Capítulo 10
— Aí, tu é a próxima. — Rover estava posicionado a algumas dezenas de metros acima, sobre uma pilha instável de escombros que favorecia sua aparição repentina, como se tivesse emergido diretamente do caos ao redor. Sua presença, no entanto, contrastava com a ameaça eminente que carregava, não pela ausência de perigo, mas pela forma controlada com que se impunha no cenário. Uma energia prateada envolvia seu corpo, fluindo de maneira contínua e densa, aderindo à sua silhueta como uma segunda pele e emitindo um brilho frio que destacava sua figura em meio à destruição, reforçando silenciosamente a intenção por trás de suas palavras.
— Você fala demais. — retrucou Eleonor, a voz saindo baixa, firme e carregada de desdém, enquanto permanecia posicionada à frente do corpo desacordado de Indjaya, assumindo de forma instintiva uma postura protetora que deixava claro que qualquer aproximação seria respondida com violência imediata. Suas faixas metálicas orbitavam ao redor do corpo em movimentos lentos e controlados, como predadores à espera do momento exato para atacar, refletindo a luz difusa do ambiente de forma opaca, quase absorvendo o brilho ao invés de devolvê-lo, enquanto seus olhos permaneciam cravados em Rover com uma intensidade fria e calculada.
Ela não avançou naquele instante, mas também não recuou; sua presença era estática apenas na aparência, pois cada músculo permanecia preparado para reagir ao menor sinal de movimento. O ar ao redor parecia mais denso, como se a própria tensão entre os dois comprimisse o espaço, transformando o silêncio momentâneo em algo pesado, quase palpável.
— Podia estar comendo caracóis nojentos na merda do seu país agora, mas veio encher o saco, né? — acrescentou em seguida, inclinando levemente a cabeça, deixando escapar um tom sutilmente cômico que contrastava de forma perturbadora com o cenário de destruição ao redor. Não havia leveza real em suas palavras, apenas uma provocação afiada, medida com precisão para atingir mais do que apenas o orgulho de Rover.
Mesmo diante da ironia, sua postura não se alterou. As faixas metálicas reagiram de forma quase imperceptível, ajustando suas posições ao redor do corpo como se antecipassem um ataque iminente, enquanto sua atenção permanecia dividida entre o inimigo à frente e a condição frágil da irmã às suas costas. Aquela não era apenas uma troca de palavras — era um teste silencioso de intenção, um breve intervalo antes da próxima explosão de violência que inevitavelmente consumiria o campo de batalha mais uma vez.
— Seu nome é brasileiro e tu serve a Itália, te pagam em pizzas de banana? — devolveu Rover, o deboche escorrendo em um tom doentio que carregava mais veneno do que humor, enquanto seus lábios se curvavam em um sorriso torto, quase desafiador, como se provocá-la fosse tão importante quanto vencê-la.
Ao mesmo tempo, ele elevou o palmo destro aberto na direção de Eleonor e do corpo desacordado de Indjaya, o gesto aparentemente simples carregando uma intenção clara e perigosa. O ar ao redor de sua mão começou a se distorcer de forma sutil, ondulações quase imperceptíveis surgindo como miragens térmicas que denunciavam o acúmulo de energia prestes a ser liberada.
Seus olhos permaneciam fixos em Eleonor, atentos a qualquer micro-reação, analisando não apenas sua postura, mas também o posicionamento das faixas metálicas que a cercavam e a distância exata entre ela e a irmã. Não havia descuido naquele movimento — cada detalhe era calculado, cada segundo esticado ao limite enquanto ele media o momento ideal para agir.
— Uau, então parece que os franceses são realmente inteligentes. — ditou Eleonor, deixando a ironia escapar em um tom frio e cortante, carregado de um sarcasmo quase elegante que contrastava com a brutalidade do cenário ao redor. O comentário não era apenas uma resposta, mas uma provocação calculada, lançada com precisão para atingir mais do que o orgulho de Rover.
