Capítulo 3 - Silêncio
A dor não era aguda. Era um peso de chumbo profundo, constante, como se as próprias ruínas quisessem se acomodar dentro de seus ossos.
O gosto espesso de poeira e cobre inundava a boca do General Gravios.
A escuridão ao redor era tão absoluta que, por alguns segundos, o silêncio pareceu ter peso físico. Gravios piscou devagar. Seu corpo inteiro protestava, mas o treinamento de décadas cobrou seu preço: a mente despertou antes do pânico. Ele moveu os dedos, depois os braços, sentindo o latejar em suas costelas. Nada quebrado. Apenas a sensação de ter sido atropelado por uma montanha.
Um som úmido e rouco cortou o breu a poucos metros dali. Alguém tossindo sangue.
— Vorn. — A voz de Gravios saiu como cascalho arranhando pedra.
— Ainda… ainda respirando, General… — O sussurro de Vorn foi seguido por um gemido de dor contida. — Mas acho que meu escudo não teve a mesma sorte.
Gravios tateou o chão, levantou-se com um joelho de cada vez e caminhou na direção da voz. Ele puxou do cinto um pequeno tubo de metal, destravou a tampa e soprou suavemente. Uma brasa química de emergência ganhou vida, emitindo um brilho alaranjado e fraco.
A luz pálida revelou o veterano encostado contra uma parede de rocha. O escudo colossal de Vorn, forjado para resistir a ataques de cerco, estava rasgado ao meio e irreconhecível. O braço esquerdo de Vorn pendia em um ângulo estranho, mas seus olhos estavam abertos e ferozes. Ele estava vivo.
Gravios não sorriu — ele nunca sorria no Fronte —, mas o alívio afrouxou um milímetro da tensão em sua mandíbula. Ele ajoelhou-se, rasgando um pedaço da própria capa militar para imobilizar o braço do subordinado de forma eficiente e fria.
— Trok? — Vorn perguntou, entredentes, enquanto Gravios apertava o nó.
— Não está aqui. Caímos em pontos diferentes. O teto cedeu por completo. — Gravios levantou a brasa para tentar mapear os limites de onde haviam caído.
Foi então que a respiração da Lenda de Lancrey falhou.
O General arregalou os olhos, a luz trêmula refletindo em pupilas dilatadas por um choque que ele não sentia há muito tempo.
Eles não haviam caído em uma caverna. Não havia paredes naturais ao redor deles. Havia mausoléus.
A luz varria estátuas de pedra pálida — anjos com rostos desgastados, gárgulas decapitadas e cruzes enegrecidas — erguidas sobre um mar infinito de lápides. Estavam no centro de um cemitério colossal, engolido pela terra. E além dos portões retorcidos de ferro do cemitério, mergulhada em um silêncio ancestral, Gravios pôde vislumbrar a silhueta de uma cidade inteira, com arcos, torres e pontes despedaçadas.
Isso é impossível, Gravios pensou, a mente militar lutando para processar a magnitude do que via. Eu marchei pelo Fronte por trinta anos. Eu vi vilas queimadas e castelos reduzidos a pó. Mas isso… o Exímio não destruiu essa capital. Ele a engoliu inteira. Ela foi soterrada intacta.
A percepção o atingiu com um frio cortante. As Terras Exímias não eram um simples deserto de cinzas. Eram camadas. Uma sepultura construída sobre outras sepulturas. Quantas civilizações inteiras o mundo já havia esquecido, e que agora apodreciam ali embaixo, alimentando a escuridão?
Uma tosse de Vorn o trouxe de volta à realidade.
Gravios abaixou o olhar e notou algo que fez seu sangue gelar. Presos aos espinhos de ferro dos portões do cemitério, rasgados durante a queda, havia grossos tufos de pelagem azul. Faiscavam com uma estática fraca. Havia uma poça de sangue escuro no chão, do tamanho de um pequeno lago, e marcas de garras colossais cravadas na rua de pedra que levava para dentro da cidade submersa.
O Alfa havia caído ali. Estava ferido. E havia se arrastado para o coração daquelas ruínas.
O peito de Gravios apertou. Uma dor muito mais aguda do que a das costelas fraturadas.
Caelan.
A cidade era imensa. Gravios sabia, com a intuição de um caçador, que eles haviam caído em extremos opostos. Se o Alfa estava indo para o centro, e as duas crianças estavam perdidas em algum lugar daquela escuridão… a matemática do Fronte era cruel e exata. Eles se encontrariam.
