Antes que Frank pudesse se recuperar, o rei desceu o pé direito como uma marreta, esmagando-o contra o chão.

    O impacto explodiu em um estrondo ensurdecedor, fazendo o asfalto rachar e afundar, abrindo um buraco profundo sob o corpo dele.

    A poeira subiu em uma nuvem densa, engolindo tudo ao redor.

    por um instante. Então… lentamente… começou a baixar.

    Revelando Frank.

    Caído no fundo da cratera.

    Imóvel.

    — Interessante, garoto… Você está na fúria da determinação… E ainda consciente. — A voz de Frank soou rouca, quase reverente, enquanto seus olhos sem brilho se estreitavam, famintos. — Já lutei contra inúmeros guerreiros. Sempre que algum deles mergulhava nesse estado, a força explodia… não sentiam dor alguma enquanto eu os despedaçava. — Um sorriso largo, animalesco, rasgou o rosto costurado. — E nem havia consciência… apenas uma fúria cega, podre de tão vazia.

    Ele inclinou a cabeça, como se estivesse admirando uma obra de arte rara. — Mas você… você é diferente.

    Uma risada baixa e empolgada tremeu em seu peito, ecoando na rua silenciosa. 

    E então, como um cadáver que se recusa a morrer, Frank começou a se erguer devagar, rangendo ossos costurados, o corpo coberto de poeira, os olhos faiscando excitação.

    O zumbi avançou num salto brutal, desferindo um chute com o calcanhar contra o lado direito da cabeça do rei. 

    Num reflexo frio, Sebastião saltou para trás, escapando por um triz.

    O calcanhar colidiu com o chão com a fúria de um meteoro, abrindo uma cratera e espalhando teias de rachaduras que fizeram o solo inteiro estremecer.

    Frank apoiou a sola do pé na beirada da cratera, pegou impulso e disparou, a mão aberta vindo como uma pinça assassina em direção ao rosto do rei.

    Antes que pudesse alcançá-lo, as pernas de Sebastião se ergueram com velocidade impossível, enroscando-se no pescoço do homem costurado.

    Num único movimento seco, ele torceu o tronco e cravou a cabeça de Frank contra o concreto, produzindo um baque surdo que ecoou pelos prédios ao redor.

    Sebastião pousou um passo atrás, o peito subindo e descendo, enquanto escutava a risada rouca e satisfeita do zumbi.

    Porém, antes que pudesse recuar, seus olhos se arregalaram. 

    A mão enorme de Frank surgiu do pó e agarrou seu pescoço com força esmagadora.

    O homem costurado se ergueu lentamente, levantando o rei do chão como se ele não passasse de um boneco de pano.

    — Já que você tá ficando mais forte nesse estado… — Disse Frank, cuspindo um dente e deixando o sorriso se abrir num rasgo sádico — acho que posso me soltar um pouco mais.

    Com a mão esquerda, ele preparou um soco que parecia conter todo o peso de um prédio desabando. 

    O punho avançou como um trem desgovernado, acertando Sebastião com força monstruosa.

    O rei ergueu os antebraços em cruz na frente do rosto, mas mesmo assim foi lançado pelos ares como um projétil, atravessando a fachada do terceiro andar de um prédio em construção.

    O impacto retumbou como um trovão. 

    Sebastião sentiu as costas se chocarem contra uma das vigas principais, o baque reverberando pelo esqueleto do prédio. As estruturas acima tremeram, pedaços de concreto e vergalhões começaram a despencar ao redor.

    Lá embaixo, Frank inclinou o pescoço e observou com curiosidade o hematoma crescendo no próprio peito. Passou os dedos pela mancha arroxeada e riu baixo.

    — Esse garoto é interessante… — Murmurou, erguendo o olhar para o buraco escancarado no prédio — Ele conseguiu redirecionar parte do impacto do meu soco para o meu peito… e ainda teve fôlego pra me atingir antes de voar.

    Seus dentes se abriram num sorriso faminto.

    — Ele realmente é… delicioso.

    De repente, o zumbi sorriu, sentindo algo se aproximar com uma velocidade impressionante.

    Sebastião vinha como um raio — rápido e letal. No instante seguinte, seu corpo surgiu à frente de Frank. O zumbi ergueu o braço, confiante de que receberia o golpe sem dificuldade.

    Mas antes que o chute frontal pudesse acertar o peito costurado, o pé do rei subiu num arco repentino, encontrando o queixo do monstro com força brutal. O estalo seco ecoou na rua silenciosa, e um jorro de sangue escapou pelos lábios costurados.

