Capítulo 19 - Você não sabe o que custou
O silêncio durou pouco, mas foi o suficiente para mudar a expressão dele. A curiosidade animada de antes, intensa e vibrante, perdeu um pouco do brilho. Ela não desapareceu por completo, pois pessoas como Lewis provavelmente nunca deixariam de ser curiosas, estava apenas misturada com outra coisa.
O garoto deslocou o peso do corpo para trás e soltou o ar pelo nariz.
— O que foi? — perguntei, ainda sacudindo o braço para espantar o formigamento.
Lewis inclinou a cabeça, reavaliando minha postura.
— Você não mentiu… — disse. — Mas também não confirmou muita coisa.
Circulou devagar, dando dois passos laterais, tal qual se tentasse enxergar um objeto por vários ângulos antes de decidir o que ele era.
— Vou ser honesto com você, Krynt. Quando alguém fala briga de rua, normalmente significa duas coisas. Ou a pessoa aprendeu a sobreviver em situação caótica ou ela só trocou soco até alguém cair.
— E você quer saber qual dos dois eu sou.
— Exato. — Parou na minha frente. — Porque lutar de verdade não é só bater em alguém.
Com um gesto rápido, tirou do ar alguns exemplos hipotéticos.
— Boxeador profissional não luta como brigão de bar. Lutador de jiu-jitsu não luta como soldado. Um cara do MMA não luta como um policial tentando imobilizar alguém. Cada um desses existe por um motivo específico. — Apontou com seu indicador para mim. — E você acabou de tentar bloquear um chute lateral com o antebraço atravessado.
— Funcionou… mais ou menos.
Lewis fez uma careta.
— Isso teria quebrado seu braço se eu tivesse colocado peso de verdade.
— Reconfortante ouvir isso.
— Então eu tô tentando entender uma coisa, você não reagiu como alguém totalmente inexperiente… mas também não reagiu como alguém que realmente confia no próprio corpo.
Cruzei os braços, sentindo a dor reclamar de novo.
— Talvez eu só esteja tendo um dia estranho.
Lewis deu risadinha
— É, pode ser.
E retomou os saltos leves no lugar, mais por costume do que por necessidade.
— Mas aqui vai o problema. O tipo de coisa que a gente enfrenta não liga se você tá tendo um dia estranho.
Fez um gesto amplo ao redor da sala.
— Não sei se você viu o pessoal treinando lá fora, mas aquilo não é teatro, é gente tentando sobreviver a coisas que não jogam pelas mesmas regras que a gente. E lutar… lutar mesmo… é uma das poucas linguagens que continuam funcionando quando todo o resto para de fazer sentido.
Fiquei em silêncio apenas para ouvi-lo até o fim.
Lewis bateu levemente o próprio peito com dois dedos.
— Corpo, tempo, distância, decisão. Isso é luta.
Depois apontou para minha guarda improvisada.
— O que você fez ali foi… instinto. O Instinto é bom, mas sem estrutura costuma morrer rápido.
Aquilo ficou no ar por alguns segundos.
Para reorganizar as próprias expectativas, Lewis então respirou fundo.
— Tá, vamos resetar isso um pouco.
Ele levantou uma das mãos pacificamente.
— Eu não tô aqui pra te derrubar, só quero descobrir três coisas. — Lewis levantou a mão e mostrou três dedos, balançando-os de leve no ar. — Como você se move, quanto tempo leva pra reagir… e se aprende rápido quando erra.
Assim que o terceiro dedo voltou a se fechar na palma da mão, Lewis avançou num disparo. A distância entre nós desapareceu célere demais para que pudesse parecer natural. Seu corpo girou no meio do avanço, com o quadril liderando o movimento, e a perna veio em uma trajetória limpa e horizontal rumo à altura das minhas costelas.
Desta vez, porém, não congelei; foi talvez tenha sido o aviso anterior. No momento em que o chute decorreu, o meu corpo saiu da linha ligeiramente antes de eu ter consciência de que tinha tomado a decisão de executar tal ação.
Dei um passo torto para trás e para o lado, sem grande elegância. O golpe cortou o ar à minha frente, tão perto que senti o deslocamento do ar esvoaçar a camisa.
Por um instante, o silêncio voltou à sala.
Lewis pôs o pé no chão tão firmemente que não tropeçou nem teve de se reajustar.
Os olhos vermelhos dele se estreitaram.
— Huh…
Ele não parecia impressionado.
— Tá bom. — murmurou.
O pé dele voltou a quicar no chão, de forma leve, à medida que avaliava a distância.
Ainda me encontrava em processo de recuperação do movimento que eu próprio tinha acabado de fazer.
Como diabos eu fiz isso?
Lewis inclinou a cabeça de leve, observando meus pés, ombros e meu rosto.
— De novo.
Antes que eu tivesse tempo de responder, ele avançou outra vez.
Até então, Lewis desvanecera-se e reaparecera elusivamente em outro ponto do espaço, fazendo crer que o seu corpo tivesse pulado alguns quadros da realidade e só voltasse quando já era tarde demais para reagir. Esta foi a sensação que eu tive ao tentar acompanhar alguém muito mais rápido; basicamente, o cérebro de uma pessoa não conseguia processar a transição entre um movimento e outro, só se via o resultado.
