Capítulo 11
Bruno encontrava-se em uma situação deplorável e digna de pena, desafiando a própria lógica ao ainda permanecer vivo diante da gravidade de seus ferimentos, pois já não possuía uma das mãos, tampouco suas pernas, e em seu tronco abria-se um buraco grotesco por onde era possível ver sua carne dilacerada e partes expostas de seus órgãos, mas ainda assim ele se arrastava como podia, feito um verme, movido por um impulso quase inconsciente que o levava, pouco a pouco, na direção de sua morada.
— D-De… D-Deusa A-Ayon, Por F-favor… — os esforços de Bruno para formar uma simples frase como forma de apoio eram quase inúteis, já que o choque da dor que consumia seu corpo fragmentava sua fala e tornava cada palavra um esforço desesperado para não sucumbir completamente.
—Deixe que minha irmã viva mais, por favor… — a mente de Bruno fixava-se unicamente no que ainda lhe restava como motivo para resistir, sua irmã gêmea Emma, a única âncora capaz de manter sua sanidade intacta em meio ao caos absoluto que o cercava.
Embora Bruno rezasse, seu subconsciente reconhecia que Deus não estava ali naquele momento e que não ouviria seus prantos, ainda assim ele lutava contra a própria aceitação de sua insignificância, agarrando-se ao otimismo e à negação da possível morte da irmã como suas únicas armas para continuar resistindo.
— Q-que merda… — disse Indjaya, gemendo de dor enquanto despertava para a realidade mais uma vez, seu corpo já retornando ao tom natural pardo após o desgaste extremo. Ela olhou ao redor como se tivesse saído de um coma, claramente desorientada, captando apenas flashes desconexos da batalha que sua irmã travava contra a ameaça prateada, Rover, e levou alguns segundos até que todas aquelas informações se organizassem em sua mente, permitindo que recobrasse a postura ao se erguer lentamente e se afastar em um recuo tático.
— Eu já usei toda a minha energia pra me curar, tô cansada demais pra ficar azul… — pensou enquanto marchava com cautela, mesmo que seu corpo estivesse aparentemente intacto, pois naquele estado a improvisação ou o recuo eram suas únicas opções viáveis diante da situação.
— Preciso contatar ao pessoal, mas meu rádio virou sucata. — disse, tamborilando contra o próprio colete que agora não passava de um pano inútil, com fios soltos e visivelmente danificados, sem qualquer sinal de funcionamento do rádio que antes estava acoplado ao traje.
— Eu sabia que O Duque ia retaliar a Itália porque a gente atacou uma das bases dele por informações que os egípcios nos passaram, mas nesse nível? — a incredulidade racional deixava evidente o choque diante da frieza doentia daquele que liderava o lado oposto da guerra.
— Se ao menos o Matthew ou o Índio estivessem aqui pra auxiliar, mas a porra do Rache tinha que me designar por puro relaxo. — pensou Indjaya, ciente de que, apesar do peso de sua alcunha, um confronto daquela escala estava além do que podia sustentar naquele estado, já que suas capacidades eram mais voltadas para suporte ou ofensivas extremamente técnicas, exigindo preparo e não desgaste total.
De repente, Rover foi arremessado contra o asfalto em ruínas e contra os veículos abandonados próximos à posição de Indjaya, com um impacto violento o bastante para marcar o solo com uma cratera, evidenciando a velocidade absurda aplicada naquele golpe, e diante disso, ela apenas observou, plenamente consciente de que era apenas questão de tempo até que a França desse início à próxima fase do plano, enquanto permanecia impotente devido ao esgotamento de suas energias. — Cacete… Eleonor, você quase me acertou jogando ele em mim! — ditou, virando-se na direção da irmã enquanto recuava o suficiente para se afastar do homem, mas ainda entrando no espaço de Eleonor, que surgia logo atrás.
— Indjaya, eu preciso que você saia se não puder mais ficar com seu manto ativado.
— Eu sei, mas eu duvido muito que eu vá conseguir nesse ritmo. — respondeu a irmã, mantendo o olhar fixo em Rover, que avançava em meio à nuvem de poeira na direção da díade mais uma vez.
— Seja oque for, não baixe sua guarda, ele tá querendo ganhar tempo com essa putaria toda..
