O impacto foi uma nota dissonante que estilhaçou o silêncio falso da rodovia, reverberando como um eco fúnebre que parecia anunciar o colapso definitivo daquele cenário já condenado. O som não foi apenas ouvido, mas sentido, vibrando através do ar carregado e percorrendo as superfícies metálicas ao redor como uma onda invisível de ruptura. Rover cambaleou, os pés arrastando-se pelo asfalto em uma dança desordenada e instável, incapaz de sustentar por completo o próprio eixo após a descarga massiva de energia que havia liberado. A técnica brutal, executada no limiar entre o instinto e o descontrole absoluto, cobrava agora um preço inevitável em equilíbrio, coordenação e clareza mental. Seus músculos ainda tremulavam com resíduos da força aplicada, e pequenas fissuras serpenteavam pelo solo sob seus pés, denunciando o excesso de pressão exercida sobre a estrutura da rodovia. Os tremores que antes convulsionavam a terra cessaram de forma abrupta, como se o mundo tivesse prendido a respiração, deixando para trás uma atmosfera morta, estática e opressiva, saturada pelo cheiro denso de ozônio, combustível queimado e poeira suspensa que raspava os pulmões a cada tentativa de inspirar.

    Eleonor surgiu da névoa como um fragmento arremessado por uma explosão, o corpo projetado pela violência do próprio confronto e ainda carregando a inércia destrutiva do impacto anterior. Sua silhueta atravessou o ar por um breve instante antes de colidir contra o solo com brutalidade, mas não houve o estalo seco de ossos se partindo ou o colapso esperado de sua estrutura física. Com um reflexo moldado por anos de combate e pelo instinto afiado pela sobrevivência, as faixas metálicas da Dança das Navalhas serpentearam sob seu corpo no último instante, formando uma base vibratória que absorveu parte significativa da energia cinética do impacto. Ainda assim, a proteção não foi absoluta; a pele exposta foi raspada de forma impiedosa contra o asfalto áspero, abrindo sulcos irregulares que imediatamente se preencheram com sangue, deixando para trás um rastro vivo, quente e pulsante que contrastava de forma quase artística com o cinza morto da rodovia destruída.

    Distante dali, Indjaya jazia imóvel, abandonada como uma marionete quebrada cujo fio havia sido abruptamente cortado. O impacto da técnica de Rover a havia lançado a dezenas de metros, arrancando-a completamente do fluxo do combate e mergulhando-a em um estado profundo de inconsciência. Seu corpo, antes envolto pelo brilho azulado intenso que simbolizava seu poder, agora apresentava um fenômeno grotesco e perturbador: a pigmentação começava a escorrer lentamente, como tinta diluída sendo lavada por uma chuva invisível, revelando por baixo a pele parda original, parcialmente marcada pelo combate. Era como assistir uma máscara sendo dissolvida camada por camada, expondo não apenas a carne, mas a fragilidade oculta sob o espetáculo de poder.

    Eleonor ergueu-se com um movimento lento, controlado e quase ritualístico, como se cada parte de seu corpo estivesse sendo recalibrada após o impacto. Seus músculos responderam com precisão absoluta, alinhando postura, equilíbrio e intenção em uma única ação fluida. Seus olhos varreram o horizonte em busca da irmã, mas a visibilidade era praticamente inexistente, engolida pela poeira densa e pela distorção térmica do ambiente. A incerteza surgiu em sua mente como uma lâmina breve e afiada, ameaçando romper sua concentração, mas foi imediatamente suprimida com frieza cirúrgica. Não havia espaço para dúvidas, não naquele campo de batalha onde hesitar significava morrer.

    Uma aura púrpura, densa, vibrante e quase doentia, começou a envolver seu corpo, pulsando como um organismo vivo que respirava junto com ela. As feridas abertas ao longo de sua pele começaram a se fechar em questão de segundos, os tecidos se reorganizando em uma coreografia grotesca e precisa, fibras musculares se recompondo, pele se selando, sangue sendo reabsorvido como se nunca tivesse sido derramado. Em poucos instantes, seus braços estavam novamente intactos, firmes, livres de qualquer limitação, prontos para continuar o massacre com a mesma eficiência de antes.