No entanto, no segundo ataque, algo encaixou. Não foi propriamente mais lento. Seria mentira dizer isso. Lewis continuava à velocidade de sempre, mais rápido do que o cérebro de uma pessoa normal consegue perceber, visto que, de repente, comecei a compreender as etapas do movimento dele em detalhe.
Havia lógica na velocidade. Uma sequência clara de decisões físicas que ocorriam numa ordem inevitável. Quando o corpo de alguém se submete a um treino suficiente, esse alguém deixa de improvisar e começa a obedecer a caminhos naturais através das articulações, alavancas e equilíbrio.
A rapidez de Lewis não era óbvia, pois os seus movimentos eram tão rápidos que não deixavam margem para dúvidas. Ele não desperdiçava nada, aproveitava cada movimento de forma eficiente.
Talvez fosse isso que meus olhos estavam começando a entender.
O segundo ataque foi diferente do primeiro, já que, em vez de chutar diretamente, girou o quadril e levantou a perna numa trajetória curta e compacta que visava a lateral da minha cabeça. Um movimento que, visto de fora, provavelmente teria parecido apenas um borrão vermelho através do campo de visão.
Entretanto, antes de tudo, observei o ombro dele deslocar-se ligeiramente para equilibrar o peso e o pé de apoio ajustar-se ao chão com uma rotação mínima para libertar o quadril, então, levantei meu braço.
Mesmo compreendendo o movimento, o reflexo do meu corpo ainda era o de um hábito antigo. O bloqueio saiu muito alto e forte, na tentativa de interceptar a força com mais força.
O impacto encontrou o meu antebraço com um estalo que percorreu o osso até ao ombro. Não foi tão forte quanto poderia ter sido, dava para sentir que Lewis tinha segurado parte da força, mas mesmo assim a vibração do golpe fez-se sentir por todo o braço e, por um instante, fiquei com aquele formigueiro irritante provocado por uma decisão errada do corpo.
Ainda assim, algo ficou claro no meio da dor.
Eu tinha visto o golpe vir, e isso deixou-me com uma sensação estranha, difícil de explicar. Porque, se Lewis realmente se movia tão rápido quanto parecia, então não era normal eu conseguir acompanhar nem metade do que estava prestes a acontecer.
De qualquer modo, ver o golpe não significava saber o que fazer com ele.
— Estranho… — disse.
Os olhos dele estavam presos em mim enquanto tentava encaixar duas peças de um quebra-cabeças que não faziam parte do mesmo jogo.
— O primeiro desvio foi instinto, isso eu esperava. — Apontou com o queixo para meu braço ainda levantado. — Mas isso aqui não faz sentido.
— Bloquear?
— Você desviou como um leigo, mas bloqueou o golpe muito bem, como alguém que já treinou alguma coisa antes. — Franziu levemente o cenho. — Só que sem a mecânica certa.
Tentei ignorar a dor que ainda corria pelo meu braço, inspirando profundamente.
— Talvez eu seja só ruim mesmo.
Então, Lewis voltou a apoiar o peso em um pé, depois no outro, num balanço levemente distraído. Para quem não soubesse o que estava vendo, daria a impressão de que estava apenas descansando as pernas. Cada mudança de apoio, no entanto, reposicionava o corpo dele alguns centímetros, ajustando distância, ângulo e espaço.
Eu só comecei a perceber esse tipo de coisa porque agora estava prestando atenção em tudo.
— Tem alguma coisa interferindo na forma como você reage.
O olhar dele subiu devagar até encontrar o meu.
— E eu ainda não sei se é medo… — disse, com uma calma que não soava acusatória — Ou a coisa aí dentro.
Pausei por um instante, ponderando se aquilo era uma provocação ou apenas curiosidade mórbida.
— Você fala disso como se tivesse convivido com uma dessas coisas antes.
Lewis deu de ombros, mas não respondeu diretamente. Em vez disso, suspirou e passou a mão pelos cabelos vermelhos, empurrando algumas mechas para trás, como se tentasse organizar um pensamento que o incomodava há algum tempo.
— Sabe qual é a parte mais irritante desse trabalho? — perguntou, olhando de lado para mim.
— Tenho medo da resposta.
— Talento desperdiçado.
Aquilo me pegou meio desprevenido.
— Essa não era a direção que eu esperava.
Deu um pequeno empurrão no ar para soltar a tensão do quadril.
— Não comecei a treinar desde criança porque sou um prodígio ou porque alguém olhou para mim e disse esse garoto nasceu para isso. Nada disso. Eu treino porque, se parar, alguém mais forte vai me quebrar no meio.
Ele apontou dois dedos para o próprio peito.
— Cada coisa que eu faço aqui foi repetida milhares de vezes até parar de doer. Aí aparece alguém que… — Fez um gesto vago no ar, tentando encontrar a palavra certa. — Tropeça em algo que dá vantagem absurda.
