Capítulo 15
Dentro daquele casulo improvisado de metal retorcido e concreto esmagado, Bruno encontrava-se à beira de um colapso silencioso, preso em um limbo onde seu corpo já não respondia com coerência e seus sentimentos haviam sido soterrados junto com ele, incapazes de acompanhar o turbilhão de pensamentos que o mantinha desperto, porém completamente imóvel. A pressão ao seu redor era constante, opressiva, como se o mundo inteiro tivesse decidido fechá-lo ali dentro, comprimindo não apenas sua carne, mas também aquilo que restava de sua identidade.
Sua mente, no entanto, não parava, ela corria. Corria de forma caótica, desorganizada, revisitando fragmentos de sua vida como uma sequência distorcida de memórias que surgiam sem ordem, sem filtro, sem misericórdia. Momentos banais ganhavam peso, erros pequenos se tornavam gigantescos, e cada escolha parecia, agora, apontar inevitavelmente para aquele desfecho esmagador.
Ele não pensava em Emma, ia além — Muito além. A dor não era só pela possibilidade de perdê-la — era por tudo. Por cada vez que falhou, por cada situação que não conseguiu controlar, por cada momento em que a vida pareceu simplesmente passar por cima dele sem pedir permissão. Uma sensação amarga começava a se enraizar, crescendo como algo mais profundo que o desespero: a ideia de que aquilo não era um acidente… mas um padrão — De que sempre foi assim.
O pensamento não veio como um grito, nem como revolta. E, por um instante perigoso, aquela ideia encontrou espaço dentro dele — não como dúvida, mas como verdade. E foi exatamente nesse ponto… que fez algo em Bruno reagir.
Sua mente colapsou em um branco absoluto, como se todos os pensamentos tivessem sido abruptamente arrancados, deixando para trás apenas um vazio denso e sufocante, e, no mesmo instante, seus olhos passaram a brilhar com uma coloração branca intensa, quase ofuscante, rompendo a escuridão daquele espaço apertado com uma luz antinatural. Seu corpo reagiu de forma violenta, tremendo e se debatendo contra os escombros que o aprisionavam, como se algo dentro dele estivesse lutando para emergir à força, ignorando qualquer limite imposto pela carne destruída.
O estalo dos ossos se reorganizando ecoou dentro daquele pequeno casulo de metal e concreto, um após o outro, encaixando-se com uma precisão brutal que mais lembrava uma remontagem do que uma cura. As fibras musculares se contraíam e se refaziam de maneira inquieta, quase agressiva, como se estivessem sendo puxadas de volta ao lugar por uma força invisível e impaciente. Onde antes havia ausência, agora surgia matéria — membros perdidos retornando, tecidos se reconstruindo em uma sequência perturbadora que desafiava qualquer lógica natural.
E então, vindo de baixo para cima, como um sinalizador atravessando a escuridão, uma luz azul começou a emergir. Fraca no início, mas crescente. Ela se infiltrava pelas frestas dos destroços, contornando o corpo de Bruno, envolvendo-o como uma presença viva, pulsante, acompanhando o ritmo daquele coração que antes vacilava… e que agora batia com uma força renovada, quase feroz.
A rodovia foi tomada por um estrondo absoluto, seco e avassalador, semelhante ao impacto de um relâmpago atingindo a terra — mas invertido, como se a própria ordem natural tivesse sido violada, pois o som não veio dos céus, e sim do solo, irrompendo de baixo para cima com uma violência que fez o asfalto já destruído vibrar e ceder ainda mais, enquanto, no mesmo instante, um feixe de luz azul ascendeu de forma contínua e reta, rasgando os destroços, atravessando a poeira densa e ignorando qualquer obstáculo em seu caminho, projetando-se aos céus com uma precisão antinatural até romper as nuvens e seguir além, tornando-se visível mesmo sob a luz do dia a quilômetros de distância, como um marco impossível cravado no horizonte, enquanto a energia que emanava daquele pilar fazia o ar vibrar, distorcendo levemente o espaço ao redor e empurrando o vento em rajadas irregulares, como se a própria atmosfera estivesse sendo repelida por algo que simplesmente não deveria existir.
