Capítulo 109: Uma Forma de Entrar
O grupo discutiu até tarde da noite, mas não chegou a nenhuma conclusão.
Depois disso, designaram o sentinela para a vigília noturna, e cada um retornou à tenda para descansar e meditar.
Leylin se deitou em uma simples cama forrada com pele de lobo branco, enquanto a inquietação lhe agitava o peito.
Para ele, aquela herança que ninguém conhecia agora tinha sido revelada aos demais. Além disso, o escaneamento do Chip de I.A. não tinha dado nenhum resultado. Isso o deixava bastante irritado.
Até mesmo a meditação que fazia diariamente teve de ser adiada.
‘Talvez eu não devesse depositar todas as esperanças aqui. A costa sul é extremamente vasta. A cada dezena de anos, algum acólito tropeça em uma herança e obtém recursos para avançar a Mago oficial. Há muitas oportunidades…’
Leylin se consolou e, em seguida, riu de si mesmo.
A princípio, tinha considerado a herança do Grande Mago Serholm como algo que lhe pertencia, o que o tinha levado à obsessão. Até mesmo o raciocínio mais básico de um mago tinha sido afetado por isso.
E Jayden e os demais estavam na mesma situação.
‘Que irritante, ignorei os perigos!‘ De repente, a expressão de Leylin ficou tranquila.
‘Matamos todos os acólitos da Cabana do Sábio Gotham. O outro lado certamente vai ficar de olho em nós e enviar acólitos poderosos, ou até Magos oficiais, para investigar…’
‘Com base na localização da Cabana do Sábio Gotham, ainda tenho cerca de 10 dias até a informação chegar a eles…’
‘8 dias! Se em 8 dias eu ainda não tiver descoberto nenhuma pista aqui, devo partir.’ O olhar de Leylin refletia determinação.
Em comparação com a herança do Grande Mago Serholm, Leylin valorizava a própria vida ainda mais.
Tendo decidido assim, sentiu como se tivessem tirado um peso dos ombros, e até a força espiritual parecia purificada, de modo que entrou no estado de meditação.
Na manhã seguinte, o grito agudo de uma cotovia ecoou acima do acampamento.
Leylin cumprimentou Shaya: “Bom dia!”
“Bom dia!” disse Shaya, com olheiras escuras. Parecia que não tinha pregado o olho na noite anterior. Vasos sanguíneos eram nitidamente visíveis nos olhos. O olhar que devolveu a Leylin era de pura incredulidade.
“Eu me pergunto… como é que você consegue ficar tão… relaxado?” Depois de se conter por algum tempo, Shaya finalmente perguntou.
“Estamos falando da herança de um Mago oficial, há uma chance de obter informações e recursos que nos ajudariam a avançar…”
“Mas ainda não encontramos, não é mesmo?”
Leylin, de frente para o sol nascente, espreguiçou-se satisfeito.
“Enquanto algo não for seu, não se deve ficar obcecado demais. Do contrário, o coração só vai sofrer.”
“Você é realmente muito estranho!” Shaya passou a mão pela testa e continuou: “Entretanto, Magos e acólitos são todos pessoas peculiares, então você pode ser considerado normal!”
“Pode ser!” Leylin assentiu, pensando que, se essas pessoas descobrissem que os vestígios tinham sido deixados pelo Grande Mago Serholm, a situação poderia piorar.
Mas certamente não lhes revelaria essa informação.
Os cinco saíram das tendas e se reuniram para o desjejum, uma ave assada. Depois, sentaram-se juntos para discutir como proceder.
“Certo! Hoje será mais um dia de explorações individuais! Façam o possível para encontrar os vestígios!” disse Jayden. Depois de ver que a discussão se arrastava sem resultado, não teve outra opção senão dizer isso.
Essa era também a ação mais apropriada para a situação atual.
Embora fosse possível que qualquer acólito encontrasse a entrada primeiro, uma vez aberta, Jayden e os demais conseguiriam localizá-la pelas ondas de energia. No máximo, quem descobrisse a entrada receberia uma porção maior da recompensa.
“O que está fazendo?”
Depois que todos se dispersaram em diferentes direções, Jayden, ao ver que Leylin ainda permanecia hesitando no topo do penhasco, inclinado para apreciar as Margaridas Beta, acabou perguntando.
“É o que você vê. Aprecio as flores,” disse Leylin, com um leve sorriso nos lábios.
“Num momento como este?” Os olhos de Jayden ficaram vermelhos; fez menção de repreender Leylin.
“Calma! Não se irrite!” Leylin fez um gesto para detê-lo.
“Ontem todos nós procuramos pistas na base do penhasco, mas não descobrimos esse segredo escondido no mar de flores!”
“Segredo? Quer dizer que encontrou?” Jayden pareceu extasiado.
“O quê? Leylin encontrou?” Sou! Sou! Sou! Três sombras surgiram ao lado de Jayden e Leylin.
Eram os outros três acólitos, que não tinham se afastado muito.
“Hm!” Diante de todos, Leylin assentiu lentamente.
“Alguém que saiba algum feitiço de flutuação, voe lá para cima e dê uma olhada!” falou Leylin.
“Eu faço!” Bosain imediatamente retirou uma esfera metálica prateada. A esfera emanava ondas de energia de Artefato Mágico.
Em seguida, Bosain girou a esfera, que derreteu e se transformou em líquido. O líquido aderiu às costas e formou duas enormes e deslumbrantes asas prateadas.
