Índice de Capítulo

    Levou mais de um dia inteiro atravessando a névoa, estava esgotado mentalmente.

    Visitei uma a uma as ilhas dos anciãos que havia resgatado do Império. Era um trabalho complicado.
    Cada uma dessas ilhas sendo pressionadas pelo Imperador. Pelas diferentes facções internas de cada Casa. Os anciãos já não tinham mais tanto poder como pensavam.

    Procurava os contatos indicados. Fazia com eles uma ponte mental que em breve, se tornaria nossa rede de informações.

    Visitei também as casas indicadas por Lenora como potenciais aliadas na nossa resistência.

    Em cada ilha, repetia o processo. Pedra de ancoragem. Nome de confiança. Estabelecimento do vínculo.

    Ao final, a rede estava enfim, formada.

    Criei uma malha mental onde os interligados podiam se comunicar diretamente entre si, e comigo. Eu permanecia como eixo, mas não como filtro constante. Eles podiam trocar informações sem que cada palavra precisasse atravessar minha consciência direta.

    Minhas mentes divididas trabalhavam para organizar o fluxo. Ainda era fácil. Pouca informação sendo trocada, mas eu sabia que em breve, as conversas mentais seriam mais e mais constantes. Era uma questão de se acostumar com isso.

    “Muito bem, Lior,” veio o pensamento de Lenora na minha cabeça depois de uma negociação particularmente complicada com os Alteris. Ela tinha me “sussurrado” as palavras certas na hora mais tensa. Pensei que teria que usar a força para sair da ilha.
     

    Mesmo com o pouco uso ainda, uma das minhas mentes divididas queimava com o esforço contínuo. Era como sustentar um peso invisível apoiado na parte de trás do crânio. Uma pressão constante, que eu fingia não notar por enquanto.
     

    Estava feito.
     

    Estávamos conectados.
     

    Um passo à frente do Império.
     

    As notícias que começaram a circular pela rede não eram boas. Mas também não eram desesperadoras.
     

    O Império enviara emissários às casas suspeitas. Não houve exclusão imediata do sistema de poder. Nenhuma declaração formal de traição. Nada aberto.
     

    Mas o cepo do carrasco estava à vista.
     

    A exigência era clara: que os anciãos fossem reconhecidos como criminosos. Que fossem formalmente removidos dos cargos e dos direitos políticos dentro de suas próprias casas.
     

    O equilíbrio interno estava por um fio.
     

    Facções internas defendiam obediência imediata a Juliani. Outras hesitavam. Algumas esperavam para ver quem cairia primeiro.
     

    O poder dos anciãos estava minado.
     

    Precisávamos de uma demonstração de força. Algo que dissesse, sem ambiguidade: estamos vivos, organizados e capazes de agir.
     

    Eu tinha essa jogada.
     

    Precisava resgatar minha mãe e minha irmã.
     

    Não era apenas pessoal. Era político. Vulkaris ainda tinha peso. Isolde e Cassiopeia não eram nomes pequenos.
     

    Mas eu não podia enfrentar os Vulkaris de frente. Mesmo com o que eu havia me tornado, um confronto aberto seria suicídio.
     

    Precisava ser como antes. Rápido. Preciso. Sorrateiro.
     

    — Vou com você — disse Pandora, assim que expus a ideia.
     

    Olhei para ela por alguns segundos.
     

    Era perigoso. Mas eu não podia fazer aquilo sozinho. Não mais. A rede mental exigia parte de mim ativa o tempo todo. E a guerra maior se aproximava.
     

    Precisava de aliados fortes. De preferência, com sol de mana, não presos ao sistema de círculos que o Império conhecia bem demais.
     

    As opções eram claras.
     

    Claire. Pandora. Nix. Niana.
     

    Nix me olhava com confiança, quase desafiando que eu a deixasse para trás. Mas eu não faria isso.
     

    Não colocaria sua gravidez em risco.
     

    No final, decidimos.
     