Gravios embainhou os próprios medos em um cofre no fundo da mente. Ele pensou nas inúmeras vezes em que as tempestades de Lancrey assustavam os gêmeos. Ele pensou em como se sentava no escuro da sala, afiando a espada, acreditando que proteger a porta era o suficiente. Ele nunca fora até o quarto para dizer que tudo ficaria bem. Ele nunca soube como ser a figura paterna que Caelan e Liriel precisavam.
Ele os transformou em soldados porque era a única linguagem que conhecia.
Mas agora, o garoto que sempre tentava impressioná-lo, o garoto que via o Fronte através de contos de fadas e glória, estava prestes a descobrir que não há heróis no escuro.
— Consegue andar? — Gravios perguntou, a voz afiada como navalha, estendendo a mão para Vorn.
O gigante grunhiu, agarrando o antebraço do General e forçando-se a levantar. Ele chutou o que sobrou de seu escudo para o lado, pegando uma pesada maça de aço do cinto.
— Com um braço só, eu ainda esmago o crânio de qualquer coisa que rosnar no escuro, senhor — Vorn respondeu, ofegante, mas com um brilho letal no olhar.
Gravios sacou a própria espada longa. O metal reluziu sob a luz fraca da brasa.
— O Alfa sangrou. E está se movendo para o centro da cidade — Gravios ditou as ordens, não mais como um pai assustado, mas como o homem temido por monstros e homens. — O garoto e a menina devem estar do outro lado. Nós vamos cruzar essa cidade morta. Nós vamos encontrar nossos novatos.
Ele olhou para a trilha de sangue que se perdia na escuridão ancestral.
— E se aquela abominação chegar até eles antes de nós… eu vou arrancar aquele núcleo exímio e queimá-lo na fogueira de Lancrey.
Lado a lado, o General e seu soldado ferido deixaram o cemitério para trás, caminhando em direção às sombras profundas da cidade que o mundo esqueceu.
As botas pesadas de Gravios e Vorn ecoavam pelas ruas pavimentadas da cidade morta, um som solitário em meio ao silêncio de éons. A cada quarteirão que avançavam, a perplexidade se aprofundava. Mansões de pedra escura, pontes suspensas sobre abismos secos, catedrais com vitrais há muito estilhaçados. Era um império afogado no escuro.
Vorn parou, encostando o ombro bom em um pilar esculpido, arfando levemente.
— Senhor. — O veterano olhou para o teto negro e invisível da caverna, e depois para a vastidão da cidade. — Se continuarmos caminhando às cegas, levaremos semanas para cruzar isso aqui. Se as crianças estiverem presas em algum desses prédios, nós passaremos direto por elas.
Gravios parou. Ele sabia exatamente o que Vorn estava prestes a sugerir, e sabia o peso daquela decisão.
— Um sinalizador — completou Vorn, a voz grave e cautelosa. — Vai iluminar o centro da cidade. Eles vão ver.
— E aquela abominação sangrando também — retrucou o General, os olhos semicerrados varrendo as sombras. — Nós estaríamos tocando o sino do jantar para um Alfa no próprio território dele.
— É uma aposta, General. Mas prefiro atrair o monstro para nós, que estamos armados, do que deixá-lo caçar dois novatos no escuro.
Gravios ficou em silêncio. A mente do estrategista calculava variáveis, mas o coração do homem que havia criado Caelan e Liriel pulsava de forma dolorosamente humana. Vorn estava certo. O silêncio os manteria seguros, mas mataria os jovens.
— Há uma torre de vigia desmoronada a uns duzentos passos daqui, perto do que parece ser uma praça central — Gravios apontou com a espada para uma estrutura que se erguia acima dos telhados petrificados. — Nós subimos. Lançamos a carga. E esperamos com a vantagem da altura. Se o Alfa vier, ele nos encontra primeiro.
Eles se moveram rápido. A torre não tinha mais teto, oferecendo uma vista ampla das ruínas ao redor. Gravios tirou do cinto um cilindro de metal espesso, torceu a base e o ergueu.
Com um silvo agudo que rasgou o silêncio milenar, o sinalizador disparou para o alto.
Ele explodiu cem metros acima deles, não em vermelho, mas em um branco ofuscante e purificador. Por dez longos segundos, a cidade inteira foi arrancada das trevas. A luz banhou as praças vazias, refletiu na água negra de canais mortos e projetou sombras colossais das estátuas sem rosto. Era majestosa. E aterrorizante.
O cilindro apagou. A escuridão voltou, mais densa e faminta do que antes.
Eles esperaram. Vorn apertou o cabo da maça, os dentes trincados pela dor no braço imobilizado. Gravios não piscava, monitorando as ruas abaixo com a precisão de uma águia.
Minutos se passaram. O som de passos esmagando vidro e calcário começou a ecoar de uma ruela estreita ao norte.
