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    O calçamento sob meus pés era irregular, quente mesmo na madrugada, efeito de correntes subterrâneas de magma próprias da minha ilha natal.

    Cada passo ecoava baixo demais para ser ouvido por ouvidos comuns, mas eu sentia o risco na nuca. A magia de ocultação puxava minha mana com voracidade. As runas da tecnologia manaclaste, que roubava mana de magias e do ambiente aumentava muito meu gasto.

    Um mago do sistema de círculos, mesmo poderoso, já estaria exausto.
     

    Claire andava ao meu lado, ombro quase encostando no meu. Ela sentia meu esforço e mantinha uma linha de mana para ajudar a manter a runa de invisibilidade estável. Eu via o suor fino na têmpora dela.
     

    — Mais forte do que esperávamos — pensei, enviando pela rede mental.
     

    Ela não respondeu com palavras. Apenas um toque mental leve, como uma mão na minha nuca. “Estou aqui.”
     

    Pandora seguia atrás, passos silenciosos apesar do peso da guerreira. Niana tinha escolhido mudar para forma de raposa, coisa que Nix quase não fazia, e corria rente às paredes, nariz no chão, orelhas girando a cada som distante.
     

    As ruas da periferia de Vilka se abriam à frente. Não as vias largas do centro, mas becos estreitos entre casas baixas de pedra vulcânica, muitas com janelas fechadas por tábuas. Lanternas balançavam em postes de ferro, luz laranja tremulando contra o escuro. Patrulhas passavam em intervalos curtos, não manaclastes, mas membros do exército Vulkaris.
     

    Eu observei uma delas de perto quando cruzamos uma esquina.
     

    Suas armaduras traziam no peitoral uma runa que reconheci. O mesmo padrão de engenharia mágica que alimentava os colossos monstruosos de aço encantado da Legião principal.
     

    Mestre Kas tinha conseguido reduzir a escala e colocar em peças simples. Explicava os postes que vi espalhados pela cidade com a tecnologia de disrupção.

    Claire apertou os lábios. Senti o desconforto dela através da nossa ligação mental. A pressão constante de ser exaurida, doía na cabeça dela.
     

    Eu morava aqui. Conhecia essas ruas de nome, mas nunca as tinha percorrido assim, como um rato nas sombras.

    A mansão Vulkaris ficava mais ao norte, um complexo de vilas conectadas por pátios e corredores cobertos. De longe, parecia um pequeno palácio, com telhados curvos e jardins internos onde meu pai treinava seus filhos e principais guerreiros.
     

    Agora eu voltava para tirar minha mãe e minha irmã de dentro dela.
     

    Viramos para um beco mais escuro, longe das lanternas principais. O ar ali era mais denso, carregado de fumaça de forjas distantes e o fedor sutil de esgoto que subia das valetas no chão. O calor ainda vazava pelas pedras, mas um vento frio descia das montanhas, colando a roupa na pele.
     

    Niana mandou uma nota mental curta.
     

    — Duas patrulhas à frente. Uma com cães.
     

    Seus sentidos eram nossa vantagem maior aqui. Ouvia o que humanos não ouviam, cheirava o medo nos escravos e o ódio nos guardas.
     

    Eu parei um instante, encostando na parede áspera. O sol de mana no meu peito pulsava quente, empurrando contra a disrupção. Ele me protegia. Pandora e Niana sentiam menos, mas não estavam imunes.
     

    — Não podemos forçar passagem — enviei. — Precisamos de um lugar para base.
     

    Lembrei que existia uma área mais deserta. Velhos galpões de minério e oficinas. A área tinha descaído com o final da exploração das jazidas do vulcão mais próximo.
     

    Achei que nossa infiltração seria rápida, como fiz no castelo de Juliani, mas percebi que tinha me enganado. Iríamos ter que agir com mais cuidado. Conseguir informações confiáveis.

    Vesúvia era um ninho de vespas, e se eu cutucasse algumas aleatoriamente, todo o enxame seria atraído. O que iria impedir nosso objetivo.
     

    Mudei de direção. Ao invés de caminhar na direção das luzes do Palácio, entramos numa rua escura e seguimos.
     