Rover apareceu mais uma vez, e a parte superior esquerda de seu corpo estava completamente ausente, destruída de forma grotesca, criando uma visão perturbadora que parecia saída de um verdadeiro show de horrores, mas aquela imagem logo começou a se recompor diante dos olhos das duas, com carne, ossos e tecidos se reconstruindo de maneira antinatural através de sua regeneração acelerada. — Vocês tão fodidas, e essa merda de país vai ser anexado, queiram vocês ou não. — disse Rover, permanecendo inerte enquanto ainda brilhava em prata, como se o próprio estado de seu corpo não representasse qualquer ameaça ou limitação para si.
— Você acabou de ser jogado por mim, não entendi o motivo de estar cantando de galo. — respondeu Eleonor, aproximando-se da irmã e mantendo-se posicionada à sua frente de forma protetora, enquanto sua aura púrpura se manifestava com intensidade e suas faixas metálicas se estendiam ao redor de seu corpo, ostentando aquele poder com naturalidade ameaçadora.
— Além do mais, é garantia que você não sai vivo dessa sem um bom plano.
— É, até pode ser… — Rover levou o palmo destro à própria cabeça, corrigindo suas mechas brancas com calma, demonstrando uma serenidade desconcertante ao confrontar diretamente a ameaça visual que Eleonor transparecia, e sem desviar o olhar, manteve a postura relaxada enquanto continuava a provocação. — Mas eu sei que você tá priorizando a vida da sua irmã, e daquele outro cara que teve o azar de vir aqui no dia de hoje. — terminou sua frase em um tom sinistro, ao mesmo tempo em que movia o palmo destro que antes repousava em sua cabeça para trás, mantendo-o aberto acima do próprio ombro, indicando com precisão que sabia exatamente onde Bruno se rastejava naquele cenário caótico, reforçando a pressão psicológica sobre a adversária. — E você me parece não poder proteger os dois ao mesmo tempo.
— A diferença aqui é que o civil é uma baixa de guerra, a minha irmã seria uma perca que dificilmente A Nação dos Três Ventos recuperaria. — Eleonor demonstrava estar disposta a sacrificar todo o esforço que havia feito para salvar Bruno, pois sua prioridade era proteger a irmã, não apenas pelo elo que compartilhavam, mas também pelo senso pragmático diante do contexto em que estavam inseridas.
— Civil? Que civil? — Indjaya desviou o olhar de Rover para Eleonor em um movimento rápido, retornando logo em seguida a atenção para o homem enquanto processava a situação. — Mana, não podemos deixar mais pessoas morrerem, porque eles são de nosso país, e está no nosso regulamento.
— O próprio Rache caga pro regulamento e você sabe disso. — Eleonor respondeu quase que imediatamente, cortando a fala da irmã com frieza, sem hesitar em sua posição. — Eu também quero que se foda, porque não era essa a vida que queríamos ter e simplesmente tô aqui por obrigação.
— É mesmo? Haha. — Rover arqueou um sorriso, claramente se divertindo com o conflito entre as duas enquanto observava a situação com interesse. — Vocês já tão fodidas e a Terra Carmesim mal fez algo a respeito, quem diria.
— Você deve ter chupado a rola do Duque pra chegar onde chegou e tá achando graça de nossa situação? — disse Eleonor, respondendo à altura, já farta daquela conversação e deixando o desprezo transparecer em cada palavra.
— Hein? — Rover mudou de expressão na mesma hora, sua serenidade dando lugar a uma feição de puro nojo diante da provocação.
— Tudo que você tem deve ser por conta de seus pais ou sei lá terem te vendido ou então por você ser um pedaço de merda que compactua com essa ideia torta, seu lixo. — Eleonor elevou o tom de voz, pressionando ainda mais a situação e demonstrando estar disposta a encerrar aquilo de uma vez por todas.
— NÃO ME COMPARE COM VOCÊS! — gritou Rover, avançando de forma violenta, completamente cego pela ira enquanto concentrava sua técnica nos calcanhares, tendo como alvo Indjaya, que se encontrava indefesa devido ao seu desgaste físico.
Eleonor conseguiu oque queria, desestabilizar Rover, e agora precisava assegurar da proteção da irmã e assim o fez, saltando em frente ao ataque do inimigo envolvendo o corpo de Indjaya com as faixas metálicas a arremessando com cautela, tais movimentos exigiam uma coordenação fria e bem calculada.

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