Índice de Capítulo

    O garoto ficou parado no meio da sala.

    Piscou, me encarou e piscou novamente.

    — Não acredito. — Apontou com o dedo para mim como se tivesse acabado de encontrar um artefato raro. — Você é de verdade?

    Fiquei sem saber o que responder.

    — Hã… sim?

    Os olhos dele brilharam de um jeito infantil.

    — Kael, você não me falou que era igual, você disse compatível. Compatível é tipo… pilha de controle remoto. Coisa que encaixa e pronto. Isso aqui… — Fle fez um gesto amplo na minha direção, como se eu fosse algum tipo de fenômeno natural. — Isso aqui é tipo quando dois planetas resolvem se alinhar no mesmo céu.

    Mikael fechou os olhos por um segundo.

    — Lewis… respira.

    O garoto puxou o ar fundo, e logo depois começou a andar na minha direção.

    Ele parou perto demais, tão perto que tive que inclinar o corpo um pouco para trás.

    Lewis então se curvou levemente, inclinando a cabeça para o lado, como alguém tentando enxergar através de um vidro escuro.

    Os olhos vermelhos dele analisavam cada detalhe do meu rosto.

    — Posso perguntar uma coisa? — disse, num tom curioso demais para parecer ameaça.

    — Hã… manda.

    — Quando aquela coisa estava em você… — Lewis fez um gesto vago no ar, procurando a palavra certa — O Mephisto. Você conseguia sentir ele pensando? Tipo… pensamentos mesmo?

    — Não sei se sentir é a palavra.

    Lewis assentiu devagar para processar aquilo.

    — Certo, certo… Então deixa eu tentar de outro jeito. — Ele levantou um dedo, animado com a própria linha de raciocínio. — Ele falava com você? Ou era mais tipo… você queria fazer coisas que normalmente não queria? Tipo comer vidro. Ou empurrar alguém da escada ou arrancar a própria pele porque parecia apertada demais.

    Mikael soltou um suspiro cansado atrás de nós.

    — Lewis.

    — O quê? — respondeu, sem tirar os olhos de mim. — Isso é importante.

    Lewis inclinou-se um pouco mais, e seus olhos brilhavam de uma curiosidade com ares quase infantis.

    — Só mais uma pergunta rapid…

    — Lewis!

    O ruivo virou a cabeça devagar, evidentemente ofendido com a interrupção.

    — Kael…

    Mikael deu alguns passos na nossa direção e parou ao meu lado, olhando primeiro para Lewis, depois para mim.

    — Ignora metade das perguntas dele por enquanto. O Lewis não está aqui pra te entrevistar.

    O ruivo fez uma careta pequena ao ouvir aquilo.

    — Ele está aqui porque é a melhor pessoa que eu tenho pra avaliar você.

    Franzi a testa.

    — Avaliar como?

    Mikael balançou a cabeça levemente para o lado, num gesto charmoso enquanto escolhia as palavras ou simplesmente se divertia antes de falar.

    — Vamos ver… — Cruzou os braços. — Se eu te colocar do lado de um dos nossos agentes padrão, você parece… sei lá… um estagiário que entrou no treino errado. Ou alguém que perdeu o grupo da excursão e veio parar aqui por engano.

    Lewis soltou um riso pelo nariz.

    Eu pisquei, ainda processando.

    — Isso foi um elogio?

    — Foi uma observação. Mas relaxa, tamanho não define desempenho. Às vezes só define o quanto você vai precisar compensar.

    Assenti devagar.

    Um segundo depois, a ficha caiu.

    — Pera… Você tá me chamando de baixo?

    Lewis virou o rosto imediatamente, claramente tentando não rir.

    Em resposta, Mikael arqueou uma sobrancelha.

    — Eu tô dizendo que, olhando rápido, ninguém apostaria em você.

    — Isso definitivamente não ajuda.

    — Ajuda sim. Significa que qualquer coisa acima do básico já vira vantagem.

    O garoto deu um passo à frente, com um brilho curioso no olhar.

    — E é aí que eu entro. A avaliação é pra entender o que você realmente consegue fazer, não o que parece que consegue.

    Mikael assentiu.

    — Reflexo, coordenação, resistência, resposta sob pressão… — listou, contando nos dedos. — Se o seu corpo mudou depois do contato, isso vai aparecer aqui.

    — E se eu for mal?