    Niana disparou adiante, sombra vermelha contra o escuro. Voltou minutos depois, voltando à forma humana só o suficiente para falar baixo, orelhas ainda erguidas.
     

    — Galpões antigos. Dois quarteirões para leste. Muitos abandonados. Pouca gente. Cheiro velho.
     

    Era melhor que nada.
     

    O caminho era lento. Cada esquina exigia pausa. Uma vez, uma patrulha passou tão perto que senti o cheiro de couro e óleo das armaduras. Um dos homens parou, cabeça inclinada, como se tivesse sentido algo. A armadura dele zumbiu baixo.
     

    Prendi a respiração. Claire reforçou a runa com um fio mínimo de suporte. O sol de mana absorveu o esforço, mas eu senti o puxão.
     

    O guarda seguiu em frente.
     

    Quando chegamos à zona dos galpões, o alívio foi curto. Prédios baixos, portas enferrujadas, telhados meio caídos. Área menos patrulhada, mas não vazia. Um ou outro escravo dormia nos cantos. Eram na maioria demi humanos, como Nix e Niana, velhos e gastos, usados ao ponto da quebra, quando se tornaram apenas despesa, foram descartados.
     

    Niana guiou até o fim de um beco sem saída.
     

    Reconheci aquele lugar. Era onde tinha aprendido um pouco sobre engenharia mágica. Uma das primeiras oficinas de Mestre Kas, a muito abandonada.

    A oficina velha, quase enterrada entre dois galpões maiores. A porta de metal escuro ainda trazia o emblema apagado da Casa Vulkaris. A fechadura era antiga, complexa, feita para reconhecer assinatura de mana da família.
     

    Eu me aproximei.
     

    O ritual de Drael tinha alterado meu corpo. Eu não era mais o Ganimedes de antes. Torci para funcionar.
     

    Coloquei a palma sobre a runa.
     

    A dor veio imediata, quente, como agulhas subindo pelo braço até o ombro. A assinatura antiga reconheceu o que eu fui, mas rejeitou o que me tornei. Mas funcionou.
     

    A runa piscou. Uma vez. Duas.
     

    A porta rangeu baixo e se abriu.
     

    Dentro, escuridão e poeira. Cheiro de metal frio, óleo seco e pedra velha. Mas por baixo, um pulsar fraco. Um poço de mana antigo ainda vivo no chão.
     

    Claire entrou atrás de mim, criando uma luz mínima, só o suficiente para não tropeçarmos.
     

    — Aqui pode servir — ela murmurou.
     

    Pandora já circulava o espaço, testando paredes, verificando saídas traseiras. Niana assumiu forma de raposa novamente e desapareceu por uma fresta no chão, explorando passagens.
     

    Eu fiquei no centro, mão ainda formigando da fechadura.
     

    Toquei uma bancada velha. Ferramentas enferrujadas. Um martelo que usei quando era supervisionado por Kas. Uma peça de cristal quebrada que eu girava nas mãos quando criança, sonhando em ter mana, em ser normal. Mal sabia o que aconteceria comigo.
     

    A cidade que me via como fraco agora me via como inimigo.
     

    E eu pretendia usar cada canto esquecido dela contra si mesma.
     

    Claire parou ao meu lado. Não disse nada. Apenas encostou o ombro no meu por um segundo, calor contra calor. Pandora grunhiu algo sobre barricadas. Niana voltou com um latido baixo, túneis embaixo, alguns ainda acessíveis.
     

    O poço de mana pulsou uma vez, como se respondesse à nossa presença.
     

    Eu respirei fundo, sentindo o peso de Vilka acima de nós. A disrupção manaclaste pairava no ar como uma névoa invisível. Patrulhas andavam. Kas provavelmente já sentia que algo estava errado em algum lugar.
     

    Mas aqui, por enquanto, tínhamos um buraco nas malhas.
     

    Um começo de sombra.
     

    — Amanhã exploramos de verdade — pensei, olhando para os rostos do grupo na penumbra. — Hoje garantimos um lugar antes do amanhecer.
     

    A oficina antiga pareceu concordar com seu silêncio pesado.
     

    E ainda estávamos apenas no começo.

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