    Sem hesitar, com os olhos emanando uma luz branca intensa, Sebastião avançou mais, como se a própria dor não existisse.

    Então, desabou sobre Frank uma tempestade de golpes: joelhadas certeiras contra as costelas, chutes frontais que comprimiam seu tórax, ataques circulares que buscavam seu pescoço, golpes ascendentes que erguiam seu queixo, e pancadas de cima para baixo que retumbavam como marretadas.

    Cada impacto reverberava pelo concreto, rachando o chão ao redor e lançando fragmentos de pedra no ar. 

    A expressão vazia de Frank se contorceu num sorriso transtornado, enquanto seu corpo monstruoso era sacudido pela fúria do rei.

    Um chute violento veio em direção ao queixo costurado, mas Frank reagiu com uma precisão brutal. Ele agarrou o tornozelo do rei no ar e, com um movimento seco, arremessou-o contra o chão.

    O impacto foi tão forte que o jovem cuspiu um jorro de sangue, seus olhos se revirando por um instante.

    Sem dar espaço para respirar, Frank ergueu a perna e desceu o calcanhar com todo o peso bem no lado direito do peito de Sebastião, esmagando suas costelas e afundando-o ainda mais na terra quebrada.

    Num esforço desesperado, o rei girou o corpo em uma cambalhota para trás, tentando se afastar. Mas antes que pudesse retomar o fôlego, o pé de Frank avançou como uma marreta, acertando seu abdômen com força suficiente para jogá-lo de joelhos.

    Os pulmões de Sebastião se fecharam num espasmo de dor, e ele não teve tempo nem de levantar o rosto antes de sentir outro impacto. Frank desferiu um chute lateral que atingiu suas costelas já trincadas, o som seco do golpe ecoando como um trovão no silêncio da rua.

    O corpo do rei voou pelo asfalto, rolando sem controle, até se chocar contra a parede de um prédio. O concreto se estilhaçou ao redor dele, teias de rachaduras se espalhando pela estrutura.

    Sebastião permaneceu ali por um instante, respirando com dificuldade, o gosto de sangue enchendo sua boca enquanto sentia cada batida do coração ameaçar romper seu peito.

    O brilho nos olhos do jovem rei começou a se apagar lentamente, enquanto suas pálpebras se fechavam. 

    Ele soltou um suspiro pesado, tomado por pensamentos de derrota e exaustão.

    Mas no instante em que seus olhos se abriram novamente, tudo aconteceu de uma vez. 

    Frank avançava sobre ele como um trem desgovernado, o punho gigante vindo em sua direção.

    O impacto foi um trovão.

    O soco devastador atingiu seu rosto, mas num lampejo de instinto, Sebastião rolou para o lado. O golpe atravessou a parede do prédio atrás dele, rasgando o concreto como papel. 

    A estrutura gemeu, tremendo inteira, antes de começar a ruir.

    Com a mão apoiada no chão quebrado, o rei girou o quadril e desferiu um chute certeiro contra as costelas de Frank. 

    O baque seco ecoou na rua silenciosa, e por um segundo, o costurado foi empurrado alguns passos na direção do edifício em colapso.

    O coração de Sebastião pulsava com uma violência quase dolorosa. Seus pulmões queimavam por ar, enquanto ele se afastava cambaleando.

    Então, com um estrondo surdo, um enorme bloco de concreto despencou sobre Frank, engolindo o zumbi em uma nuvem densa de poeira e destroços. 

    Em seguida, o restante do prédio desabou num rugido de pedra e ferro retorcido, soterrando tudo.

    O peito de Sebastião arfava, cada respiração queimando como brasa. 

    Ele tentou manter os olhos firmes no monstro que surgia de dentro dos escombros, mas sentiu um arrepio percorrer a espinha quando notou.

    Frank caminhava.

    A silhueta dele surgia entre o pó, gigantesca, a costura rasgada nos braços e o peito repleto de cortes. Mas o pior não era isso — era o sorriso. Um sorriso largo, úmido, e o volume repulsivo que começava a crescer entre as pernas.

    Frank parou a poucos metros, inclinou o pescoço e passou a língua pelos lábios rachados. O olhar dele reluzia um brilho faminto, sujo, que fez o estômago de Sebastião se revolver.

    — Você… — Murmurou Frank, com a voz rouca e molhada de prazer — …me deixa tão… excitado…

    O rei cerrou os dentes, dando um passo para trás. Sentiu o calcanhar encontrar entulho, quase perdeu o equilíbrio.