    Claire. Niana. Pandora. E eu.
     

    Seríamos nós quatro a entrar em Vesúvia e tirar Lady Isolde e Cassiopeia de lá.
     

    Era uma armadilha? Talvez.
     

    Eu esperava que não.
     

    Voltei-me para Claire.
     

    Ela já estava pensando nos detalhes. Logística, suprimentos, rotas de saída. Mesmo as reformas na casa, o adendo no jardim, a organização dos anciãos, tudo carregava a marca dela.
     

    — Organize tudo para podermos partir — pedi. — Lenora fica responsável pela supervisão. Saimos ao amanhecer.
     

    Lhe dei um beijo em seus cabelos castanhos. Ela assentiu e saiu. Não houve dramatização. Apenas decisão. Ao se afastar, sua expressão parecia talhada em pedra.
     

    Nix se aproximou logo depois, com aquele caminhar leve demais para ser casual.
     

    — Então quer se ver livre de mim — disse — e ainda vai acompanhado daquela loira sem graça?
     

    Suspirei.
     

    — Pare com isso, Nix. Não é hora para ciúme bobo. Eu amo você. E não vejo Claire fazendo drama.
     

    — Eu queria ir com você — respondeu, virando de costas e cruzando os braços.
     

    Aproximei-me e a abracei por trás. Meus dedos correram por seus cabelos.
     

    — Você está grávida — falei baixo. — Vai ser perigoso.
     

    Minha mão repousou sobre seu ventre, que já começava a se insinuar sob o tecido do vestido.
     

    — Foi difícil ficar longe de você na missão dos Argos — murmurou. — Eu não dormia direito. Ficava imaginando tudo que podia dar errado.
     

    Beijei de leve seus lábios.
     

    — Os próximos dias serão mais difíceis. E você está ligada a minha mente. Vamos poder se falar.
     

    — Eu sei — disse ela, apoiando-se contra meu peito. — Desculpa. Acho que é a gravidez. Não sou assim.
     

    — Não precisa se desculpar. O que eu mais queria era ficar aqui com vocês. Mas as coisas saíram do controle quando ele prendeu Lenora e os Anciãos.
     

    Ficamos alguns segundos em silêncio. Apenas o calor do corpo dela contra o meu. O cheiro familiar do cabelo.
     

    Ela se afastou primeiro.
     

    — Vou ajudar Claire — disse. — Senão você vai achar que só ela trabalha nesta casa.
     

    — Nunca — respondi.
     

    Ela caminhou até a porta. Antes de sair, se virou. Os olhos estavam úmidos, mas havia um sorriso ali.
     

    Quando ela desapareceu no corredor, Pandora se aproximou.
     
    — Desculpa causar problemas — disse.
     

    — Que problemas?
     

    — Nix. O ciúme que ela sente de mim.
     

    Soltei um leve riso.
     

    — Engraçado. Ela nunca teve ciúme de Claire. Mas de Selune… e de você.
     

    Ao pronunciar o nome de Selune, senti o peito apertar.
     

    Com tudo que havia acontecido, desde a invasão da capital, casamento, Nix grávida, a rede, a guerra se formando, eu quase tinha conseguido empurrar aquilo para o fundo da mente.
     

    Ela estava perdida na névoa. Grávida. Sozinha.
     

    Transformada em algo pelo avatar do vazio.
     

    E eu estava aqui.
     

    Pandora percebeu a mudança no meu rosto. Não sabia a causa exata, mas sentiu o peso. Colocou a mão no meu ombro.
     

    Apertei os dedos dela em resposta e ergui a cabeça.
     

    — Vamos fazer isso dar certo — falei. — Vamos vingar seus pais. Vamos cobrar cada morte nos jogos de poder de Annabela e Juliani.
     

    Os olhos dela brilharam.
     

    — Eu estou do seu lado. Para sempre — disse, firme. — Não esqueça disso, Lior.
     

    — Nunca vou esquecer.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota