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    Preso com correntes, com ferimentos por todo o corpo, o olhar cabisbaixo e sem esperança. A cela era mal iluminada por apenas uma pequena fresta, logo acima dele. Escutou passos, vindos do corredor, e então o barulho dos passos aumentou, em uma correria.

    — Tio!

    Ele escutou, pensou estar em um sonho, um sonho estranho.

    Ergueu a cabeça lentamente.

    A porta não se abriu, foi arrebentada. As dobradiças se curvaram quando Mei chutou-a em um ato de desespero.

    Não era ilusão, era a realidade.

    — Tio! — repetiu ela novamente, em um tom alegre.

    Wen Qishu Jiahao a encarou perplexo, não havia nada para ele comemorar naquele momento. Seu coração estava cheio de amargura, e de apreensão.

    — Mei… — gaguejou, ainda em negação. — O que aconteceu?

    Ela não respondeu. Ficou em silêncio, enquanto uma lágrima escorria por sua bochecha.

    Ajoelhou-se diante dele e agarrou as correntes, e tentou libertá lo. Mas essas não eram correntes comuns, não aquelas que cultivadores partiam com um simples movimento das mãos.

    — Vá embora! — disse Jiahao. As palavras saíram tão duras quanto o ferro mágico que o prendia. 

    — Não! Você vem comigo! — respondeu ela de volta, em um esforço tolo de quebrar as correntes.

    — Pare, Mei… — murmurou ele, num lamento profundo.

    Ela não o ouviu. Continuou puxando, os dedos trêmulos, até que a voz dele veio outra vez, mais firme:

    — Mei. Pare agora.

    Outra lágrima escorreu. Por fim, ela soltou as correntes e se deixou cair no chão, abatida.

    — Minha querida sobrinha, eu… — gaguejou Jiahao, emotivo demais para formular uma frase coerente.

    — Vou tirar você daqui. Não saio sem você. — Mei ergueu-se e voltou a se aproximar.

    — Vá embora, antes que eles cheguem. É perigoso demais para você…

    — Não. Nós vamos nos vingar deles. Por Song. Por Lu…

    Jiahao sorriu. Havia orgulho naquele gesto, mas também uma melancolia profunda.

    — Como você chegou aqui?

    — Thomas… — respondeu Mei, quase com vergonha de pronunciar o meu nome.

    — Thomas? — repetiu ele, incrédulo. Só então seus olhos pousaram em Lefkó. — Então aquele desgraçado ainda está vivo?

    Uma pequena risada escapou de sua garganta.

    — Ele tem um exército. Foi assim que consegui chegar até você. Ele matou Renyan… e vários anciões. Você estava certo. Thomas é claramente um cultivador demoníaco, mesmo que ele não admita.

    Só de lembrar do navio fantasma e de seus tripulantes, Mei sentiu um arrepio percorrer o corpo.

    Jiahao permaneceu em silêncio. Sabia que era um homem morto. Mas, pela primeira vez em muito tempo, via uma possibilidade de futuro para Mei.

    — Minha sobrinha… escute com atenção. — Ele engoliu em seco, como se cada palavra lhe custasse algo. — Passei a vida inteira dizendo para nunca se aproximar das técnicas das trevas, nem daqueles que as praticam. Mas, se o que diz sobre Thomas for verdade… siga-o. Vá com ele para o Mar do Dragão.

    — Não, não, ele é maluco, é uma parceria rápida, depois daqui, iremos sair juntos, eu e você.

    — Não existe mais nós. Sou apenas uma casca de um homem, minha alma será liberada e se juntará com os nossos ancestrais, meu tempo no mundo terreno já acabou…

    — Eu não vou! — Mei estava em uma negação furiosa, levantou-se, e puxou as correntes com tamanha força que a parede tremeu.

    — Pare Mei, seu tio está certo — Lefkó a interrompeu, com um aperto no pescoço que a deixou sem ar por um instante. — Você não vê? Seus olhos podem enxergar a verdade por um instante?

    Então ela viu para seu horror, as veias negras que percorriam todo o pescoço dele.

    — Veneno de reversão… — Jiahao deu um suspiro longo.

    Não queria que sua sobrinha tivesse percebido, queria a proteger até o fim.

    — Agora você vê? — questionou Lefkó, e apontou com a cauda para Jiahao. — As correntes são a única coisa que o mantém vivo, elas estão absorvendo a força vital dele, apenas o veneno.

    — Nós podemos purificar, um bom alquimista pode tratá-lo… — Mei sentiu uma fraqueza no corpo, o coração pesou como uma tonelada. 

    Ela se apoiou na parede, para não cair, enquanto as lágrimas escorriam sem parar. 

    — Minha sobrinha, escute esse velho. — Jiahao estava vacilante em suas palavras, era uma verdade dura para ele.

    Mei limpou o rosto com a mão, e em um lamento silencioso, encarou seu tio.