    Ela iniciou sua marcha com passos firmes e constantes, cada pisada carregando um peso silencioso que parecia pressionar o próprio ambiente ao redor. Ao seu redor, onze faixas metálicas ergueram-se no ar, flutuando com uma precisão antinatural, reagindo a impulsos mínimos de sua vontade como se fossem extensões diretas de seu sistema nervoso. Elas ondulavam lentamente, refletindo a luz difusa de maneira opaca, quase absorvendo o brilho ao invés de devolvê-lo. Com um gesto seco e desprovido de hesitação, Eleonor arrancou o colete tático e o rádio de seu corpo, descartando-os como restos inúteis já deformados pela violência do combate, deixando claro que não havia mais necessidade de comunicação ou estratégia convencional naquele estágio do confronto.

    Do outro lado, Rover observava através da névoa com atenção absoluta, sua visão ainda funcional apesar do desgaste evidente que começava a comprometer seu estado geral. A confiança que antes sustentava sua postura começava a apresentar fissuras quase imperceptíveis, dando lugar a uma inquietação fria que rastejava lentamente por sua espinha. Ele controlou a respiração com esforço consciente, analisando o cenário com frieza e objetividade, transformando o caos ao redor em variáveis úteis: veículos destruídos, pontos de cobertura improvisados, ângulos de ataque, possibilidades de fuga. O medo não o paralisava — ele o refinava, forçando sua mente a operar em um nível ainda mais estratégico.

    Enquanto isso, Eleonor desacelerou por um breve instante, sua atenção sendo capturada por um som que destoava de tudo ao redor. Entre o silêncio irregular do pós-explosão, um ruído oco, insistente e desesperado ecoava, como metal sendo forçado de dentro para fora, um ritmo falho que lembrava um coração prestes a parar. Era Bruno.

    Preso entre as carcaças retorcidas, seu corpo era uma afronta à lógica da sobrevivência. Mutilado, esmagado, ensanguentado em níveis absurdos, e ainda assim… vivo. Respirando com dificuldade, se debatendo contra a própria prisão metálica com uma persistência que beirava o impossível. O sangue acumulava-se sob ele em camadas espessas, escorrendo lentamente pelas irregularidades do asfalto e das ferragens, enquanto sua respiração irregular produzia sons úmidos e falhos.

    A expressão de Eleonor não mudou, mas seu foco foi completamente redirecionado. Aproximou-se com cautela calculada, observando aquela resistência quase antinatural enquanto estendia a mão e pressionava a lataria que o prendia. O metal começou a ceder lentamente sob sua força, rangendo de maneira grave, deformando-se centímetro por centímetro — Mas seus instintos explodiram em alerta.

    Um veículo foi arremessado diretamente em sua direção, rasgando o ar com velocidade destrutiva e uma trajetória imprevisível. Ela reagiu no mesmo instante, suas faixas metálicas avançando como lâminas vivas que cortaram o carro ao meio com precisão cirúrgica. O golpe atingiu o tanque de combustível, e a explosão que se seguiu se expandiu violentamente, espalhando fogo, estilhaços e uma onda de choque que fez o ar vibrar ao redor como uma superfície líquida em colapso.

    Atrás dela, Bruno foi prensado novamente contra o metal, e o som que escapou de sua garganta mal podia ser considerado humano. O sangue jorrava em fluxos espessos, sua pele perdendo cor rapidamente, adquirindo um tom pálido e acinzentado que denunciava o colapso iminente de seu corpo.

    Eleonor virou-se novamente para ele, mas não teve tempo de agir com precisão. Mais três veículos foram lançados em sua direção, obrigando-a a abandonar qualquer abordagem gradual. Ela fincou suas faixas metálicas no chão como âncoras, cravando-as com força suficiente para estabilizar seu corpo contra o impacto do ambiente, e no mesmo fluxo impulsionou-se para frente, agarrando Bruno pelo braço restante. O ato de arrancá-lo dos destroços foi brutal, ignorando completamente a resistência do metal e o estado da carne presa às ferragens, resultando em um movimento violento que libertou seu corpo à força.

    Girando no ar para evitar os impactos sucessivos ao redor, ela desviou por centímetros das colisões que destruíam tudo em sequência, até finalmente pousar atrás de uma caminhonete completamente destruída, utilizando-a como cobertura improvisada contra a linha de ataque. Depositou Bruno no asfalto com rapidez, afastando-o momentaneamente do perigo imediato, sem palavras, sem hesitação, como se aquela ação fosse apenas mais uma variável resolvida dentro de um cenário muito maior.

    Seu corpo cortou o campo de batalha com velocidade extrema, atravessando poeira, calor e destroços como um projétil vivo, movida por um único objetivo claro e inegociável: alcançar Indjaya antes que fosse tarde demais e retomar o controle absoluto do confronto contra Rover, que ainda permanecia de pé no epicentro de toda aquela destruição.

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