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    Não sei se por conta do treino intensivo com minha mana, ou por outro motivo, mas naquela noite, ao adormecer, fui puxado novamente para meu inconsciente. Já estava me acostumando com essa sensação, mas, em vez de emergir em meu oceano de mana, me vi preso em outra memória de Mahteal.

    Estava em um campo vasto, envolto pela névoa. O miasma pulsava no meu corpo, percorrendo cada célula do meu ser. Era um poder imenso, muito além de qualquer coisa que eu já havia experimentado. A energia densa e opressiva da névoa me rodeava, quase como se tivesse uma consciência própria, mas, curiosamente, não me afetava. Ela não distorcia meus sentidos, nem me sufocava como fazia com os outros. Pelo contrário, parecia que existia uma trégua silenciosa entre nós, como se eu fosse uma anomalia.

    Ao meu redor, uma legião de mortos-vivos aguardava, imóveis, submetidos à minha vontade. A sensação de controle absoluto era assustadoramente natural, quase reconfortante.

    De repente, uma manifestação de mana irrompeu próxima a mim. Com um gesto, afastei a névoa, fazer isso era difícil e dispendioso, mas abri um espaço de cerca de cinco metros de diâmetro, o máximo que podia segurar. No centro dessa clareira, um portal azulado brilhou intensamente, suas bordas tremulando como chamas.

    Uma figura emergiu. Era uma maga de cabelos e olhos vermelhos, carregando um cajado imponente e trajando o clássico chapéu de feiticeira. Meu coração disparou. Mesmo com as marcas do tempo em seu rosto – rugas de preocupação e um semblante mais pesado – ela ainda era tão bela quanto em minhas lembranças.

    — Mahteal — disse ela, com uma voz carregada de saudade e tristeza.

    — Malena — respondi, sentindo uma onda avassaladora de emoção me envolver.

    Por um momento, o campo desapareceu. Restávamos apenas nós dois, um mar de sentimentos não ditos nos separando.

    — Que bom que pôde vir — ela continuou, a voz hesitante.

    — Temos nossas divergências — comecei, tentando encontrar as palavras certas —, mas nosso inimigo é o mesmo. Eu jamais deixaria de vir, ainda mais sabendo que você estaria aqui. Há tanto que eu gostaria de dizer, Malena.

    Ela desviou o olhar, como se estivesse debatendo algo internamente. Finalmente, respondeu:

    — Não sei se há muito a ser dito, Mahteal. Desde que você fez sua escolha, não sei quem, ou o quê está diante de mim.

    Suas palavras foram um golpe. Cocei a cabeça, envergonhado, tentando reunir forças para falar, mas algo se agitou dentro de mim. Uma raiva inesperada cresceu em meu peito, fria e cruel. Olhei para ela e, por um instante, imaginei-a como um cadáver animado, os olhos apagados, obedecendo cegamente às minhas ordens.

    E o mais assustador foi o quanto isso parecia… certo. Quase prazeroso.

    Lutando contra essa sensação, a imagem se dissipou tão rapidamente quanto surgira. Voltei a olhar para Malena, envergonhado e inquieto, mas ela parecia não ter percebido o conflito interno que acabara de me consumir.

    — Como estão as coisas do seu lado? — perguntei, forçando um tom mais casual do que realmente sentia.

    — Estão indo mal — respondeu Malena, soltando uma risada amarga. — A névoa tem avançado mais rápido do que conseguimos reagir. Por isso estamos aqui.

    — Sim, eu entendo. Estou aqui para ajudar você. Em nome dos velhos tempos. Ainda insisto que poderíamos combinar nossas pesquisas. Talvez achemos uma solução juntos.

    — Vamos nos concentrar no que estamos fazendo agora. Depois conversamos sobre isso.

    Concordei com um leve aceno, sem insistir. Enquanto falávamos, o portal voltou a brilhar e mais figuras surgiram. Discípulos de Malena, cada um carregando instrumentos arcanos forjados na Torre Mágica, o último reduto humano.

    Com um gesto, meus mortos-vivos avançaram e pegaram os instrumentos, obedecendo às minhas ordens mentais. Eles se dispersaram pela névoa, como eu, eles não eram afetados pela magia de desorientação, e, posicionaram os artefatos em lugares estratégicos. Meu olhar recaiu sobre um dos discípulos de Malena, e percebi, em seu núcleo de mana, um pequeno ponto de corrupção. Sorri levemente, mas não disse nada.

    Quando todos os artefatos estavam posicionados, olhei para Malena e assenti. Ela se posicionou ao centro, com seus discípulos ao redor, e começou a entoar um feitiço complexo. As palavras eram precisas, e cada nota de mana reverberava com força no ar.

    Os artefatos se iluminaram, conectados por linhas de mana que desenharam um círculo mágico de beleza impressionante. Era uma criação de precisão e arte, cada detalhe refletindo o talento de Malena. Ela me lançou um olhar significativo, e eu sabia o que precisava fazer.

    Respirei fundo e infundi miasma no feitiço, com extremo cuidado. Controlar aquela energia era como segurar uma fera enjaulada; perigosa, mas incrivelmente poderosa. Fiz questão de manter o equilíbrio, para não corromper ninguém ou o próprio feitiço. Queria provar a Malena que o miasma não era tão incontrolável quanto ela temia.

    As linhas de mana, agora mescladas com o miasma, entraram no solo, pulsando com intensidade crescente. O círculo brilhou ainda mais forte, e a névoa ao nosso redor começou a recuar. Aos poucos, o campo opressivo cedeu, revelando terra firme.

    Malena continuava entoando, sua força de vontade guiando o feitiço com precisão quase sobre-humana. Após um último esforço, uma explosão de mana dissipou o restante da névoa, deixando um espaço limpo e seguro ao nosso redor.