“É um Artefato Mágico que muda de forma conforme a necessidade!” observou Leylin.
Provavelmente alcançava o padrão de um Artefato Mágico de grau médio, estimou Leylin. O sintetizador tinha reduzido o poder para que um acólito pudesse utilizá-lo.
Somente grandes famílias com séculos de tradição poderiam se dar ao luxo de métodos tão extravagantes.
Chi La! Uma enorme asa prateada translúcida bateu, levantando poeira do chão. Com o impulso, Bosain alçou voo.
“E então? Consegue ver alguma coisa?” gritou Jayden lá de baixo.
“Flores… A disposição das Margaridas Beta…”
Uma rajada de vento passou e Bosain desceu ao chão, recolhendo as asas de volta ao corpo.
“Esse canteiro de Margaridas Beta foi plantado de propósito. Elas formam um caractere!”
Bosain explicou aos demais.
“Que caractere?” perguntaram Shaya e Roth.
“É uma letra em Linguagem Curageriana, e o significado é ‘saltar’!” disse Leylin.
“Saltar? Será que temos que pular direto do penhasco?” deduziu Jayden. Acólitos não eram tolos, apenas o julgamento deles tinha sido turvado pelas recompensas que vislumbravam.
“Já não saltamos ontem?”
Roth coçou a cabeça. “Não encontramos nada, apenas aquelas malditas rochas na base do penhasco!”
“Não! Você desceu escalando. Quanto a nós, usamos o Feitiço de Pena Flutuante para descer!” interrompeu Bosain.
“Agora entendo, os vestígios estão em um plano secreto. E a forma de entrar é pular diretamente do penhasco sem usar nenhum feitiço!”
“Pular direto? Ficou louco?” Shaya torceu os belos cabelos vermelhos. “Um penhasco tão alto com tantas lâminas de rocha na base. Se não usarmos nenhum feitiço de defesa, com o corpo que temos, até Roth morreria na queda!”
“Então precisamos de cobaias!”
Jayden disse: “Vão procurar alguns animais, ou melhor ainda, humanos!”
“É possível! Mas não criem muitas esperanças!” Roth retirou um monte de tentáculos da bolsa e partiu apressado.
“Devemos procurar nos arredores também. Se não encontrarmos nada, voltamos à cidade!” Jayden exibiu um sorriso pela primeira vez…
“Ahhhhh….”
Gritos aterrorizados ecoavam do penhasco. E com a forte pressão do vento, as vozes saíam distorcidas.
Bang!
Um ponto negro caiu do topo do penhasco, crescendo cada vez mais, até que uma silhueta humana apareceu.
Era um civil da cidade que vestia trajes de caçador. O rosto se contorceu enquanto soltava um grito infernal, o corpo em queda livre.
Sou!
O caçador se espatifou numa lâmina de rocha e a enorme força do impacto partiu o corpo em dois.
O cadáver, partido ao meio, caiu no chão criando uma vasta cratera. Os ossos e a carne se misturaram; a aparência original era irreconhecível.
Ao lado dessas duas crateras, havia uma menor.
A cena era igualmente sangrenta, porém o crânio pertencia a um animal semelhante a um cervo.
“Qual foi o resultado?”
Na base do penhasco, Roth cruzou os braços e inspecionou a cena. Shaya também estava ao lado. Diante dele, havia um objeto semicircular que brilhava em verde. Daquele objeto, saía a voz de Jayden.
“Nada de novo! É apenas mais pasta de carne. O resultado é semelhante ao do cervo de antes!” disse Roth com desdém. “Parece que nosso plano falhou…”
No topo do penhasco, Leylin e os outros dois se aglomeraram ao redor. Ao ouvir a voz vinda da outra metade do objeto semicircular verde, a expressão de todos era de decepção.
“Do começo com um animal até o final com um humano. Parece que há outras condições que precisam ser cumpridas!”
Leylin foi o primeiro a se recuperar do desânimo.
“Pensemos com cuidado, estamos ficando sem espécimes para testar!” Bosain exibiu um sardônico sorriso, apontando para o terreno vazio próximo.
No terreno, havia alguns civis da Cidade da Lua Cítara que olhavam horrorizados para Leylin e os demais. Se não estivessem amordaçados, provavelmente xingariam ou implorariam por piedade.
Desde que Jayden tinha sugerido encontrar substitutos, os cinco tinham se dividido e cumprido a tarefa.
Bosain foi o mais impiedoso, aparentemente, tinha voltado à cidade para sequestrar alguns civis.
Para as famílias de magos de elite de onde vinha, os humanos comuns eram como capim. Não importava quantos fossem ceifados, mais surgiriam no futuro. Poder morrer pela causa dele era a glória deles!
Embora Leylin não concordasse com isso, ir contra Bosain por meros estranhos não valia a pena.
Além disso, usar espécimes humanos resultava em uma margem de erro menor do que com um cervo. Isso também servia aos interesses de Leylin!
Ao mesmo tempo, ficou extremamente surpreso com a velocidade de Bosain.
“Pular representaria coragem! De acordo com o mapa, também deve haver ‘respeito’!” Leylin expôs a própria conjectura.
“E o que seria ‘respeito’?” perguntou Bosain.
“Nos tempos antigos, quando as pessoas visitavam os anciãos, levavam uma Margarida Beta para demonstrar respeito. Esse costume perdura até hoje, e muitos lugares na costa sul mantiveram essas tradições!”
Leylin sorriu e disse.

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