Gravios tensionou os músculos. Mas o que surgiu da rua não foi uma montanha de pelos azuis.
Foi a luz alaranjada e frágil de uma lanterna de carvão.
Caelan caminhava com a espada em riste, o corpo posicionado exatamente como o manual de Lancrey ditava, mas com uma fluidez que só o instinto de sobrevivência real poderia forjar. Logo atrás dele, enrolada em uma capa grande demais, estava Mirel.
O peito de Gravios aliviou de uma forma que o fez quase soltar o ar de uma vez só. Ele notou, de cima, que Caelan não parecia mais o garoto que sonhava com glórias naquela manhã. A postura estava rígida, os olhos frios, focados na escuridão. Ele estava protegendo a garota. Ele estava sobrevivendo.
— Caelan! — a voz áspera de Gravios ecoou do alto da torre.
O garoto parou abruptamente, erguendo a lanterna. Quando viu as figuras descendo as escadarias de pedra da torre, os ombros de Caelan despencaram. A máscara de Explorador ameaçou cair por um segundo, revelando o alívio esmagador de um jovem que encontrou seu porto seguro.
Eles se encontraram na entrada da praça.
— General! Vorn! — Caelan exclamou, correndo os últimos metros. Ele olhou para o braço imobilizado do gigante e para a armadura amassada de Gravios. — Vocês estão vivos.
— Fiquei sabendo que sou duro de mastigar, garoto — Vorn deu um meio sorriso sofrido, bagunçando o cabelo cheio de cinzas de Caelan com a mão boa.
Gravios parou diante de Caelan e Mirel. Ele não os abraçou. Ele olhou de cima a baixo, checando se havia ferimentos graves. Quando seus olhos encontraram os de Caelan, o General deu um aceno lento e quase imperceptível. Um sinal de respeito.
— Vocês mantiveram a calma. Fizeram um bom trabalho — disse Gravios, a voz controlada. — Onde está Trok?
Caelan engoliu em seco, olhando para os lados.
— Nós não o vimos. Desde a queda. Achamos que estivesse com vocês.
Um silêncio pesado caiu sobre os quatro. A ausência de Trok naquele momento não era apenas uma falta de respostas; no Fronte, ausência quase sempre significava morte.
— Nós o procuraremos no caminho de volta — Gravios cortou o luto antes que ele se instalasse. — Mas não podemos ficar parados. O sinal luminoso atraiu vocês, mas duvido que tenha atraído apenas vocês. Vamos cruzar a praça. O terreno aberto nos dá visão clara de qualquer ataque.
Eles avançaram em formação. Vorn e Gravios na frente, Caelan e Mirel no centro.
A praça central era vasta, calçada com lajes de mármore rachado. No centro, havia as ruínas do que parecia ser um obelisco gigantesco, ladeado por pilares de sustentação de antigos arcos que não existiam mais.
Chegaram ao meio do terreno aberto. Parecia seguro. Parecia o lugar perfeito para planejar a subida.
Foi então que o cheiro chegou.
Um fedor forte de cobre, ozônio e carne queimada.
Mirel congelou. A garota soltou um arfar estrangulado, suas pernas vacilando. Caelan a segurou antes que ela caísse, mas percebeu que não era fraqueza. A temperatura ao redor deles havia subido drasticamente.
O ar frio das ruínas foi varrido.
Caelan sentiu os pelos do braço se arrepiarem, a estática pinicando sua pele através das roupas sujas. Uma lufada pesada e úmida bateu contra o topo de sua cabeça, bagunçando seus cabelos.
Não era um vento vindo dos túneis laterais.
O vento quente vinha de cima.
O som molhado de sangue pingando bateu no mármore a centímetros da bota de Gravios. Ploc.
— Formação… — Gravios sussurrou, a voz tensa, puxando a espada com um raspão metálico.
Lentamente, os quatro levantaram as cabeças.
Cravado a quase vinte metros de altura, agarrado à lateral de um dos pilares colossais da praça, estava o Racrydoth Alfa.
Ele não havia atacado pelas ruas. Ele não havia corrido em direção à luz do sinalizador. Ele os havia flanqueado pelos tetos e pelas sombras altas da cidade morta. Estava de cabeça para baixo, como um morcego grotesco do tamanho de uma casa.
O sangue escuro escorria de um corte profundo em seu flanco, pingando diretamente na praça.
O olho vermelho e colossal se abriu na penumbra, fixo diretamente neles. E, enquanto a fera abria suas mandíbulas, o vento quente os engoliu de vez, não trazendo um rugido, mas o som de mil vozes esquecidas chorando ao mesmo tempo.

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