    Era um território pequeno, mas era um começo.

    — Conseguimos — disse ela, ofegante, um sorriso de alívio estampado no rosto.

    — Sim — respondi, um sorriso discreto nos lábios enquanto a observava. Não sabia dizer o que me dava mais satisfação: o sucesso da missão ou a visão de Malena sorrindo, com sua força e graça iluminando o momento.

    Ficamos ali por algum tempo, enquanto os discípulos de Malena montavam uma estrutura improvisada, algo semelhante a um gazebo. Equipado com cadeiras confortáveis e chá quente, o ambiente parecia absurdamente mundano, considerando o cenário hostil ao nosso redor. Sentados, lado a lado, eu e Malena conversávamos, mas havia algo na postura dela, uma tensão subjacente, uma insegurança em estar ali comigo.

    — E então, com essas mudanças, redefini todo o currículo mágico — ela concluiu, falando com a segurança de quem sabe a importância de sua decisão. — Não quero que algo como o que aconteceu com você se repita.

    Havia um peso em suas palavras. Como a líder da Torre, o último bastião de conhecimento humano, Malena tinha o poder de alterar leis e teorias mágicas à vontade.

    — Não acho que vai dar certo — respondi, avaliando suas intenções. — Sempre há quem encontre maneiras de contornar as limitações.

    — Não acredito ser possível — ela rebateu. — Me assegurei de tornar o estudo de magia algo fixo, imóvel. Sem outras referências, essa abordagem se tornará a única forma de aprendizado.

    Inclinei-me para frente, fixando meu olhar nela com intensidade. — Você já tem magos se corrompendo. Deixe-os comigo.

    Malena hesitou, seus olhos escarlates brilhando como brasas enquanto me estudava. — Eu sei. Vou pensar sobre isso. Mas o conhecimento do miasma não pode se espalhar.

    — Não se preocupe — garanti, a voz firme. — Não vou permitir. Além disso, eles já estão condenados. Nem eu descobri uma maneira de purificar um núcleo de mana corrompido. Se você os manter por perto, a corrupção só vai crescer.

    — É por isso que preciso eliminar qualquer possibilidade do miasma surgir nas terras humanas.

    As palavras dela carregavam uma determinação que ia além do mero pragmatismo, mas antes que eu pudesse responder, algo mudou.Percebi as bordas da lembrança começando a se desfazer, como se a realidade estivesse escorrendo entre meus dedos. A figura de Malena tremeluzia, perdendo definição, até que tudo ao meu redor não passava de sombras se dissipando em um vazio silencioso.

    Acordei abruptamente, o coração acelerado, para encontrar os olhos prateados de Selune e os dourados de Nix me observando atentamente. Desde o início dos treinos intensivos, Selune estava dormindo no meu quarto. Não havia se mudado definitivamente, como Nix havia proposto, mas ocupava uma cama auxiliar ao lado.

    — Você estava falando dormindo — comentou Nix, a voz suave, mas carregada de curiosidade. — Estava se mexendo muito e acabou nos acordando.

    — Você mencionou Malena — acrescentou Selune, com uma expressão intrigada. — Já ouviu falar da deusa da magia?

    As palavras dela me atingiram como um choque, mas consegui disfarçar a surpresa. Balancei a cabeça, forçando uma expressão confusa.

    — Deusa da magia? — repeti, tentando parecer genuinamente curioso. — Nunca ouvi esse nome antes.

    Selune estreitou os olhos, avaliando minha reação como se tentasse determinar se eu estava sendo sincero.

    — É uma divindade antiga, quase esquecida nos dias de hoje. Dizem que os poucos que ainda a veneram a chamam de “A Senhora do Véu”. — Ela pegou o cachimbo, que repousava na mesa ao lado, e o acendeu com um gesto casual. A fumaça prateada que soltou parecia dançar no ar, como se carregasse um peso místico. — Não é comum ouvir esse nome em sonhos.

    Nix olhou de Selune para mim, suas orelhas de raposa se movendo levemente, como se acompanhassem o fluxo de nossos pensamentos.

    — Talvez seja só coincidência, não? Ele tem sonhado com muita coisa estranha ultimamente. — Sua tentativa de aliviar o clima era evidente, mas a preocupação em sua voz não passou despercebida.

    Desviei o olhar, sentindo o peso daquele momento. Não queria contar a elas sobre Mahteal ou os fragmentos de memórias e emoções que ele deixava em minha mente.

    — Deve ser isso. — Dei de ombros, tentando encerrar o assunto. — Meus sonhos têm sido um caos por causa do cansaço. Acho que meu corpo está apenas exausto.

    Selune não pareceu convencida, mas Nix sorriu, aparentemente satisfeita com a explicação.

    — Talvez você precise de um chá para ajudar a relaxar. Vou preparar algo. — Ela se levantou com a graciosidade natural de sua espécie e saiu do quarto antes que eu pudesse responder.

    Selune permaneceu em silêncio, mas seus olhos fixos em mim carregavam uma intensidade que parecia atravessar minha máscara de indiferença.

    — Não sei o que você está escondendo, Lior — disse ela, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz era calma, mas firme, com uma nota de advertência. — Mas sonhos podem ser mais do que simples reflexos do subconsciente, ainda mais em você, que carrega outra consciência se escondendo em seu oceano de mana.

    Ela se levantou, apagando o cachimbo com um movimento rápido, e começou a ajustar os cobertores de sua cama.

    — Se precisar de ajuda, ou se algo pior acontecer, você sabe onde me encontrar. Assenti, mas não disse nada. Quando Nix retornou com o chá, o clima no quarto já havia se tornado mais leve, mas as palavras de Selune ainda pairavam na minha mente como uma sombra inquietante.

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