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    O sol ainda não tinha nascido.
     

    A praia estava silenciosa, exceto pelo som das ondas quebrando na areia escura. Eu e Claire estávamos prontos havia algum tempo. Ficamos lado a lado, de mãos dadas, observando o ponto onde a água do mar encontrava a névoa. Nix estava dormindo, não quis acordá-la. 
     

    A maré estava baixa. A faixa de água antes da névoa era pequena, talvez quinze ou vinte metros. Não era uma travessia difícil. Ainda assim, o contraste entre o mar aberto e a massa acinzentada que cobria o horizonte sempre causava um certo desconforto.
     

    A névoa era um limite místico. Uma representação do Deus do vazio. Eu sabia disso agora. A ilha que tinha recebido dos Argos, tinha os monolitos antigos, colocados por Malena e Mahteal. Uma das formas de manter a névoa longe. O maior motivo que aceitei a missão deles em primeiro lugar.
     

    — Quando as crianças começarem a brincar na praia, vamos ter que tomar cuidado — falei, mantendo os olhos naquele limite. A imaginação já imaginando meus futuros filhos correndo ali, descalços. — Nunca tinha pensado na possibilidade da maré levar alguém névoa adentro.
     

    A preocupação surgiu, quase por acaso, enquanto esperávamos Pandora e Niana.
     

    Claire virou o rosto para mim e apertou minha mão. A luz fraca da lua ainda se refletia nos olhos dela. Não disse nada. Ela sabia que eu estava desviando o pensamento da missão que nos aguardava. Estava nervoso. Sabia que não seria simples.
     

    Por alguns segundos ficamos em silêncio. O vento vindo do mar trazia o cheiro salgado da água misturado ao frio da madrugada.
     

    — Só me faltava essa… Vamos ter que nos molhar? — resmungou Niana ao se aproximar, a voz carregada de mau humor.
     

    Ela parecia bem pouco animada com a ideia de atravessar água gelada antes do amanhecer.
     

    — Só até as pernas — respondi, sem perceber que ela não esperava uma explicação detalhada. — Também podemos atravessar pelo outro lado da ilha. São só algumas horas de caminhada.
     

    — Vamos por aqui mesmo — disse Pandora antes que eu continuasse, não notando o sarcasmo da minha última fala. — Não adianta procurar desculpas. A missão continua a mesma.
     

    Respirei fundo.
     

    O plano já estava definido. Entrar em Vesúvia pela névoa, nos manter invisíveis o máximo possível e sair com minha mãe e minha irmã antes que alguém percebesse o que estava acontecendo.
     

    Simples no papel. Arriscado na prática.
     

    Eu conhecia o terreno, a cidade, e a mansão. Cresci ali. Sabia quais caminhos eram menos vigiados e onde as patrulhas costumavam passar.
     

    Também tinha uma boa ideia de onde manteriam prisioneiros importantes.
     

    — Todas com as pedras? — perguntei, olhando novamente para a névoa.
     

    As três assentiram.
     

    As pedras de ancoragem estavam em pequenas bolsas. Uma que abria o caminho para Vesúvia. Outra para voltarmos. Senti um aperto no peito. Queria manter as pedras que trouxessem à minha nova ilha sob controle estrito. Nosso plano dependia do Império não ter acesso à gente, mas não podia deixar as garotas ali, sem meios de fugir.
     

    Apertei a mão de Claire e dei o primeiro passo na água.
     

    O frio subiu pelas pernas imediatamente. A água batia pouco abaixo dos joelhos. Não demorou para que a névoa nos engolisse completamente.
     

    Dentro dela, o mundo parecia distante. O som das ondas se tornava abafado. A visão desapareceu e um túnel estreito surgiu, apertei o passo. Não queria demorar na travessia.
     

    Quando saí do abraço gelado da névoa, o cheiro me atingiu primeiro.
     

    Eu tinha esquecido como Vesúvia era fedida e abafada. Quando morava ali, passava desapercebido.
     

    O ar ali sempre carregava partículas de fuligem. Havia um cheiro constante de queimado, misturado ao odor de enxofre que subia das fissuras no solo. O calor também era diferente, vindo de baixo, como se a própria terra estivesse sempre aquecida.
     

    Claire, Pandora e Niana emergiram da névoa logo depois.
     

    Niana levou a mão ao nariz imediatamente. A cara fechada numa careta.
     

    — Agora eu entendo por que os Vulkaris são tão duros — comentou Pandora, olhando ao redor.
     

    À nossa frente se estendia a paisagem característica da ilha. Montanhas vulcânicas, encostas de rocha escura e rios antigos de lava solidificada formando caminhos naturais.
     

    — Crescer num lugar assim não deve deixar muita margem para fraqueza — continuou ela.
     

