Capítulo 67 - Eu estou na melhor forma
[Ele não está mentalmente bem, então vá sem pressa.]
A sala era um cubo branco, tão estéril e imaculado que se poderia pensar que tinha sido limpo de qualquer toque humano. Benjamin, por outro lado, não passava de uma pequena centelha de vida num ambiente sem vida, um ser minúsculo e frágil.
Puxei uma cadeira de metal para junto dele, colocando-a cuidadosamente. A minha intenção não era parecer intimidante ou brusco. Apenas me sentei, procurando manter uma distância respeitosa em relação a ele.
Enrolada num canto estava a criança, com os joelhos apertados contra o peito, refugiada do mundo. Todo o seu comportamento irradiava fragilidade, mas senti que havia algo mais profundo, um segredo que ele poderia estar tentando esconder, tanto de mim como de si mesmo.
— Vamos lá. Preciso que você me ouça, tá? Não vou te machucar. Ninguém vai. Só quero conversar.
Ele não reagiu. Não ergueu o olhar, não mexeu um músculo. A respiração era o único sinal de que ainda estava presente.
— Sei que isso parece um pesadelo. — continuei, inclinando o corpo levemente para frente. — Mas a gente precisa entender o que aconteceu naquele dia.
Seu silêncio era mais do que uma mera ausência de palavras; era uma barreira densa, quase impenetrável. Esse tipo de silêncio me era familiar. Eu o havia experimentado, estava envolvido por ele e entendia a dificuldade de me libertar.
— Certo. — Recostei-me na cadeira. — Então vou começar, e você escuta. Se quiser me interromper, fica à vontade.
Passei a mão no cabelo à procura de palavras que não soassem como acusações ou desculpas vazias.
— Aquele dia… foi uma merda, especialmente pra você. — As palavras saíram hesitantes, mas não parei. — E olha, eu sei que parte disso é culpa minha.
Finalmente, houve um movimento. Pequeno e quase imperceptível, mas suficiente para me incentivar a continuar.
— Eu deveria ter ficado com você. Foi burrice minha achar que podia resolver tudo e ainda te proteger. Mas não fiquei. Saí, pensando que seria rápido, e quando voltei…
Minha voz falhou por um segundo. A lembrança do vazio onde ele deveria estar era como uma faca girando dentro de mim.
— Quando voltei, você não tava mais lá.
Ele apertou os joelhos contra o peito, mas ainda não olhava para mim.
— Benjamin, eu falhei contigo. — admiti, um pouco amargurado. — E, por isso, me sinto como um lixo. Porque eu devia ter sido melhor. Eu devia…
Fechei os olhos, mas não consegui conter a pressão em meu peito. Lamentações não eram o momento. Ele precisava de mim mais do que nunca.
— Olha, sei que tá tudo uma bagunça. Sei que você deve sentir que não tem saída, que tudo tá perdido. Mas não tá, cara. Não pra você.
O garoto soltou um som baixo, quase um grunhido, e finalmente ergueu os olhos. Vermelhos e marejados, eles denunciavam uma dor que transparecia ser grande demais para alguém tão jovem.
— Eu… eu não consegui parar.
Fiquei em silêncio, esperando que Benjamin continuasse.
— Eu vi tudo. Tudo o que aconteceu. Era como se… como se eu estivesse preso dentro da minha própria cabeça, assistindo de longe. — As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto dele, mas ele não as limpou. — E, por um segundo, eu… eu achei que tava gostando.
Suas palavras me feriram profundamente. Não por serem chocantes, mas porque reconheci a verdade contida nelas. Já estive no mesmo lugar, experimentando a mesma confusão e o mesmo remorso.
— Benjamin…
— Não diz que não foi minha culpa. — A voz dele ganhou força, carregada de uma raiva que parecia dirigida a si mesmo. — Eu fiz isso. Fui eu.
— Não tô aqui pra dizer que nada disso aconteceu, mas vou te dizer uma coisa: você não estava no controle. E isso faz toda a diferença.
Ele me olhou e, por um instante, percebi uma mudança nele. Não era aceitação nem perdão. Era algo mais delicado e incerto, porém significativo: esperança.
— Como você sabe?
Engoli em seco.