    — Você tem que ir para o Mar do Dragão, e procurar pela Seita da Cidade do Sol, diga o nome da sua mãe. Eles irão cuidar de você.

    — Mas, e você? — O choro de Mei parou. — Como poderei suportar a culpa de lhe abandonar? Isso não é honroso, isso não é… justo! 

    — Mei, se você me respeita, obedeça meu último pedido… 

    Haveria uma reposta de Mei, se passos no corredor não tivessem os interrompido.

    — Fuja! — ordenou Jiahao, em um tom baixo.

    — Não vou! — respondeu ela, imediatamente, e se colocou em posição de batalha, a espada apontada para a entrada da cela.

    Os passos começaram a ficar mais lentos, e uma silhueta pequena apareceu no corredor, obscurecida pela escuridão.

    — Mortos… todos mortos… — A voz ecoou pelo corredor, de um tom masculino jovial, ainda não amadurecido.

    Continuou a andar em direção a eles, até que a luz o revelou, e Mei pode identificá-lo.

    Vestido com túnicas amarelas, das mesmas cores dos anciões da seita, embora sem os ornamentos e detalhes. Não carregava nenhuma arma consigo, e suas roupas estavam limpas e impecáveis, sem as marcas da batalha.

    — Hua Yuling Liuxian… O que você quer? — Mei manteve a postura defensiva, sem deixar de apontar a espada. — Não tenho medo de matá-lo se for necessário.

    — Assim como fez com os outros? — rebateu ele, ao puxar levemente a gola da túnica. O suor frio escorria pela lateral do rosto, embora sua voz permanecesse firme demais para alguém naquela situação. — Lá embaixo… foi você? Ou o seu novo interesse romântico? As fofocas correm rápido, sabia? Você e aquele estrangeiro, juntos em um bordel. Parece que esqueceu Lingxin… e o meu primo rápido demais, não acha? 

    — Não é nada disso! — retrucou Mei imediatamente, irritada ao ouvir o nome do falecido Lingxin sair da boca dele.

    Liuxian deu um passo à frente.

    Instintivamente, Mei recuou meio passo.

    — Claro que é… — Um sorriso torto surgiu em seus lábios. — Mas não se preocupe. Não guardo ressentimento algum de vocês dois. Na verdade, isso até me ajuda. Vou matar vocês aqui, retornar para o meu pai… e finalmente tomar o lugar que deveria ser meu por direito.

    — Lugar de direito? — repetiu Mei, sem compreender completamente o que ele queria dizer.

    Liuxian soltou uma risada curta pelo nariz.

    — Você entende perfeitamente, tanto que recusou o casamento, você conhece Renyan tão bem como eu, talvez melhor. Meu primo pode ser forte, mas força sozinha não torna alguém digno de liderar nossa seita. O próximo patriarca precisa de inteligência, visão política… alguém capaz de governar. Nem tudo neste mundo se resolve com poder bruto.

    Ele coçou a palma da mão, e uma pequena luz brilhou em seu dedo indicador.

    Mei ergueu lentamente o rosto, e previu que Liuxian iria atacar a qualquer momento.

    — Então você admite que é mais fraco do que ele? — rebateu, e manteve a espada em sua direção. — Eu alcancei a vigésima camada. Nenhum golpe seu sequer conseguiria me ferir.

    Liuxian não respondeu.

    O sorriso desapareceu lentamente de seu rosto.

    Em silêncio, desviou o olhar para Jiahao acorrentado e começou a caminhar na direção dele.

    — Pare agora mesmo! — Mei avançou um passo, e ergueu a lâmina. — Ou eu mato você!

    Era como se não tivesse ouvido.

    O coração de Mei acelerou.

    No instante em que ele entrou no alcance da espada, ela atacou sem hesitação.

    A lâmina brilhou, coberta de Qi e de uma intenção assassina intensa.

    Como uma faca que atravessa uma manteiga quente, a espada de Mei atingiu Liuxian diretamente na jugular.

    Não houve sangue.

    Apenas um breve silêncio.

    E o sorriso debochado de Liuxian como resposta.

    A ilusão se dissipou como a neblina passageira da manhã.

    Mei olhou para trás e quase deixou a espada cair, tomada pelo horror.

    Jiahao tinha um enorme buraco no peito, um vazio negro, ressequido, como carne morta há dias. Aos poucos, o corpo começou a se desfazer. O golpe não tinha derramado uma única gota de sangue.

    Atrás dele, com o braço coberto por uma gosma negra, o verdadeiro Liuxian.

    — Não me subestime — disse ao girar o pescoço, ao acertar um segundo golpe, e sua mão atravessar o peito de Jiahao.

    A expressão do tio de Mei, não era de dor, ou de sofrimento,, ela permanecia serena. Tranquila.

    Ele lançou um último olhar para sua querida sobrinha e pronunciou suas últimas palavras:

    — Mei… sua mãe está viva.

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