Índice de Capítulo

    O silêncio era pesado. De morte.

    Anayê varria o horizonte com os olhos, mas não enxergava vida. Nenhum animal, nenhum som. Só árvores mortas, retorcidas como garras.

    Ela apertou os braços.

    — Isso tudo… — murmurou Boyak. — É culpa de Astaroth.

    O nome caiu como um peso.

    — Os asseclas dele drenam tudo — continuou. — Terra, gente… esperança.

    Anayê desviou o olhar.

    — Eles não drenam… — disse baixo. — Eles esmagam. A esperança na fortaleza é quase uma lenda, uma coisa vil.

    — A esperança não é vil. Mas depende em quem está a sua esperança. Se estiver em alguém como Astaroth, bem…

    O vento passou seco entre as árvores mortas.

    Boyak lançou um olhar de canto.

    — Nos reinos livres é diferente.

    A moça fitou-o. Seu rosto transmitia uma tranquilidade que inquietava, uma calma que nunca vira em ninguém. Os maggs só demonstravam raiva e desprezo, os escravos só ofereciam medo e desespero, e os generais expressavam apenas obediência e religiosidade cega. Porém, ele era diferente. Mesmo ali, diante de tamanha devastação e crueldade, contemplava uma paz imperturbável em seu semblante. Como ele consegue ficar tão… despreocupado?.

    — Eu sei que sou bonito — ele disse de repente — mas você pode parar de me encarar?

    Anayê piscou, confusa.

    — Bonito?

    Ele pensou por um segundo.

    — Certo… talvez “irresistível” seja mais preciso.

    Ela soltou um riso curto, quase sem querer, e isso a assustou mais do que o silêncio.

    Boyak sorriu de canto.

    — Cuidado — disse, debochado. — As pessoas podem ter problemas sérios com a sua beleza.

    — Mas você não parece ser uma delas.

    — Acredito que não. Mas a culpa não é minha por ser tão perfeito.

    O cavalo bufou como se discordasse. Os dois explodiram em risadas. 

    Dessa vez, ela se permitiu rir alto. E como era gostosa a sensação de ouvir sua própria risada.

    E, por um instante, o mundo pareceu menos morto.

    Boyak puxou uma pêra do alforje e jogou para ela.

    — Come. Vai precisar de força.

    Anayê segurou a fruta com cuidado, ainda desconfiada. Deu uma mordida. Doce.

    Quase estranho demais depois de tanto tempo.

    — Posso perguntar uma coisa?

    — Já perguntou.

    Ela ignorou.

    — De onde você é?

    Boyak pensou por um instante.

    — Não sei se pertenço a algum lugar — respondeu. — Mas, no momento, moro nas Colinas Alegres com meu mestre.

    O nome soou errado naquele cenário morto.

    — Parece um bom lugar…

    — É — ele deu de ombros. — Tirando meu mestre.

    — Ele é ruim?

    — Ele é… chato.

    Anayê quase sorriu.

    — Se esse lugar é tão bom — ela continuou. — por que você veio pra cá?

    Pela primeira vez, o ar dele mudou.

    — Porque alguém precisa vir.

    Ela ficou quieta.

    — Sou um ceifador — ele completou.

    — Ceifador de aberrações?

    — O próprio.

    — Achei que fossem só histórias.

    — Às vezes eu também acho.

    Ela o analisou.

    — Então… você mata monstros?

    — Quando eles colaboram.

    — E quando não colaboram?

    — Eu insisto.

    Anayê soltou um pequeno riso, mas logo ficou séria de novo.

    — Na fortaleza diziam que vocês não existem.

    — É compreensível — Boyak coçou a cabeça, seu tom era de desculpas. — Não temos um comando ou guilda, nem somos muito unidos. Cada ceifador faz o seu próprio caminho.

    — Eu ainda acho difícil acreditar — disse.

    Boyak apontou para o horizonte.

    — Você viu a torre cair, não viu?

    Ela travou.

    — Foi você?

    — Mais ou menos. O fato de todos acharem que a fortaleza de Astaroth nunca vai ser atacada facilitou o processo.

    — Então você é louco.

    — Bastante.

    Anayê sentia uma aura de orgulho que pairava sobre Boyak.