— Não pode ser… — murmurou um dos militares, a voz falhando por um instante enquanto seus olhos permaneciam fixos naquele feixe de luz que cortava o céu, refletindo na íris como algo quase divino e, ao mesmo tempo, profundamente perturbador.
O homem deu alguns passos para trás de forma instintiva, como se seu próprio corpo tentasse criar distância daquilo que sequer compreendia, e, com movimentos apressados e levemente trêmulos, levou a mão ao rádio preso ao ombro, pressionando o dispositivo com urgência enquanto engolia seco, tentando manter a compostura diante do que estava testemunhando.
— Aqui é o Tenente Rizzotto Abbachio, solicitando apoio e reforços imediatos — anunciou, a voz agora mais firme, ainda que carregada por uma tensão evidente que não conseguia ocultar por completo. Houve uma breve pausa, como se até mesmo ele hesitasse em verbalizar o que vinha a seguir, antes de continuar, com o peso da constatação tornando cada palavra mais densa. — Um azulado acabou de nascer na Rodovia SS 291… repito, um azulado acabou de nascer.
— Nem fodendo… — deixou escapar Eleonor ao testemunhar, mesmo à distância, o surgimento daquele fenômeno, sua descrença carregada de tensão enquanto seus olhos se fixavam no feixe azul que rasgava o céu, agora não mais como uma simples anomalia, mas como o prenúncio de um problema real, algo vivo, recém-nascido e completamente fora de controle.
O nascimento de um azulado nunca era um evento silencioso ou contido; pelo contrário, tratava-se de um dos fenômenos mais caóticos possíveis, pois a primeira transformação vinha sempre carregada de uma violência bruta e primitiva, como se o corpo reagisse ao mundo como uma ameaça absoluta, sem razão, sem controle, apenas instinto — instinto de sobrevivência, instinto de destruição.
Era uma resposta direta à dor, sempre foi, e a ruptura emocional necessária para provocar aquela mudança não deixava espaço para estabilidade, fragmentando a mente do indivíduo no exato momento em que lhe concedia poder, transformando tudo ao redor em um alvo em potencial, não por escolha consciente, mas por necessidade de se proteger, eliminar ameaças e continuar existindo.
Eleonor estreitou o olhar, sua expressão endurecendo conforme assimilava a situação, entendendo que aquilo não era apenas mais uma variável no campo de batalha, mas um fator imprevisível, uma força recém-desperta incapaz de compreender seus próprios limites, e justamente por isso, capaz de qualquer coisa.
Daqueles escombros que antes o aprisionavam, Bruno emergiu de forma inquieta, o corpo se contorcendo em movimentos irregulares e quase antinaturais, como se estivesse se ajustando à própria existência após ter sido reconstruído à força. Cada gesto carregava um peso estranho, como o de algo que ainda não compreendia totalmente os próprios limites, enquanto fragmentos de metal e concreto deslizavam de seu corpo e se chocavam contra o chão ao seu redor.
Ele estava sem suas vestes superiores, a pele ainda marcada por vestígios recentes de reconstrução e completamente azulada, enquanto a calça, parcialmente destruída, mal resistia ao estado em que se encontrava, e seus pés descalços tocavam o asfalto quebrado sem qualquer sinal de hesitação, como se a dor já não fosse mais um fator relevante para ele.
Por alguns segundos, permaneceu curvado, os músculos tensionados e relaxados em uma sequência irregular, até que, em um movimento brusco, virou-se na direção de Eleonor.
Seus olhos encontraram os dela. E, naquele instante, não havia confusão, não havia hesitação.
Apenas… algo novo.

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