    O costurado não se importou. Um músculo pulsou no meio das pernas dele, latejando, e o sorriso se abriu ainda mais.

    — Diz pra mim, garoto… — Ele ergueu uma das mãos, aproximando os dedos nodosos como se fosse acariciar — …por que não usa as mãos?

    Sebastião respirou fundo. Um calor subiu pela garganta, misturado de nojo e fúria. 

    Ele cravou os pés no chão, endireitando a postura. As pupilas brilharam com aquela luz branca intensa, pura determinação.

    — Porque eu sou um homem de verdade. — Sua voz soou grave, firme, cortando o ar pesado. — E um homem… só deve usar as mãos pra cuidar daqueles que ama.

    O silêncio caiu como uma lâmina.

    Frank sorriu. O peito dele arfou, um som de prazer abjeto escapou de sua garganta.

    E então ele avançou, o corpo monstruoso carregado de luxúria e violência.

    Num piscar, a mão gigantesca atravessou a distância, agarrando o rosto de Sebastião com força esmagadora. 

    O jovem rei sentiu a pressão cravar em seu crânio, o polegar do zumbi se enterrando no canto do olho.

    O grito rasgou sua garganta quando Frank o ergueu do chão como se fosse uma criança.

    — HAHAHA! TÁ VENDO? VOCÊ É FRÁGIL… — Frank disse, cuspindo saliva enquanto apertava mais, forçando o pescoço de Sebastião a estalar. — MAS MESMO ASSIM… VOCÊ ME EXCITA.

    Ele o arremessou contra uma parede que cedeu com o impacto. Antes que a poeira baixasse, Frank estava sobre ele, cravando um chute brutal no abdômen. O ar saiu dos pulmões de Sebastião num soluço rouco.

    Outro chute — desta vez na costela. O estalo seco indicou que algo quebrou. O corpo do rei rolou pela rua como um boneco largado.

    Frank caminhou atrás, ofegante, o sorriso monstruoso nunca desaparecendo.

    — VAI DESISTIR AGORA, GAROTO? NÃO PERCA A DETERMINAÇÃO, CONTINUE NESSE ESTADO. — O tom era quase de ternura doentia. — ME DE PRAZER, ME FAÇA GOZAR, ENQUANTO EU TE QUEBRO ATÉ RESTA SO SEU SANGUE NO CHAO.

    Sebastião tossiu, um filete de sangue escorrendo pelo queixo. O corpo tremia. Cada respiração vinha em golfadas curtas, doídas.

    Ele tentou se apoiar no cotovelo, o antebraço falhando.

    Por um instante, seus olhos se perderam — quase apagando. Mas então, em algum ponto da memória, ele viu o sorriso da esposa. O riso da filha. O olhar orgulhoso de seu mestre.

    E um brilho voltou a acender nas pupilas já embaçadas.

    Com um rosnado profundo, ele fincou os punhos no chão, tremendo. A voz saiu rouca, partida em sílabas:

    — Eu… eu não vou… perder… pra um lunático… como você…

    Mesmo enquanto o peito arfava, e uma dor lancinante queimava cada osso, Sebastião forçou o corpo a erguer-se. As pernas balançavam, a visão escurecia nas bordas. Mas ele ficou de pé.

    Frank inclinou a cabeça, observando com fascínio predador.

    — Isso… — Ele sussurrou, sorrindo com aquela fome abjeta. — Isso é bonito de ver.

    Sebastião, respirando como um animal encurralado, ergueu o olhar. Os olhos, outra vez, começaram a brilhar.

    — Eu… vou… te fazer… cair… — Disse, cuspindo sangue ao chão. — Nem que seja… a última coisa… que eu faça.

    — Esse é o espírito, garoto… — Frank abriu um sorriso que rasgou o rosto costurado, as pupilas dilatadas. — Sua determinação tá quase me fazendo gozar…

    Num estalo, Sebastião avançou. O chão rachou sob seus pés.

    O primeiro chute veio de baixo para cima, acertando o queixo de Frank com força tão brutal que fez o pescoço estalar. 

    Antes que ele terminasse de erguer a cabeça, uma joelhada se cravou em seu abdômen, afundando o tórax do zumbi e cuspindo um jorro de sangue negro.

    Frank deu um passo cambaleante para trás, rindo, mas Sebastião não parou.

    Outro chute lateral explodiu contra sua costela. 

    O baque soou como uma tora quebrando. 

    Em seguida, uma sequência de chutes frontais atingiu seu peito e seu rosto, cada impacto arrancando respingos de sangue e costuras se desfazendo.