    — Mesmo assim, acho que te devo um obrigado. Afinal, se você não tivesse feito essa loucura, eu não teria conseguido escapar da fortaleza.

    — Agradeça quando estivermos nos reinos livres.

    — Então que assim seja.

    O sol começou a morrer no horizonte. E com isso, sombras longas e estranhas misturadas ao ar frio apareceram.

    Boyak escolheu um pequeno platô para passarem a noite e os dois começaram a procurar galhos para uma fogueira.

    — Pelo menos isso aqui presta — Boyak comentou. — Madeira morta queima melhor.

    Anayê ainda não tinha tirado suas conclusões sobre Boyak e não estava totalmente convencida dessa história de ceifador, mas era o que tinha por enquanto. Contudo, ele me tratou com dignidade. Ninguém me tratou assim nos últimos dez anos.

    Boyak suspirou.

    — Lá vem aquele olhar…

    Ela desviou rapidamente.

    — Não é nada.

    — Você encara como se estivesse julgando minha alma.

    — É difícil não fazer isso de onde vim.

    — Justo.

    Ele juntou mais alguns galhos.

    — Mas sabia que dá pra falar também?

    Ela hesitou.

    — Eu… só estou tentando entender você.

    — Vou compreender se estiver apaixonada por mim — ele disse, dramaticamente.

    Ela não conseguiu evitar a risada.

    — Qual é? Outras pessoas também já se apaixonaram por mim em um dia.

    — Convencido.

    — Obrigado.

    — Quer saber uma coisa? — ela continuou, tentando disfarçar — você não fica por baixo, né?

    — Nunca.

    Ela abriu um sorriso se sentindo inteiramente bem por dizer o que pensava. Não se saíra tão mal quanto achava. Na verdade, aquele dia estava sendo totalmente satisfatório simplesmente por poder conversar com alguém de igual para igual.

    — Me diz… — ela perguntou, mais leve — vocês fazem fogo com as mãos?

    — Não exatamente.

    — Então como funciona?

    Ele se levantou.

    — Existem quatro tipos de ceifadores…

    O vento passou e Boyak se deteve por um instante. Sentira algo estranho. Não conseguia distinguir o que exatamente. Então, continuou:

    — Manipuladores. Evocadores. Usuários de armas sagradas…

    Anayê escutava com atenção, mas percebeu quando os olhos do ceifador foram para a floresta. 

    — …e potencializadores — ele terminou.

    — E você?

    — Esse aqui — apontou para si. — Força pura.

    Ela recolheu outro galho.

    — Tipo… quanto forte?

    — O suficiente pra abrir uma montanha em duas partes.

    Ela arregalou os olhos.

    — Tá dizendo que pode esmagar minha cabeça?

    — Deixe-me ver… — ele comparou o tamanho de sua mão com o tamanho da cabeça dela. — Ficaria como uma laranja esbagaçada.

    — Eca! Muito obrigada pela imagem mental — ela reclamou.

    O vento parou.

    Boyak paralisou. O semblante congelado em uma expressão séria. 

    Anayê percebeu na hora.

    — O que foi?

    — Cuidado!

    Boyak se moveu abandonando os galhos antes que os olhos dela acompanhassem. Um empurrão bastou para Anayê ser lançada para trás e rolar pelo chão até bater as costas em um tronco.

    — Agh! — berrou de dor.

    Ergueu o rosto, tonta.

    Boyak já estava à frente, imóvel em posição de ataque.

    E, um instante depois, algo pousou levantando poeira seca e galhos esmigalhados.

    Anayê estremeceu quando enxergou uma silhueta alta no meio da poeira. O que é aquilo?, pensou sentindo as pernas estremecerem.

    A criatura deu um passo e o som se assemelhava à ossos raspando. Curvada e magra com o torso aberto e ossos brancos à mostra. Dedos finos como garras pendiam de seus braços compridos. A pele… não era pele. Era algo rasgado, transformado, misturado.

    A cabeça se moveu, oval e disforme, como um cérebro vivo, e três olhos grandes demais apareceram. Não tinha nariz, mas uma boca escura exalando fumaça e baba preta.

    Anayê nunca estivera diante de tamanho horror. Apenas olhá-lo fazia seu corpo inteiro arrepiar.

    Uma aberração.

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