    Ela respirou fundo, avaliando o ambiente.
     

    — A mana aqui é densa — disse. — Dá para sentir.
     

    Claire se aproximou de mim. Notei a preocupação em seu rosto.
     

    — Não — falei antes que ela perguntasse. — Não se preocupe. Voltar aqui não me afeta tanto.
     

    Olhei ao redor por um momento.
     

    — Hoje eu sou alguém muito diferente de quem Ganimedes foi.
     

    Antes que alguém respondesse, senti uma presença se aproximando.
     

    Minha reação foi imediata.
     

    Conjurei uma runa de ocultação na mente. A estrutura mágica se formou rapidamente, expandindo-se ao redor de nós quatro.
     

    Desaparecemos.
     

    Pelo vínculo mental, avisei:
     

    “Silêncio.”
     

    Alguns segundos depois, duas armaduras manaclaste surgiram na trilha que seguia pela encosta. Caminhavam em passos firmes, mantendo ritmo constante.
     

    Sobre os ombros de cada uma havia uma lanterna que projetava uma luz azulada à frente.
     

    Quando passaram mais perto, percebi algo estranho.
     

    A magia começou a falhar.
     

    Senti as runas de ocultação se desfazendo dentro da minha mente. A mana que sustentava o feitiço estava sendo drenada.
     

    A armadura emitia um campo de disrupção mágica.
     

    Mestre Kas tinha criado algo novo. Seu poder disruptivo agora era ativo, e não apenas passivo.
     

    As runas se quebravam uma a uma, como se fossem puxadas para fora da estrutura que eu mantinha.
     

    Minha sorte era o sol de mana.
     

    Ele continuava alimentando a magia constantemente, compensando a drenagem.
     

    Se eu ainda dependesse apenas do sistema de círculos, o feitiço teria colapsado no mesmo instante.
     

    Claire sentiu o efeito também. A mão dela subiu até a boca, num reflexo silencioso. Por um segundo pensei que fosse falar, mas ela se conteve.
     

    Apenas me olhou.
     

    Sorri para tranquilizá-la.
     

    As duas armaduras diminuíram o ritmo por um momento.
     

    — Vamos — disse uma delas para a outra. — Parece que foi um alarme falso.
     

    Continuaram andando.
     

    Eu já esperava vigilância reforçada.
     

    Mesmo com a névoa cercando as ilhas, os pontos de surgimento eram poucos e conhecidos. Qualquer um que escapasse por ali inevitavelmente passaria por essas áreas.
     

    Depois da fuga dos prisioneiros de Juliani, seria estranho se não houvesse patrulhas.
     

    O que eu não sabia era o quanto meu pai sabia sobre mim.
     

    Durante o julgamento, um dos anciãos havia dito que sabia que eu era Ganimedes. Não insistiu porque não tinha como provar.
     

    Mas os Vulkaris sempre souberam mais do que deixavam transparecer.
     

    Quando as armaduras finalmente desapareceram de vista, deixei o ar sair devagar.
     

    Nem tinha percebido que estava prendendo a respiração.
     

    — Vamos ter que tomar muito cuidado — murmurei. — Eles estão atentos.
     

    Mantive a magia de ocultação ativa e indiquei a direção com a mão.
     

    — Por aqui vamos nos aproximar da mansão principal. Minha mãe e minha irmã devem estar sendo mantidas lá.
     

    As três assentiram em silêncio.
     

    Começamos a avançar.
     

    Caminhamos cerca de quinhentos metros pela encosta. O terreno era irregular, formado por rochas antigas e solo escuro que guardava calor mesmo naquela hora da madrugada.
     

    Passamos ao lado de um aclive natural onde uma torre de vigia se erguia sobre as pedras. A estrutura era simples, mas alta o suficiente para dar visão ampla da região.
     

    Conseguimos cruzar o trecho protegidos pela magia e por um muro natural formado por rochas vulcânicas.
     

    Alguns minutos depois, o chão mudou.
     

    A terra escura deu lugar a calçamento de pedra.
     

    Chegávamos à periferia de Vilka.
     

    A capital de Vesúvia.
     

    Minha cidade natal.
     

    Ali ficava o centro administrativo da ilha, as residências das famílias mais importantes e o quartel principal da Legião manaclaste.
     

    O lugar onde cresci.
     

    O lugar onde a linhagem Vulkaris construiu sua reputação ao longo de gerações.
     

    Observei as ruas à frente.
     

    Mesmo naquela hora, havia movimento. Guardas patrulhavam algumas vias, e a luz de tochas e lanternas aparecia em pontos diferentes da cidade.
     

    Engoli em seco.
     

    A partir dali, cada passo seria mais perigoso que o anterior.
     

    E ainda estávamos apenas no começo.

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