Tudo o que restou daquela rodovia era uma imensa fenda aberta no asfalto, como uma cicatriz brutal cravada na terra, cercada por crateras profundas que engoliam sem distinção os vestígios da batalha — veículos retorcidos, destroços carbonizados e fragmentos irreconhecíveis de tudo o que outrora compunha aquele fluxo comum de vida. A névoa densa ainda pairava sobre o cenário, espessa como um manto de luto, mas começava a se dissipar lentamente, arrastada por correntes de ar irregulares agora que as explosões e impactos haviam cessado, como se o próprio ambiente, exausto, recusasse continuar alimentando aquele inferno.

    O silêncio que emergia era quase antinatural, quebrado apenas por estalos ocasionais de metal cedendo e pelo sopro distante do vento atravessando as estruturas destruídas. Era o tipo de quietude que não trazia paz, mas sim um prenúncio inquietante do que ainda poderia vir.

    — Os franceses devem ter mandado o Rover pra obstruir nossa principal via de transporte militar, já que detonamos uma das bases mais importantes deles… que ardilosos. — Eleonor pensava, sua mente operando com frieza estratégica mesmo após o confronto devastador.

    Ela marchava calmamente entre os escombros, seus passos firmes contrastando com o cenário de ruína absoluta ao redor. A cada movimento, seu corpo denunciava algo que fugia completamente à lógica humana: feridas abertas se fechavam diante dos olhos, tecidos se recompondo em uma coreografia silenciosa de regeneração, enquanto fragmentos que haviam sido arrancados retornavam ao seu devido lugar como se o tempo estivesse sendo reescrito ao seu favor.

    — O Setor de Inteligência vai ter que trabalhar melhor nas vias paralelas… — continuou em pensamento, o raciocínio afiado mesmo em meio ao caos. — E não só isso… o Rache vai ficar muito puto quando souber disso.

    A tonalidade safira que antes envolvia sua pele começou a se desfazer gradualmente, dissolvendo-se como tinta diluída na água até revelar novamente o tom pardo natural de seu corpo. Não restava qualquer sinal visível dos danos sofridos; era como se aquela batalha jamais tivesse tocado sua carne, apenas atravessado o mundo ao seu redor.

    Alheia à destruição que ajudara a causar, ou talvez simplesmente indiferente a ela, Eleonor manteve sua marcha constante, avançando na direção em que a brigada militar havia recuado. Seus olhos permaneciam atentos, analisando cada detalhe do terreno devastado, não em busca de sobreviventes — mas de movimento, de ameaça, de qualquer indício de que aquele confronto ainda não havia chegado ao seu verdadeiro fim.

    — E aquele cara de mais cedo… deve ter morrido de vez. — pensou Eleonor, enquanto seus olhos percorriam o cenário devastado com uma frieza quase mecânica.

    Seu olhar cortava o ambiente como lâminas invisíveis, analisando cada detalhe entre os escombros: pedaços de lataria retorcida, manchas escuras que se espalhavam pelo asfalto quebrado, fragmentos de vidro que ainda refletiam a luz opaca do céu encoberto. Ela buscava algo específico — um corpo fatiado, destroçado ao ponto de não restar dúvida sobre seu fim. A imagem de Bruno, ainda que vaga, permanecia registrada em sua mente como um detalhe incômodo que precisava ser confirmado.

    Eleonor avançou alguns passos, desviando de uma carcaça parcialmente carbonizada, os pés esmagando cascalho e detritos com um som seco que ecoava naquele silêncio pesado. Seus sentidos estavam atentos, não apenas à possibilidade de sobrevivência, mas também à inconsistência — algo fora do lugar, algo que contrariasse a lógica brutal daquela carnificina.

    Enquanto Eleonor se afastava daquele ambiente caótico, sua silhueta desaparecendo gradualmente entre a poeira e os destroços como se nunca tivesse feito parte daquele massacre, abaixo da estrutura colapsada e soterrado sob camadas de metal retorcido, Bruno permanecia preso em um estado limítrofe — uma linha tênue e distorcida entre a consciência e algo muito próximo da morte.

