Índice de Capítulo

    Fenrir cavalgava ao lado dela e aquilo, por si só, já era um problema, pois Anayê não confiava nele e pensava ter bons motivos para isso.
    Ele já tinha traído sua aldeia uma vez. Quem afirmaria que não faria o mesmo quando eles estivessem de frente ao perigo?
    O único som entre os dois desde sua saída das Colinas Verdes era os cascos dos cavalos e o silêncio. Desconfortável, pesado e intragável.
    O fato mais incômodo era que ele passara pelo quarto do ceifador. Isso incomodava mais do que gostaria de admitir.
    Entretanto, o tempo passava de forma diferente dentro do quarto. Enquanto ela tinha vivido um mês, Fenrir poderia ter vivido meses. Quem sabe tempo suficiente para mudá-lo.
    O sol já dominava o céu quando fizeram uma breve parada. Comeram em silêncio, como se qualquer palavra pudesse abrir algo que nenhum dos dois queria enfrentar.
    Depois, voltaram à estrada.
    E o silêncio continuou.
    Anayê estava povoada por pensamentos diversos, mas foi Fenrir quem falou primeiro.
    — Acho que seus pensamentos estão escapando pelos poros da pele.
    Ela virou o rosto devagar e fitou-o por um longo instante com um olhar firme e penetrante. Ele não desviou.
    — Não te conheço muito, mas o suficiente para entender que não está à vontade.

    Anayê voltou os olhos para a estrada e disse:

    — As pessoas costumam dizer que sou fácil de decifrar.

    — Bem, ficar calada metade do dia é uma pista bastante clara.

    Um breve silêncio.

    — Me desculpe.

    — Não precisa.

    — É que… — ela suspirou. — Eu não esperava ter companhia nessa missão.

    — O mestre me contou. Disse que talvez você resistisse.

    — Não é resistência. Veja bem, para você deve ter se passado muito tempo, mas para mim foram poucas semanas. 

    Uma pausa, como se ela estivesse escolhendo as palavras.

    — Eu ainda não consigo te enxergar como um ceifador.

    Fenrir soltou um sopro curto, quase um riso.

    — Bah! E você acha que eu consigo?

    Ela fitou-o de novo. Dessa vez, ele não retribuiu o olhar, continuou fixo na estrada e no céu.

    — Eu nem me acostumei a estar longe da minha casa — disse mais para si do que para ela. — Os dias de treinamento foram dias de constante alegria e também solidão. 

    Ele pausou, pensativo.

    — Sei que ganhei uma segunda chance — continuou. — Mas acho que vai levar um tempo até as pessoas me verem de maneira diferente.

    — Foi isso que o Deus sem face te disse?

    Fenrir abaixou a cabeça, sorriu com os lábios fechados.
    — Não.

    Ergueu o olhar.

    — Ele disse que me aceitava.

    O silêncio retornou, mas dessa vez, era diferente.

    Anayê sorriu.

    — E acho que essa é a parte mais difícil para mim — ele confessou. — Eu não precisei provar nada, pelo contrário, ganhei tantas honras e poderes sem pagar nenhuma moeda.

    — Vai se acostumando.

    — Pois é… — ele coçou a parte de trás da cabeça, meio sem jeito. — Eu só… quero fazer valer a pena. Retribuir a bondade dos Três.

    — Então somos dois.

    Outro silêncio. Mais curto.

    — E… — ele continuou, sério. — Obrigado.

    Ela franziu a testa.

    — Pelo que disse no Ribeiral — os olhos dele não vacilaram. — Aquilo ficou comigo.

    Anayê sustentou o olhar.

    — Eu tento fazer apenas o que o meu Deus teria feito.

    E, pela primeira vez desde a saída, o silêncio entre os dois não parecia mais um problema.

    Eles fizeram um acampamento improvisado, dormiram e se levantaram antes do amanhecer. Comeram pouco e falaram menos ainda.

    Porém, quando a estrada voltou a engolir os dois, Anayê contou mais sobre o caso das crianças sequestradas e ele ouviu tudo sem interromper.

    — Isso parece muito sério — Fenrir falou, ao fim.

    — Sinto que perdi tempo demais esperando pelo mestre.

    — Mas você não esperou pelo mestre.

    Ela arqueou as sobrancelhas.

    — Esperou por mim.

    — Ah, claro — ela disse, debochada.

    Fenrir não sorriu.

    — Não estou brincando. 

    O tom fez Anayê olhar de novo.

    — Quando retornei do quarto do ceifador e fui até a ilha flutuante… os Três falaram comigo.

    Por mais uma vez, o som dos cascos na estrada pavimentada se tornou mais alto.

    — Disseram que eu sairia em uma missão muito importante — Ele suspirou. — E perigosa.

    Anayê cerrou os olhos.

    — E que a minha fé seria testada.

    A ceifadora ponderou a revelação com cuidado.

    — Acho que o Deus sem face me queria na missão desde o início — ele concluiu.

    Ela olhou para frente, para a estrada.

    — E falaram alguma coisa sobre mim?

    Fenrir balançou a cabeça, negativo.

    Anayê comprimiu os lábios, ainda pensativa.

    O dia passou mais pesado a partir daquela conversa como se uma sombra estivesse crescendo sobre eles.

    Eles chegaram na fronteira entre Skell e Brakivad depois de dois dias. Não havia placa indicando que estavam cruzando o limite de um reino, apenas uma ponte de pedra sob um rio calmo e cristalino.

    — Aqui — Fenrir disse. — Foi mais longe que cheguei quando criança.
    Ele observou a beira do rio como se ainda fosse um menino.
    — A gente saía escondido do Ribeiral, achando que estava explorando o mundo — seu tom emocional prevaleceu. — Bons tempos.
    Anayê ouviu e pensou em responder. Pensou em dizer que nunca teve esse tipo de liberdade.

    Mas ficou em silêncio.

    A grande estrada chamada Rota dos Reinos continuava de um reino a outro com locais melhores pavimentados e outros piores. Às vezes, árvores compunham o cenário. Às vezes, grama baixa com flores coloridas.

    Fizeram a primeira pausa em Brakivad numa hospedaria de beira de estrada quando a noite estava a pino. Era um local quase aconchegante. Banho quente, comida de verdade e uma cama macia.

    Eles compraram comida para levar na viagem, pois o estalajadeiro garantiu que a próxima cidade ficava a dois dias de distância.

    Porém, ao sair da hospedaria, os olhos de Anayê se depararam com uma placa tosca pregada em uma tora de madeira, bem na frente do estabelecimento. A ceifadora se aproximou, desconfiada.

    Fenrir preparava a sela de seu cavalo quando notou a ação dela.

    — O que foi?

    Anayê levou um segundo de silêncio antes de responder.

    — Uma recompensa.

    — Ah, normal por aqui. Brakivad é conhecido por seus caçadores de recompensa.

    Ela não tirou os olhos da placa.

    — Não é uma recompensa qualquer.

    — Como assim?

    — Uma recompensa por um ceifador.

    Ela se virou para o companheiro de viagem.

    Fenrir estreitou os olhos.

    — Cem moedas pela captura do ceifador Heitor Caolho — ela continuou. — Vivo ou morto.

    Acima da mensagem, havia o desenho de um homem de bigode com um tapa-olho.

    — Por que um ceifador seria procurado como criminoso? — Anayê questionou.

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