— Você tá falando do Mephisto.
— Eu tô falando de potencial. Vejo isso o tempo todo. Gente que nasceu com isso e nunca fez nada com isso porque nunca precisou.
Inclinou a cabeça, esquadrinhando o meu rosto para tentar encaixar uma peça que faltava.
— E agora eu tô olhando pra você.
— E já decidiu que eu sou um desses?
— Parece que sim.
Aquilo ficou em suspenso entre nós por um segundo mais longo do que o desejado. Não foi ofensivo como um insulto costuma ser. O problema era que ele o dizia convencido de uma forma pacata, por assim dizer, como se fosse uma característica óbvia da pessoa.
Balancei o braço outra vez para soltar a tensão que ainda subia pelo ombro e dei dois passos curtos para ajustar a postura.
— Você tá tirando essa conclusão muito rápido. Eu não sou o que você tá imaginando, e, com todo respeito, você também não sabe tudo só porque consegue treinou demais.
Assim que as palavras saíram, percebi o problema.
Não tinha dito aquilo para provocar. Pelo menos, não era essa a minha intenção. Na forma como saíram, soaram como se estivesse em causa a capacidade dele.
— Interessante.
O ruivo não parecia irritado, mas sim curioso de uma forma diferente.
— Você fala isso como alguém que acha que eu tô errado.
— Eu acho que você tá tirando conclusão cedo demais.
— Não é a mesma coisa.
Dei de ombros.
— Pra mim parece.
— Então me ajuda a entender.
Apontou com seu dedo indicador na minha direção.
— Você desvia de um golpe que muita gente treinada tomaria inteiro, bloqueia outro mesmo usando a mecânica errada, acompanha movimento rápido melhor do que alguém sem treino deveria conseguir e depois me diz que eu não sei do que estou falando.
O canto da boca dele levantou um pouco.
— Consegue ver por que isso parece suspeito?
Pensei em como responder sem piorar a situação ao cruzar os braços.
— Eu não disse que você não sabe lutar.
— Mas insinuou.
— Eu disse que você não sabe tudo sobre mim.
Lewis fitou-me por um momento mais longo, com os olhos vermelhos ligeiramente mais estreitos, enquanto processava aquilo.
— Certo… — disse. — Então vamos esclarecer uma coisa antes da gente continuar, porque agora eu realmente não sei se você tá sendo sincero… ou se tá tirando sarro de mim.
Franzi o cenho.
— Como assim?
O garoto deu dois passos curtos de lado, sem nunca sair do meu campo de visão nem perder o ritmo do seu próprio raciocínio.
— Você sabe qual é o problema de conversar com gente talentosa que não treina?
— Eu não…
— Eles sempre fazem exatamente isso. — interrompeu. — Essa conversa meio atravessada, esse tom de talvez você esteja enganado… como se estivessem olhando de cima.
Embora não tenha levantado a voz, a frustração começou a transparecer na forma como falava de forma cada vez mais pesada.
— E eu já vi isso antes. Várias vezes.
Ergui as mãos na esperança de cortar a sua linha de raciocínio antes que a situação descambasse.
— Espera aí, não tô tirando sarro de você.
— Claro que não.
Comecei a sentir que a conversa estava a tomar um rumo inesperado, o que me fez balançar a cabeça.
— Cara, cê tá interpretando errado.
O corpo dele ficou imóvel por um segundo inteiro, o que era quase mais inquietante do que quando ele estava pulando de um lado para o outro.
— Sabe o que eu odeio? Gente arrogante. Não arrogante no sentido óbvio, do cara que chega falando que é melhor que todo mundo. Esse tipo pelo menos é honesto. Eu odeio o outro tipo… o que faz cara de dúvida educada enquanto trata o esforço dos outros como se fosse exagero.
— Eu não…
— Porque eu passei a vida inteira correndo atrás de coisa que não veio fácil pra mim. — continuou ele, agora ignorando a tentativa de resposta. — Reflexo, velocidade, equilíbrio… nada disso apareceu do nada. Cada coisa que eu faço aqui custou anos.
Ele bateu a sola do pé no chão uma vez.
Senti um calor subir.
No início, pensei que fosse impressão minha, mas não era. O ar realmente mudou. Primeiro, o chão sob o pé do Lewis iluminou-se, com uma linha fina de luz alaranjada que corria pelo local onde a sola tocava a superfície.
No segundo seguinte, surgiram chamas.
Línguas de fogo espalharam-se pelo chão num círculo irregular, ascendendo alguns centímetros antes de se estabilizarem em tremulação.
O ar aqueceu, ficou seco e pesado, provocando-me um ligeiro rubor no rosto.
Lewis também estava diferente. A luz das chamas refletia-se no cabelo vermelho dele, conferindo a esse tom já insólito uma aparência mais próxima da brasa viva. Os olhos acompanharam a transformação, brilhando com reflexos laranja que iam mudando à medida que o fogo variava.
Olhou para os pés, verificando-os, e depois voltou a olhar para mim.
— Certo, se é assim, acho que a gente vai precisar aumentar um pouco o nível.

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