Capítulo 1 - Brilho
O brilho nos olhos era a única coisa verdadeiramente humana que ainda irradiava luz.
Caelan e Liriel brincavam como nunca sob a forte tempestade noturna. As risadas sinceras ecoavam pelas ruas de pedra de Lancrey, a capital do mundo.
— Fica vendo, Liri. Um dia, eu vou ser o melhor explorador que já exis… — Antes de conseguir terminar a frase, o garoto escorregou em uma poça de lama.
Liriel, logo atrás, desabou em gargalhadas.
— Se quiser ser um explorador, pelo menos aprenda a ficar de pé! — ela provocou, estendendo a mão. — Vem, vamos voltar.
Caelan segurou a mão da garota, fingindo que ia se levantar, apenas para puxá-la para a lama junto com ele. Os dois riram até perder o fôlego, com as roupas encharcadas e sujas.
— Você não tem jeito… — ela resmungou entre sorrisos.
Eles viviam sob os cuidados do General Gravios — um homem que raramente retornava do Fronte — em uma casa espaçosa e de arquitetura imponente, mas que frequentemente parecia vazia. Naquela noite, depois de se limparem, adormeceram na mesma cama. Deitaram-se de frente um para o outro, as pontas dos dedos se tocando no meio do colchão.
Naquela noite, seus olhos ainda brilhavam.
Nenhum dos dois poderia imaginar que aquele mesmo brilho seria exatamente o que o mundo precisaria um dia.
…
O fogo crepitou.
As gotas da chuva desapareceram.
O calor daquela memória, aos poucos, se desfez em cinzas.
— Caelan.
Uma voz áspera cortou o véu do sonho.
— Acorde.
Seus olhos se abriram de supetão. O cheiro denso de fumaça e ferrugem substituiu instantaneamente o frescor da chuva. A fogueira ardia fraca diante dele, lutando contra as trevas.
O Fronte continuava ali.
Imenso.
Morto.
A pesada mão do General Gravios repousava em seu ombro.
— Encontramos algo.
Caelan respirou fundo, o ar frio arranhando a garganta, e se levantou. Ao redor das brasas, os outros seis exploradores já recolhiam seus equipamentos em silêncio, o clique metálico das armas se misturando ao chiar das lanternas de carvão recém-acesas.
Ninguém sorria no Fronte.
Ao longe, engolida por muralhas despedaçadas e árvores retorcidas e negras, uma abertura estreita havia surgido nas ruínas.
Era como se a própria escuridão tivesse se partido ao meio.
E, do interior daquela fenda…
soprava um vento quente.
— Fiquem em alerta. — A voz de Gravios era baixa, mas não admitia réplica.
Ele avançava na frente do esquadrão. Logo atrás estava Trok, um homem baixo e esguio, com os dedos nervosos acariciando o gatilho de sua besta. Os virotes carregavam pontas escuras e porosas, forjadas para entrar em combustão ao contato com o sangue exímio. Ao seu lado esquerdo caminhava Vorn, um veterano de ombros largos que carregava um escudo de ferro enegrecido, tão colossal que cobria mais da metade do seu corpo, servindo como uma muralha móvel ao lado do General.
Caelan e Mirel seguiam na retaguarda, protegidos pelo centro da formação.
A fenda era estreita demais, forçando a rocha contra os ombros de quem tentasse passar. Gravios ergueu a mão, parando o grupo.
— Eu vou primeiro. Sinalizo se estiver seguro. — Todos acenaram com a cabeça, em um silêncio tenso.
O caminho não parecia ter sido esculpido pelo tempo ou pela água. Era um buraco cavado às pressas, com as bordas da pedra brutalmente estilhaçadas. Enquanto espremia o corpo pela passagem, Gravios notou fios presos nas arestas da rocha.
Pelagem azul.
Grossa, rígida como arame e carregada de uma estática sutil que pinicava a pele. Rastros de um Racrydoth. Um Xemio Maior.
Ao emergir na saída da fenda, Gravios sacou a espada longa num movimento mudo. O que seus olhos encontraram fez sua respiração travar por um milésimo de segundo.
Não havia apenas alguns fios soltos. Havia centenas de milhares deles. A pelagem azul cobria as ruínas do outro lado como um musgo doentio e elétrico, forrando o chão de pedra quebrada e as paredes de uma antiga abóbada desmoronada.
Havia algo ali. Algo grande.
Ele deu duas batidas secas com o cabo da pesada espada na parede de pedra da fenda. O sinal.
Trok foi o primeiro a escorregar para fora, seguido pelos passos pesados de Vorn, que imediatamente cravou a base do escudo no chão, criando uma barricada.
Quando chegou a vez de Caelan, o garoto prendeu a respiração e atravessou. Assim que pisou do outro lado, o vento quente bateu contra seu rosto. Não era apenas calor. Tinha o cheiro úmido de cobre e carne apodrecida.
O garoto apertou o cabo da sua lâmina, o coração martelando contra as costelas. Ele olhou ao redor, tentando enxergar além do pequeno círculo de luz de suas lanternas de carvão, mas a escuridão do Fronte parecia engolir a claridade.