    — ISSO! — Frank bradou, com um brilho enlouquecido nos olhos. — ISSO É BOM DEMAIS!

    Sebastião se lançou num giro violento, o calcanhar traçando um arco que atingiu o lado esquerdo da mandíbula de Frank com força descomunal. Um estalo seco ecoou pela rua.

    — AAAAARRRGH! — Ele rugiu, cravando o joelho no esterno do monstro com fúria, o peito arfando, o corpo tomado pela fúria da determinação.

    Por um instante, Frank não se moveu. O sorriso parecia congelado no rosto. Então, devagar, ele ergueu os olhos — e riu.

    — Está… conseguindo… se igualar… — Murmurou, cuspindo sangue sobre o peito nu. — A um pouco da força que eu estou usando… — O olhar dele se incendiou. — Que brinquedo interessante… Está no nível… de um rei da geração dos prodígios…

    As pupilas de Sebastião tremeram. O corpo ainda pulsava com aquela energia violenta, mas o zumbi ergueu a mão esquerda, devagar, e cravou o punho fechado no abdômen dele com força tão abissal que o som pareceu um trovão.

    O ar saiu inteiro dos pulmões de Sebastião. O brilho nos olhos vacilou.

    Frank não parou. O segundo soco atingiu o lado esquerdo das costelas, rachando tudo num estalo surdo. O terceiro veio como uma marreta no peito, lançando o jovem para trás.

    — NÃO VAI DESAPONTAR, VAI?! — Frank gritou, avançando enquanto os punhos martelavam o corpo de Sebastião como pilões monstruosos. — VAMOS! MOSTRE MAIS!

    Sebastião tentou reagir. Um chute foi desferido, mas a força da fúria da determinação começou a vacilar, drenada a cada impacto.

    O punho de Frank acertou o lado da cabeça dele, fazendo sua visão ficar branca. O coração disparou tão rápido que parecia explodir dentro do peito.

    Num último esforço, Sebastião ergueu o joelho em direção ao queixo de Frank — mas o golpe perdeu força no meio do caminho.

    O corpo dele vacilou. O coração, acelerado demais, pareceu congelar num espasmo de dor.

    Frank segurou o pescoço dele e ergueu do chão, contemplando o olhar esmaecido que antes brilhava em desafio.

    — Ah… — O zumbi suspirou, sorrindo com delírio. — Finalmente… você saiu desse estado. 

    Sebastião tentou inspirar, mas o ar não vinha. A dor agora era um oceano negro, tão vasto que engolia tudo.

    — Que pena… — Frank disse, a voz quase carinhosa enquanto os dedos apertavam mais seu pescoço. — Eu estava me divertindo tanto…

    — Eu… preciso… sobreviver… Mas… e meus ideais…? — Pensou Sebastião, a respiração entrecortada enquanto o sangue escorria pelo canto da boca. Seus olhos se turvaram. — Vale a pena… morrer por eles…?

    A consciência parecia se esvaziar, como se cada batida do coração drenasse um pedaço do que ele era. Tudo ficava distante. A dor, os gritos, o peso esmagador daquela presença monstruosa… tudo se dissolvia numa penumbra silenciosa.

    A voz do mestre surgiu como um eco calmo em sua mente, enquanto o vento quente do Ceará soprava por entre as vielas de uma favela, em um bairro esquecido de Fortaleza.

    O mestre estava sentado sobre uma pilha de corpos de traficantes mortos, como se aquilo fosse a coisa mais banal do mundo. 

    No colo, equilibrava uma caixa de chocolates de frutos do mar, que desembrulhava com a mesma tranquilidade de quem abre um presente.

    — Mestre… — Perguntou Sebastião, ainda garoto, o rosto coberto de suor e fuligem. — Se um dia… eu lutar contra alguém forte… tão forte quanto o senhor… seria certo… eu abandonar meus ideais só pra sair vivo? Isso seria honroso?

    Enquanto falava, ele desviava dos tiros disparados por traficantes remanescentes, abaixando o corpo com agilidade e avançando pelos becos, esperando ansioso pela resposta.

    O homem permaneceu em silêncio por um instante, saboreando o chocolate entre os dedos. 

    Então ergueu o olhar felino para seu pupilo, que acabara de nocautear o último inimigo com um chute seco.

    — Um guerreiro honrado… — Disse o mestre, a voz tranquila, quase serena. — Sabe quando é a hora de manter os princípios… e quando é a hora de abandoná-los pra voltar pra casa.

