pequena.
Ela inclinou a cabeça, confirmando.
— Estamos construindo um adendo na frente do jardim principal. Algo simples, mas sólido. Espaço suficiente para abrigar os anciãos que resgatamos… e para as reuniões que virão.
— Conselho de guerra — completei.
— Exatamente. — Claire não sorriu. — Eles precisam de um lugar que não seja improvisado. Algo que dê a sensação mínima de estabilidade. Mesmo que seja ilusória.
Assenti. A ideia era boa. Mais do que boa: necessária.
— O jardim frontal tem boa visibilidade — pensei em voz alta. — Fácil de proteger. E longe o bastante das áreas privadas da casa.
— Foi esse o raciocínio — disse ela. — Também facilita controlar quem entra e quem sai. Não quero anciãos circulando sem rumo por corredores que não conhecem.
Olhei para Warlia, alguns degraus à frente, e depois para Nix, que continuava a cutucá-la sem piedade.
— Já começou a obra? — perguntei.
— Limpeza do terreno e fundação — respondeu Claire. — Os serviçais estão sobrecarregados, mas dão conta… até certo ponto.
— Use os homens ovelha — falei, sem hesitar. — Os adultos, pelo menos. Construção leve, transporte, preparo do terreno. Isso os integra mais rápido à rotina da ilha.
Claire me olhou de lado, avaliando.
— Pensei nisso. Mas queria ouvir de você antes.
— Integração pelo trabalho — continuei. — Não como punição. Como função clara. Dá propósito. E trabalho tira as coisas da cabeça.
Ela assentiu lentamente.
— Warlia vai aceitar isso?
— Ela aceitou coisa pior hoje — respondi. — E vai entender que isso protege a tribo dela.
Chegamos ao topo da escada. O corredor principal se abriu à frente, iluminado por lamparinas acesas cedo demais para aquela hora do dia. A casa estava cheia. Vozes baixas, passos, movimento contido. Não era caos, mas também não era ordem. Ainda.
— Vou colocá-los sob supervisão direta de alguém de confiança — acrescentou Claire. — Talvez um dos anciãos mais práticos.
— Boa escolha — falei. — Política não levanta parede. Braço levanta.
Nix empurrou Warlia de leve para frente quando ela hesitou na última porta.
— Anda logo — disse. — Ou eu te ensino como se sobe escada direito.
Warlia engoliu seco e acelerou.
Entramos na sala de estar.
Pandora estava sentada em uma das poltronas mais afastadas da lareira. A postura rígida, os dedos entrelaçados no colo. Lenora ocupava o sofá oposto, recostada de lado, uma perna estendida com cuidado. Estava pálida. Havia marcas recentes demais para serem ignoradas. Mesmo assim, seus olhos estavam atentos, vivos.
Assim que me viram, as duas se levantaram.
— Lior — disse Pandora primeiro. A voz firme, mas carregada de urgência. — Precisamos falar.
— Agora — completou Lenora. — Antes que a noite caia.
— Imagino que sim — respondi.
Warlia parou perto da porta, sem saber o que fazer. Nix pousou a mão no ombro dela, não exatamente gentil.
— Vamos, vou te levar até sua família — murmurou. — Fique invisível, aprenda observando.
Assenti para Nix. Ela mesma odiava política.
Claire fechou a porta e se posicionou mais próxima de Pandora, quase instintivamente.
— O que decidiram? — perguntei, indo direto ao ponto.
Pandora trocou um olhar rápido com Lenora.
— O julgamento no pátio não foi cancelado — disse. — Só adiado. Juliani está reorganizando as peças.
— E os nomes? — perguntei.
— Os mesmos — respondeu Lenora. — Os nossos. E de mais alguns que ainda não conseguimos tirar das listas.
Cruzei os braços.
— Então ele vai tentar transformar isso em exemplo público.
— Sim — confirmou Pandora. — E rápido. Antes que outros anciãos se alinhem a você de vez.
Olhei ao redor da sala. Para a casa cheia. Para Claire. Para Nix. Para Warlia, quieta demais.
— Então precisamos adiantar nossos próprios movimentos — falei. — E parar de reagir.
— Concordo — disse Lenora. — Mas precisamos decidir onde bater primeiro.
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi pesado de intenção.
— Sentem — falei por fim. — Vamos traçar isso direito. Porque os próximos passos não vão permitir erro.

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