Mirel passou pela fenda logo em seguida.
Ela não sacou uma arma. Em vez disso, seus olhos se arregalaram. As mãos pálidas da garota começaram a tremer levemente, e ela agarrou a ponta da capa de Caelan com força suficiente para rasgar o tecido.
Caelan olhou para ela, confuso, prestes a sussurrar uma pergunta.
Mas Mirel balançou a cabeça freneticamente. Os olhos dela não olhavam para o chão forrado de pelos azuis. Olhavam para cima, para a escuridão no teto da abóbada.
— O vento… — ela sussurrou, a voz trêmula soando mais como a de uma criança assustada do que a de uma exploradora. — Caelan… o vento quente não está vindo de fora.
Gravios girou o corpo lentamente, a expressão endurecendo como pedra.
O vento quente tinha um ritmo.
Era uma respiração.
Gravios ergueu lentamente a lanterna de carvão. A luz trêmula lambeu as paredes até alcançar o teto da abóbada desmoronada.
Lá em cima, ancorado às vigas de pedra por garras do tamanho de lanças, estava a origem do vento.
— Cacete.
A palavra rasgou a garganta de Gravios num sussurro áspero, quase engasgado. Para Caelan, aquele som foi mais aterrorizante do que o rugido de qualquer monstro. O inabalável, o lenda viva de Lancrey… acabara de hesitar. O medo contido em sua voz era palpável.
Era um Racrydoth. Mas as proporções estavam todas terrivelmente erradas. A criatura era uma montanha colossal de músculos tensionados e carapaça escura, encolhida nas sombras superiores. A espessa pelagem azul desprendia-se de seu corpo em tufos constantes, flutuando até o chão como uma neve doentia, carregada de uma estática que fazia os pelos dos braços de Caelan se arrepiarem.
Ele estava dormindo. O “vento” era o ar quente expulso de suas narinas monstruosas a cada exalação profunda e rítmica.
Vorn apertou o cabo de seu escudo escudo colossal, os nós dos dedos ficando brancos.
— Pelos Deuses… — sussurrou Trok, os olhos arregalados, o dedo tremendo no gatilho da besta. — Olhem o tamanho desse desgraçado. Ele é maior do que a própria passagem.
Caelan sentiu o estômago despencar. O raciocínio lógico o atingiu como um soco no peito, roubando-lhe o ar.
— Ele não entrou por ali… — o garoto murmurou, a voz falhando, os olhos fixos na abominação acima.
— Ele cavou a fenda. — Vorn completou, a voz grave reduzida a um fio de som. — Aquelas marcas na pedra não eram de garras raspando de passagem. Eram de escavação. Ele rasgou a rocha maciça pra fazer um ninho.
— Temos que recuar. Agora. — A voz de Trok era urgente, beirando o pânico absoluto. — Se essa coisa acordar, não tem formação de escudo que segure. Ele vai soterrar a saída com um golpe e esmagar todo mundo.
— Se nos movermos rápido demais, a mudança na corrente de ar vai acordá-lo — retrucou Gravios, o tom voltando a ser a lâmina de gelo e autoridade de sempre. Ele abaixou a lanterna ligeiramente, protegendo a luz para não ofuscar os olhos fechados da besta. — Isso é um Alfa. A audição de um bicho desse tamanho capta o ritmo do batimento cardíaco de vocês. Parem de ofegar.
O silêncio engoliu o grupo. A respiração pesada e quente do Racrydoth batendo contra as pedras era a única coisa que importava no mundo. O tempo parecia ter parado.
Foi então que Caelan notou algo errado ao seu lado.
Mirel não estava olhando para a criatura com medo. Ela estava de olhos fechados, as mãos apertando as próprias orelhas com tanta força que as unhas sujas marcavam a pele pálida.
— Mirel? — Caelan sussurrou, tocando levemente o ombro da garota.
Ela abriu os olhos. Estavam marejados, mas não de pânico. Havia uma tristeza profunda, ancestral, que não pertencia ao rosto de uma criança.
— Ele não tá dormindo, Caelan… — ela sussurrou de volta, a voz embargada por uma melancolia dolorosa.
Lentamente, a garota ergueu um dedo magro, apontando diretamente para o centro do peito colossal do monstro, onde a pelagem azul grossa cedia espaço a uma couraça mais exposta.
Caelan e Gravios forçaram a vista através da penumbra.
Lá, pulsando lentamente sob a pele translúcida e as costelas grossas da criatura, não havia o brilho vermelho e corrompido de um núcleo exímio.
Havia a luz púrpura, quente e crepitante de uma fogueira humana corrompida.
— Ele engoliu uma fogueira inteira… engoliu as memórias deles… — Mirel murmurou, enquanto uma única lágrima escorria por seu rosto sujo de cinzas. — E ele tá chorando.
Nesse exato momento, o som do vento quente mudou de tom. Não era mais uma exalação de sono.
Era um lamento baixo. E um gigantesco olho vermelho se abriu na escuridão.

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