— Porque eu já passei por isso. Você sabe. Já te contei isso.
— Mas e daí? Você não entende de verdade. Eu matei… minha família inteira.
A acusação não me atingia diretamente, mas ressoava como se fosse comigo. Mesmo que as memórias que ela despertava me atingissem como um soco, respirei profundamente, esforçando-me para manter a calma.
— Eu entendo mais do que você acha. Eu vi amigos implorando por ajuda enquanto eu… enquanto fazia coisas que eu não conseguia parar. Eu vi sangue nas minhas mãos e pensei, por um segundo, que talvez merecessem.
Ele a recebeu sem rodeios, e pude ver o seu impacto nos olhos dele.
— Mas sabe o que eu aprendi? Não importa o que você sente na hora. Não importa o que eles te fazem sentir. Não é você. É eles. É essa coisa dentro de ti, sussurrando, controlando, torcendo tudo até você não saber o que é real.
Benjamin estremeceu, mas não disse nada. Inclinei-me à frente e a cadeira emitiu um rangido com o movimento.
— E sabe o que mais aprendi? — perguntei, sem esperar resposta. — Que ninguém vai te dar uma segunda chance se você não lutar por ela.
Ele abaixou a cabeça, os punhos apertados contra os joelhos.
[Está indo bem, você está deixando ele confortável, mas precisamos forçá-lo a reagir. Provoque o Mephisto. Faça ele se manifestar.]
— Huh? Por quê?
[Porque você precisa irritá-lo. Puxe a ferida, ele precisa sentir.]
— Eu tô fazendo o melhor que posso aqui! — respondi em um sussurro, tentando não alarmar Benjamin.
[Não é o suficiente.]
Não era algo que eu queria fazer. Não assim.
Voltei a olhar para Benjamin. Ele estava ali, tão pequeno no canto da sala. O garoto já estava quebrado. Provocar o Mephisto seria o equivalente a jogá-lo de um penhasco só para ver se ele sabia voar.
— Tem certeza disso? — perguntei, mas já sabia a resposta.
[É arriscado, mas é necessário. A instabilidade emocional é o que traz o Mephisto à superfície. Faça-o sentir algo, qualquer coisa.]
Eu entendia o que ela queria dizer com “instabilidade emocional”. Eu havia experimentado o que esse desequilíbrio significava, aquele instante em que as defesas cedem e somos tomados por uma enxurrada de raiva, medo ou sofrimento. Era o estopim ideal para um Mephisto assumir o controle.
— E se der errado?
[Se der errado, a equipe de contenção entra. De qualquer forma, o medidor está ativo. Ele começa em 0%, mas aumentará com a instabilidade emocional dele. Mantenha a pressão, faça chegar até 50%.]
A linha do fone ficou muda.
Voltei minha atenção para Benjamin, que ainda não levantava a cabeça.
— Ei, uh… preciso que você me conte o que aconteceu naquele dia. Desde o começo.
Não respondeu. Seu rosto ainda estava enterrado entre os braços como se quisesse desaparecer.
— Você disse que viu tudo. Que sentiu tudo. Quero que me diga o que viu.
— Mas eu já disse pra ti. Por que quer saber de novo?
— Porque eu não acredito em você.
Benjamin levantou a cabeça com seus olhos arregalados, a confusão rapidamente sendo substituída por algo mais inflamável.
— O quê?
[5%]
— Isso mesmo. Não acredito em nada do que você disse. — Cruzei os braços. — Tá se escondendo atrás dessa história de não tinha controle. Conveniente, não acha?
— Eu não tô mentindo!
— Não? Porque, pelo que me lembro, você disse que queria parar. Mas não parou. Parece que alguma parte de você gostou de todo aquele sangue, toda aquela dor.
O garoto se levantou tão rápido que a cadeira dele bateu na parede atrás.
[10%]
— Eu não gostei! — gritou, o rosto vermelho de raiva. — Eu tava preso!
— Ah, tá. Preso. — retruquei, com sarcasmo o suficiente para derramar mais gasolina no fogo. — Isso explica tudo. Estava preso, então nada foi sua culpa, né? Que conveniente.
