Capítulo 255: O início
Sentei em uma das poltronas vazias da sala de estar. Eram móveis gastos, herdados da época dos Argos. Madeira escura, entalhes já cansados pelo uso e pelo tempo, mas ainda sólidos. O luxo tinha ido embora, restava a utilidade. Serviriam por enquanto, como quase tudo naquela casa.
Anna se aproximou em silêncio e me entregou uma xícara de chá quente. Agradeci com um gesto e levei o líquido aos lábios sem pressa. O calor ajudou a organizar os pensamentos. Pandora e Lenora continuavam sentadas, me observando, à espera. Não havia ansiedade explícita, mas tinha um peso da seriedade dos acontecimentos. Uma inevitabilidade.
Claire se acomodou no encosto de braço da poltrona ao meu lado. Deixei minha mão pousar naturalmente em sua perna. Ela inclinou levemente a cabeça e me devolveu um sorriso curto, cúmplice. Um lembrete silencioso de que eu não estava sozinho ali.
— Antes de começarmos — falei, apoiando a xícara na mesa à minha frente —, preciso saber uma coisa. Você fala por todos os anciãos?
Olhei diretamente para Lenora.
Ela não hesitou. Apenas assentiu, com um movimento firme da cabeça.
— Falo. Pelo menos pelos que ainda confiam em nós, e pelos que foram calados antes de poderem dizer qualquer coisa.
— Então vamos tratar disso como deve ser tratado — respondi. — Estamos tomando decisões que vão afetar casas inteiras. Não dá mais para improvisar. É de uma guerra aberta contra o império que estamos falando.
Lenora suspirou. O rosto arroxeado dos ferimentos. Olhou para Pandora e entrelaçou seus dedos nas dela. Como se precisasse de apoio, mas seus olhos brilhavam intensamente. Convicção.
— Nosso maior problema, neste momento — continuei —, é que não temos meios eficazes de comunicação com Thallanor. Nem com as casas que nos apoiam. Sabemos o que acontece aqui. Não sabemos o que acontece nas ilhas deles.
Lenora assentiu de novo.
— Sempre foi assim — disse. — Guerras de grande escala nunca foram decididas só por força. Informação sempre foi o fator crítico no Império. Desde a fundação. — Ela respirou fundo. — Nós não sabemos o que está acontecendo… mas eles também não sabem o que acontece conosco.
Eu conhecia essa verdade em teoria. Mas era diferente vê-la se impor agora, no meio do caos.
— Não temos um exército de verdade — ela prosseguiu. — Temos pessoas. Espalhadas. Ilhas isoladas. Gente que ainda nem sabe dos crimes de Juliani, que Pandora, a verdadeira herdeira, ainda vive. Fomos pegos desprevenidos.
— Concordo — falei. — Por isso nossos primeiros passos precisam ser defensivos. Garantir a segurança dos aliados nas próprias ilhas. Mesmo que, em último caso, seja necessário evacuar.
Lenora franziu os lábios.
— Isso é impossível, Lior. Algumas ilhas têm mais de cem mil habitantes. Não há como retirar todos sem provocar pânico… ou chamar ainda mais atenção — falou me olhando. — E apenas defender, vai trazer eles pra cima da gente. Temos que ser pró-ativos.
Ela estava certa.
Pandora, até então em silêncio, se inclinou para frente.
— O exército imperial não consegue submeter todas as ilhas ao mesmo tempo — disse. — Nunca conseguiu. Eles sempre operam da mesma forma: metade das tropas permanece em Thallanor, protegendo o núcleo do poder. A outra metade é deslocada para a ilha-alvo.
— O que muda agora — acrescentou Lenora — são as decisões políticas. É assim que derrubam casas inteiras. Retiram apoio, isolam, acusam. Nunca tivemos tantas casas questionando o trono ao mesmo tempo.
Enquanto elas falavam, uma ideia antiga voltou à minha mente. Um projeto de Lock. Um dispositivo teórico, baseado em princípios arcanos simples, mas difíceis de estabilizar: comunicação à distância, sem mensageiros, sem portais.
Senti um aperto no peito.
Eu tinha prometido ajudá-lo. Ajudar seu povo. Já tinha a ilha. Já sabia onde ancorar aquela parte fragmentada do reino dele, no oceano de mana dos guardiões. Mas Lock estava longe. Preso. Um escravo de Juliani. Os guardiões, eu não tinha notícia alguma.
Respirei fundo.
Então me lembrei de algo mais imediato.
Rosa.
Eu tinha deixado minha mente ligada à dela.
Fechei os olhos por um instante e a chamei em pensamento.
A resposta veio como um impacto.
— Lior, que diabos é isso?! — a voz dela ecoou na minha mente. — Você quase me fez cair da cadeira. Nunca avisa?
A conexão era mais fraca do que a que eu tinha com Nix ou Claire, mas estava lá. Estável o suficiente.
— Acho que tenho uma solução para o nosso problema de comunicação — respondi para Lenora e Pandora. — Não sei se vai funcionar perfeitamente. Mas acredito que seja suficiente.
Sorri para elas.
Pandora e Lenora me observavam, confusas.
Estendi o vínculo. Não como costumava fazer, filtrando tudo por mim, mas dividindo minhas mentes. Mantive uma parte apenas controlando o fluxo de informações. Queria testar algo diferente.
— Está me ouvindo, Lior? — Rosa insistiu.
— Estou.
Pandora e Lenora quase engasgaram com o chá.
— Rosa?! — disseram as duas, quase ao mesmo tempo.
— Sou eu — respondeu a voz na mente delas.
O silêncio que se seguiu foi pesado de espanto.
Elas não estavam me ouvindo repetir palavras. Estavam ouvindo Rosa diretamente.
Eu ainda era o ponto de ancoragem. Mas o canal estava aberto entre elas.
— Isso significa… — Lenora começou, cautelosa.
— Sim — respondi, sorrindo. — Ainda não sei quantas pessoas consigo manter conectadas. Nem qual a distância máxima entre ilhas. Mas isso é algo que nós temos… e o Império não.
Pandora se levantou de um salto.
— Isso muda tudo — disse. — Podemos agir quase em tempo real. Coordenar forças. Ter um único exército, mesmo espalhado. Onde o Império se mover, podemos reagir.
— Exato — confirmei. — Quero que os anciãos me forneçam duas coisas: uma pedra de ancoragem de cada ilha… e o nome de alguém absolutamente confiável. Vamos montar nossa rede de informações o mais rápido possível.
Pandora não disse mais nada. Apenas virou-se e saiu da sala, já dando ordens.
Fiquei sozinho com Lenora.
Ela me olhou por alguns segundos antes de falar.
— Sua mãe e sua irmã — disse. — presas em Vesúvia.
Assenti.
— Preciso resgatá-las. Antes de qualquer outra coisa. Elas podem ajudar… e não posso deixá-las lá.
— Eu já esperava por isso — respondeu. — Faça o que precisa ser feito.
— Mas antes — acrescentei. — A rede de comunicação. Sem informação, qualquer passo é um salto no escuro.
Lenora assentiu. Um sorriso lento surgiu em seu rosto, apesar dos ferimentos, dos dentes quebrados, da dor evidente. Era o primeiro sorriso verdadeiro desde que a tirei daquela cela.
— Então talvez — disse ela — ainda tenhamos uma chance.
— Eu nunca duvidei!

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