    O garoto franziu a testa, confuso, respirando com dificuldade.

    — Então… o senhor acha que eu devo fugir?

    — Não se trata de fugir, Sebastião. — O mestre pegou um chocolate em formato de concha e estendeu para ele. O menino segurou o doce com cuidado, como se fosse algo sagrado. — Se um dia, na tua jornada, você encontrar um obstáculo tão grande que não consiga vencer com os seus princípios… você deve superar a si mesmo.

    O vento soprou, levantando poeira e cheiro de pólvora.

    — Se for preciso usar as mãos, use. Mas tente manter tua essência. Absorva o impacto… devolva o dano… sobreviva, garoto. — Os olhos dele brilharam, cheios de um orgulho silencioso. — Se você tiver a determinação e a resiliência pra encarar esse obstáculo… não importa o resultado da luta. Não importa se você cair ou vencer. Se você sair vivo… você já terá sido vitorioso. Porque terá superado a si mesmo.

    — Por respeito a você… e àquele Deus delicioso… eu vou levar somente um de seus braços. — Disse Frank, antes de arremessar o garoto contra a parede, trazendo-o de volta à realidade.

    O jovem bateu as costas com um estalo seco e caiu de joelhos, a cabeça pendendo para frente. 

    Sangue escorria da testa e do nariz, manchando o chão. 

    Ele não conseguia se mover. 

    Seus ouvidos captavam apenas o som dos passos pesados e lentos do zumbi, que ecoavam como marteladas em seu peito.

    Seu coração batia fraco, a respiração tornava-se rasa.

    De repente, ele sentiu a aura de Frank crescendo, ocupando o ar, tornado-o denso como fumaça. Com o olhar turvo, ergueu-se o rosto. E tudo se apagou.

    Na sua frente, não estava mais Frank. 

    Erguia-se uma torre cinzenta, imensa, com rachaduras profundas como cicatrizes.

    Você consegue, papai…

    Não importa o que aconteça… volte para mim… meu amor…

    O coração do jovem pulsou, mais firme. 

    Suas mãos tremeram ao tocar o chão. 

    Ele começou a se erguer, cada músculo protestando como se fosse rasgar, seus ossos rangeram num som que lembrava galhos secos quebrando. 

    Mordeu os lábios até sentir o gosto metálico do sangue, tentando conter a dor que ameaçava fazê-lo ceder.

    Mas seus movimentos pareciam acorrentados. 

    Correntes verdes brilhantes prendiam seus braços e pernas, apertando-o com força cruel. Ele respirou fundo, reuniu a última fagulha de força, tentando dar um passo. 

    As correntes se apertaram ainda mais, rasgando sua carne em chamas invisíveis.

    Mais um passo… só mais um…

    Num estalo quase divino, as correntes se partiram. O som reverberou por dentro de seu peito como o bater de um sino sagrado.

    O rei fechou os olhos, respirando com dificuldade. Ao abri-los, Frank já estava diante dele — empolgado, surpreso, com o sorriso demente que parecia crescer a cada instante.

    As veias do pescoço e da face do jovem começaram a se inflar, pulsando com uma luz verde fluorescente. De seu corpo, uma aura elétrica, vibrante, irrompia como um incêndio.

    Sebastião sorriu. Calmamente, ergueu a mão até o bolso, retirou um batom de chocolate amassado do bolso e o jogou na boca, mastigando como se nada mais existisse além daquele sabor.

    Atrás dele, uma imensa silhueta tomava forma — o contorno de um dragão verde colossal, mas não era só ele: havia uma figura de um homem ajoelhado, segurando a cauda do monstro 

    — Eu… vou voltar… para minha família.

    — Que interessante… — Disse Frank, com uma fascinação doentia nos olhos costurados. Seu sorriso se abriu, largo, quase orgulhoso. — Parece que você… finalmente superou a si mesmo… e começou a sua Escalada.

    A voz dele saiu rouca, quase reverente.

    — Eu consigo ver a marca das correntes… gravadas no seu pescoço como cicatrizes de quem se recusa a desistir. — Ele inclinou a cabeça, deixando escapar uma risada grave que ecoou pela rua destruída. — Então… venha.

    Os olhos de Frank brilharam como os de uma fera faminta.

    — Deixe-me ser a montanha da sua jornada, garoto. Quero ver até onde você consegue subir antes que eu quebre cada osso do seu corpo.

    E ele riu, com um entusiasmo tão genuíno que parecia misturar respeito e a excitação sádica de quem vive apenas para esmagar esperanças.

    Continua.

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