Capítulo 82 - Companheiro de Viagem Inusitado
Fenrir cavalgava ao lado dela e aquilo, por si só, já era um problema, pois Anayê não confiava nele e pensava ter bons motivos para isso.
Ele já tinha traído sua aldeia uma vez. Quem afirmaria que não faria o mesmo quando eles estivessem de frente ao perigo?
O único som entre os dois desde sua saída das Colinas Verdes era os cascos dos cavalos e o silêncio. Desconfortável, pesado e intragável.
O fato mais incômodo era que ele passara pelo quarto do ceifador. Isso incomodava mais do que gostaria de admitir.
Entretanto, o tempo passava de forma diferente dentro do quarto. Enquanto ela tinha vivido um mês, Fenrir poderia ter vivido meses. Quem sabe tempo suficiente para mudá-lo.
O sol já dominava o céu quando fizeram uma breve parada. Comeram em silêncio, como se qualquer palavra pudesse abrir algo que nenhum dos dois queria enfrentar.
Depois, voltaram à estrada.
E o silêncio continuou.
Anayê estava povoada por pensamentos diversos, mas foi Fenrir quem falou primeiro.
— Acho que seus pensamentos estão escapando pelos poros da pele.
Ela virou o rosto devagar e fitou-o por um longo instante com um olhar firme e penetrante. Ele não desviou.
— Não te conheço muito, mas o suficiente para entender que não está à vontade.
Anayê voltou os olhos para a estrada e disse:
— As pessoas costumam dizer que sou fácil de decifrar.
— Bem, ficar calada metade do dia é uma pista bastante clara.
Um breve silêncio.
— Me desculpe.
— Não precisa.
— É que… — ela suspirou. — Eu não esperava ter companhia nessa missão.
— O mestre me contou. Disse que talvez você resistisse.
— Não é resistência. Veja bem, para você deve ter se passado muito tempo, mas para mim foram poucas semanas.
Uma pausa, como se ela estivesse escolhendo as palavras.
— Eu ainda não consigo te enxergar como um ceifador.
Fenrir soltou um sopro curto, quase um riso.
— Bah! E você acha que eu consigo?
Ela fitou-o de novo. Dessa vez, ele não retribuiu o olhar, continuou fixo na estrada e no céu.
— Eu nem me acostumei a estar longe da minha casa — disse mais para si do que para ela. — Os dias de treinamento foram dias de constante alegria e também solidão.
Ele pausou, pensativo.
— Sei que ganhei uma segunda chance — continuou. — Mas acho que vai levar um tempo até as pessoas me verem de maneira diferente.
— Foi isso que o Deus sem face te disse?
Fenrir abaixou a cabeça, sorriu com os lábios fechados.
— Não.
Ergueu o olhar.
— Ele disse que me aceitava.
O silêncio retornou, mas dessa vez, era diferente.
Anayê sorriu.
— E acho que essa é a parte mais difícil para mim — ele confessou. — Eu não precisei provar nada, pelo contrário, ganhei tantas honras e poderes sem pagar nenhuma moeda.
— Vai se acostumando.
— Pois é… — ele coçou a parte de trás da cabeça, meio sem jeito. — Eu só… quero fazer valer a pena. Retribuir a bondade dos Três.
— Então somos dois.
Outro silêncio. Mais curto.
— E… — ele continuou, sério. — Obrigado.
Ela franziu a testa.
— Pelo que disse no Ribeiral — os olhos dele não vacilaram. — Aquilo ficou comigo.
Anayê sustentou o olhar.
— Eu tento fazer apenas o que o meu Deus teria feito.
E, pela primeira vez desde a saída, o silêncio entre os dois não parecia mais um problema.
Eles fizeram um acampamento improvisado, dormiram e se levantaram antes do amanhecer. Comeram pouco e falaram menos ainda.
Porém, quando a estrada voltou a engolir os dois, Anayê contou mais sobre o caso das crianças sequestradas e ele ouviu tudo sem interromper.
— Isso parece muito sério — Fenrir falou, ao fim.
— Sinto que perdi tempo demais esperando pelo mestre.
— Mas você não esperou pelo mestre.
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Esperou por mim.
— Ah, claro — ela disse, debochada.
Fenrir não sorriu.
— Não estou brincando.
O tom fez Anayê olhar de novo.
— Quando retornei do quarto do ceifador e fui até a ilha flutuante… os Três falaram comigo.
Por mais uma vez, o som dos cascos na estrada pavimentada se tornou mais alto.
— Disseram que eu sairia em uma missão muito importante — Ele suspirou. — E perigosa.
Anayê cerrou os olhos.
— E que a minha fé seria testada.
A ceifadora ponderou a revelação com cuidado.
— Acho que o Deus sem face me queria na missão desde o início — ele concluiu.
Ela olhou para frente, para a estrada.
— E falaram alguma coisa sobre mim?
Fenrir balançou a cabeça, negativo.
Anayê comprimiu os lábios, ainda pensativa.
O dia passou mais pesado a partir daquela conversa como se uma sombra estivesse crescendo sobre eles.
Eles chegaram na fronteira entre Skell e Brakivad depois de dois dias. Não havia placa indicando que estavam cruzando o limite de um reino, apenas uma ponte de pedra sob um rio calmo e cristalino.
— Aqui — Fenrir disse. — Foi mais longe que cheguei quando criança.
Ele observou a beira do rio como se ainda fosse um menino.
— A gente saía escondido do Ribeiral, achando que estava explorando o mundo — seu tom emocional prevaleceu. — Bons tempos.
Anayê ouviu e pensou em responder. Pensou em dizer que nunca teve esse tipo de liberdade.
Mas ficou em silêncio.
A grande estrada chamada Rota dos Reinos continuava de um reino a outro com locais melhores pavimentados e outros piores. Às vezes, árvores compunham o cenário. Às vezes, grama baixa com flores coloridas.
Fizeram a primeira pausa em Brakivad numa hospedaria de beira de estrada quando a noite estava a pino. Era um local quase aconchegante. Banho quente, comida de verdade e uma cama macia.
Eles compraram comida para levar na viagem, pois o estalajadeiro garantiu que a próxima cidade ficava a dois dias de distância.
Porém, ao sair da hospedaria, os olhos de Anayê se depararam com uma placa tosca pregada em uma tora de madeira, bem na frente do estabelecimento. A ceifadora se aproximou, desconfiada.
Fenrir preparava a sela de seu cavalo quando notou a ação dela.
— O que foi?
Anayê levou um segundo de silêncio antes de responder.
— Uma recompensa.
— Ah, normal por aqui. Brakivad é conhecido por seus caçadores de recompensa.
Ela não tirou os olhos da placa.
— Não é uma recompensa qualquer.
— Como assim?
— Uma recompensa por um ceifador.
Ela se virou para o companheiro de viagem.
Fenrir estreitou os olhos.
— Cem moedas pela captura do ceifador Heitor Caolho — ela continuou. — Vivo ou morto.
Acima da mensagem, havia o desenho de um homem de bigode com um tapa-olho.
— Por que um ceifador seria procurado como criminoso? — Anayê questionou.

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