Mal as palavras deixaram seus lábios, seu corpo já respondia com uma mudança imediata. Um brilho púrpura intenso voltou a envolver sua silhueta, pulsando sob a pele como um fluxo vivo de energia, sinalizando que sua condição havia sido restaurada quase por completo. Não houve pausa, nem transição visível entre fala e ação; em um único movimento contínuo, Eleonor avançou, rompendo a distância entre os dois com uma aceleração violenta que deslocou o ar ao seu redor e fez a poeira reagir em redemoinhos turbulentos.
Suas faixas metálicas convergiram instantaneamente para o braço direito, envolvendo-o em camadas compactas que se ajustavam com precisão ao formato de um punho, criando uma estrutura densa e reforçada que amplificava o impacto de seu ataque. O metal vibrava com energia contida, reagindo à sua intenção como uma extensão direta de sua vontade, enquanto ela projetava o corpo à frente com o peso total de sua velocidade, desferindo um soco direto e devastador em direção ao tórax de Rover, sem margem para erro ou recuo.
Rover não se moveu, e seus olhos acompanharam cada fração do avanço, e mesmo com o desgaste evidente em seu corpo, sua resposta veio com precisão calculada. Ele ergueu o braço esquerdo, abrindo o palmo na direção do golpe que se aproximava, concentrando ali sua energia sísmica em um ponto único. O ar ao redor de sua mão começou a se distorcer de forma violenta, comprimindo-se em camadas invisíveis que vibravam com intensidade crescente, como se o próprio espaço estivesse sendo tensionado ao limite.
No instante em que o punho metálico de Eleonor encontrou o palmo carregado de Rover, a colisão resultante ultrapassou o simples impacto físico, transformando-se em uma explosão de pressão que se propagou em todas as direções. A onda de choque varreu o campo de batalha com força brutal, levantando poeira, arrastando destroços e fazendo o asfalto ceder sob a violência concentrada naquele ponto de contato, como se a rodovia estivesse sendo esmagada entre duas forças irreconciliáveis.
Nenhum dos dois recuou de imediato. A energia liberada entre eles mantinha o espaço tensionado, como se o próprio confronto resistisse em se dissipar, deixando claro que aquele choque não representava um desfecho, mas sim o início de uma nova e ainda mais destrutiva troca de ataques, onde cada movimento carregaria consequências ainda mais severas para ambos os lados.
Próximo àquele caos, Bruno se arrastava como podia para longe da desgraça, cada movimento sendo uma batalha contra o próprio corpo que já não respondia com a mesma firmeza de antes. Suas mãos, trêmulas e escorregadias de sangue, buscavam apoio no asfalto irregular enquanto ele avançava centímetro por centímetro, deixando atrás de si um rastro espesso e irregular que tingia a rodovia de vermelho vivo. A dor era constante, pulsante, quase ensurdecedora, mas havia algo maior do que ela — algo que o empurrava para frente mesmo quando seus músculos imploravam por rendição.
— E-eu p-preciso chegar lá… — murmurava em voz baixa e falha, cada palavra escapando com dificuldade entre dentes cerrados e respiração irregular.
Sua visão oscilava, turvada pela perda de sangue e pelo choque, transformando o mundo ao seu redor em fragmentos desconexos de luz, poeira e sombras em movimento. Ainda assim, ele forçava o foco na única direção que importava: o motorhome destruído, sua casa, seu último refúgio… e, acima de tudo, o lugar onde Emma ainda poderia estar.
A mente de Bruno começava a se desfazer em lapsos, memórias surgindo e desaparecendo como ecos distantes, mas uma certeza permanecia intacta, cravada fundo em sua consciência como uma âncora: ele não podia parar. Não agora. Não enquanto ainda existisse a mínima possibilidade de alcançar sua irmã.
Seus dedos se fecharam com mais força contra o chão áspero, arrancando fragmentos de sujeira e cascalho enquanto ele puxava o próprio corpo mais uma vez, ignorando o som úmido e perturbador da carne sendo pressionada contra o metal deformado que ainda prendia parte de suas pernas. O esforço arrancou um gemido rouco de sua garganta, mas Bruno não cedeu.
Porque, naquele momento, tudo o que restava dele — cada pensamento, cada gota de sangue, cada resquício de força — estava voltado para um único propósito:
Chegar até Emma.

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