    Seu corpo já não respondia como antes; cada tentativa de movimento resultava apenas em impulsos falhos, sinais que se perdiam no vazio entre o cérebro e a carne destruída. Ainda assim, sua mente insistia em permanecer ativa, como uma chama teimosa que se recusava a se apagar mesmo sem oxigênio suficiente para continuar queimando.

    O choque da quebra de expectativas — a falha absoluta em cumprir o único objetivo que sustentava sua existência naquele momento — o congelava por dentro de uma forma muito mais cruel do que qualquer ferimento físico. Não era apenas dor. Era vazio.

    A imagem de Emma, viva, dependente dele, lutando para sobreviver… começava a se fragmentar em sua mente, sendo lentamente substituída por uma realidade que ele se recusava a aceitar. Seus pensamentos se tornavam pesados, lentos, como se estivessem sendo puxados para o fundo de um abismo silencioso.

    O único som que ainda alcançava Bruno era o do próprio coração. Não havia mais tiros, nem gritos, nem o colapso do mundo ao seu redor — tudo havia sido engolido por um silêncio absoluto, sufocante, onde apenas aquele ritmo persistia. Cada batida ressoava em sua mente como um golpe seco, pesado demais para algo que deveria ser natural. Não era apenas um som — era uma presença, constante e opressora, preenchendo cada espaço vazio dentro de sua consciência fragmentada.

    O tempo parecia distorcido. Entre uma batida e outra, existia um intervalo infinito, como se o mundo parasse por completo apenas para que aquele som ecoasse mais uma vez. Seu corpo, quase inerte, respondia apenas a esse pulso primitivo, como se toda a sua existência tivesse sido reduzida àquele único mecanismo insistente.

    Eleonor, que já se encontrava a uma distância considerável na mesma rodovia, avançando com passos firmes e despreocupados, foi subitamente interrompida por uma sensação que não condizia com o silêncio ao seu redor. Um arrepio percorreu sua espinha de forma abrupta, como um alerta primitivo que ignorava lógica ou razão, fazendo com que cada fibra de seu corpo reagisse antes mesmo que sua mente pudesse processar o motivo. O vento que antes apenas carregava poeira agora parecia mais frio, mais pesado, como se algo invisível tivesse alterado a própria atmosfera daquele lugar.

    Lentamente, Eleonor virou o rosto por sobre o ombro, seus olhos estreitando-se enquanto percorriam o caminho que havia acabado de atravessar — a trilha de destruição, sangue e destroços que se estendia como um rastro de guerra ainda recente.

    — Huh?

    O som escapou baixo, quase inaudível, mais uma reação instintiva do que uma expressão consciente. Por um breve instante, o olhar de Eleonor permaneceu fixo no horizonte enevoado, buscando qualquer indício que justificasse aquela reação involuntária.

    — Merda… parece que os franceses ainda têm mais uma jogada… — murmurou Eleonor, deixando o ar escapar em um suspiro contido enquanto o incômodo percorria seu corpo como um aviso persistente. Ainda assim, não se permitiu hesitar; fechou levemente os olhos por um instante e trouxe o foco para dentro de si, alinhando a respiração ao próprio ritmo cardíaco, deixando que cada batida organizasse o caos momentâneo em sua mente. Aos poucos, a tensão deixou de ser um ruído descontrolado e passou a ser apenas mais um elemento sob seu domínio, algo que ela observava sem permitir que interferisse em sua precisão. Conforme retomava o controle absoluto sobre o próprio corpo, a mudança tornava-se visível: a tonalidade natural de sua pele começava a ceder, sendo novamente tomada pelo brilho azulado que se espalhava de forma uniforme, como uma energia latente despertando sob a superfície. Seus músculos se ajustavam, seus sentidos se refinavam, e sua presença, antes apenas firme, agora carregava novamente o peso de alguém pronto para o confronto. 

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