    — Aí a gente descobre rápido. Melhor do que descobrir no meio de uma situação real.

    Balancei a cabeça ponderando novamente.

    — E, sendo justo — continuou —, já vi gente com o dobro do seu tamanho travar por muito menos.

    — Valeu, eu acho.

    Mikael andou em direção à porta.

    — Eu tenho coisa pra resolver. — disse, apontando com o queixo pro centro da sala. — Faz o básico com ele e tenta não quebrar o novato no primeiro minuto.

    Lewis levou a mão ao peito.

    — Deixa comigo!

    Antes de sair, o loiro ainda olhou de relance pra mim.

    — Só faz o seu melhor. Às vezes é o suficiente.

    E então ele se virou, deixou-me para trás a sós com o ruivo, que de pronto já demonstrava estar preparado para o início.

    Animado, Lewis esfregou as mãos.

    — Então… — Abriu um sorriso leve. — Vamo?

    Respirei fundo.

    — Tô começando a achar que eu não tenho escolha, né?

    — Nenhuma. — Entrelaçou os dedos das mãos, empurrou as palmas para a frente e esticou os braços até ouvir um leve estalo nos nós. — Mas olha pelo lado bom, vai ser divertido.

    Em seguida, levou o braço direito cruzado contra o peito, segurando o cotovelo com a outra mão, para alongar o ombro.

    — Pra pelo menos um de nós. — disse, trocando de lado.

    Ele soltou o ar, voltou ao centro e girou o pescoço devagar, primeiro para a direita e depois para a esquerda, até os músculos estalarem.

    Eu não sabia se aquilo era preparação ou intimidação, e fiquei observando.

    — Isso é necessário? — perguntei, sem muita convicção.

    — Mas é claro que sim, serve pra acordar as peças. — respondeu, ainda girando a cabeça. 

    Em seguida, ele afastou os pés na largura dos ombros e começou a soltar as pernas. Começou por flexionar um joelho de cada vez, transferindo o peso do corpo de um lado para o outro. Ele não olhou para baixo nenhuma vez. Sua postura era tão equilibrada quantos os movimentos.

    Ao puxar o pé para trás com a mão, alongou o quadríceps, sem esforço para manter o tronco ereto.

    Era estranho assistir àquilo.

    — Não precisa ficar tão tenso, ainda não comecei a parte chata.

    — Isso era a parte boa?

    — Aquecimento é sempre a parte boa.

    Não era pelo movimento em seu, qualquer pessoa que já viu um atleta se aquecer reconhece metade daquilo, senão pela forma natural como o executava. Lewis respirava tranquilamente e se alongava ao mesmo tempo, fazendo tudo parecer que seu corpo estava resolvendo aquela parte sozinho.

    — Você luta faz tempo? — perguntou.

    — Um pouco.

    — Rua, academia ou alguém te ensinou de verdade?

    — Acho que briga de rua.

    — Interessante.

    O pé esquerdo dele tocou o chão. Bastou esse instante para ficar a dois passos de distância de mim.

    Merda—

    O que aconteceu não foi teletransporte. Minha mente estava ciente disso. O problema eram os meus olhos, aos quais o memorando não havia chegado a tempo.

    Lewis simplesmente cruzou o espaço entre nós rápido demais para que o movimento existisse como algo reconhecível.

    Seu corpo girava no mesmo instante em que ele entrava na minha distância, a parte superior do corpo inclinada para o lado enquanto a perna direita subia em um movimento brusco.

    No momento em que levantei o braço para bloquear, meu instinto falou mais alto, porém o impacto aconteceu antes que eu terminasse o movimento.

    Não foi forte o suficiente para machucar, mas foi o suficiente para doer muito no braço. O golpe raspou minha defesa torta e desviou o suficiente para não acertar minha têmpora.

    Mesmo assim, a força me fez perder o equilíbrio.

    Ah—!

    O som fugiu entre os dentes enquanto eu vacilava dois passos para trás, alucinado com o que acabara de ocorrer.

    Meu braço latejava, doía como se alguém tivesse batido nele com um bastão de metal.

    Lewis já estava parado no mesmo lugar, do jeito que estava antes. Ele não parecia ofegante nem animado.

    — Hm.

    Sacudi o braço, tentando trazer alguma sensação de volta para os dedos.

    — Você… — soltei o ar entre os dentes — podia ter avisado.

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