[28%]
Benjamin deu um passo à frente, com os punhos fechados, mas hesitou no meio do caminho. Parecia que ele estava lutando contra uma força invisível, que o puxava para trás.
— Cala a boca! — berrou, a voz reverberando pelas paredes.
— Ou o quê? Vai me atacar como fez com a sua família? Vai terminar o que começou?
[31%]
Observei uma mudança em seu olhar; não era apenas raiva, mas algo mais profundo e intenso. A temperatura da sala caiu e um leve zumbido começou a permear o ar, quase imperceptível, mas inconfundível.
— Eu… não sei! Era como… uma voz, mas não era uma voz. Era uma sensação. Uma coisa que… que me dizia o que fazer. Ele quer fazer… — Engasgou-se, as palavras se perderam em sua luta pela respiração. — … algo comigo. M-mundo Carmesim… ele disse.
— E você obedeceu.
— Eu não queria!
[39%]
A luz fluorescente acima de nós piscou.
— Mas você obedeceu mesmo assim. — pressionei. — Porque parecia certo, não parecia? Porque, por um momento, você gostou.
— Para! — Ele gritou mais uma vez, com as mãos apertando as laterais da cabeça como se tentasse forçar a saída de uma lembrança.
[43%]
— Vai me usar… pra entidade.
— O que ela faria contigo?
— Pra machucar… pra destruir.
— E por um segundo, você gostou disso, não foi?
Seus olhos se arregalaram e sua respiração acelerou.
[48%]
As veias do pescoço se destacavam, com os ombros rígidos.
[Ele está reagindo. Agora, tire a coleira que está em seu pescoço, Krynt.]
Isso não parecia certo. A coleira em meu pescoço era o que impedia que o Mephisto dentro de mim também me possuísse.
— N-não, eu não posso fazer isso.
[Não tem opções. Faça isso agora.]
Ele estava prestes a explodir e, por um momento, temi que eu o tivesse levado longe demais.
[49%]
Um som gutural irrompeu de Benjamin, um cruzamento entre um grito furioso e um rosnado.
O número parou de subir em 49%. Ele estava com o corpo curvado, os braços pendentes como galhos trêmulos, enquanto a sua respiração ofegante se misturava ao som grave que preenchia a sala.
Tudo o que nos rodeava parecia impregnado de energia negativa, oscilando no ar como ondas de calor num deserto.
Ainda assim, havia algo no seu olhar quebrado que indicava que ele ainda estava lá, algures sob a superfície.
Me levantei e recuei, mantendo-o no meu campo de visão.
— E agora?
[Krynt, retire a coleira agora.]
O comando fez meu sangue gelar.
— Não! — A palavra saiu antes que eu pudesse me segurar. — E-eu não posso fazer isso.
Instintivamente, toquei na superfície metálica que envolvia o meu pescoço. A coleira tinha uma função mais ampla do que a de uma mera restrição; funcionava como um regulador. Gerenciava o fluxo de energia negativa dentro de mim, mantendo a criatura sob controle e evitando qualquer surto.
Era a única barreira que impedia a minha perda total de estabilidade.
— Isso é loucura. Vocês sabem o que acontece se eu tirar isso…
[Você não tem escolha.]
— Por quê?! Isso não é mais um interrogatório, é? Isso é algum tipo de teste, não é? Somos só duas cobaias pra vocês?
O silêncio foi a resposta que eu esperava, mas isso não a tornou menos irritante.
— Responde! — exigi, sentindo a raiva crescer. — Por que vocês querem isso?
[Krynt, faça.]
Minha garganta ficou apertada. Era como se eu estivesse diante de um abismo, e a única coisa que me mantinha seguro era aquele pedaço de metal em volta do meu pescoço.
— Isso não é sobre ele, é? — continuei, ignorando a ordem por um momento. — É sobre mim. Querem ver o que acontece quando eu perco o controle.
[Não é o momento para paranoia. Faça o que mandamos.]
A raiva deu lugar a um medo gelado. Não tinha como saber as intenções deles, mas uma coisa era certa: eu estava encurralado.
— Vocês querem brincar com fogo, então que se queimem.
Ao alcançar a trava da coleira, meus dedos hesitaram e tremeram levemente. Logo que girei o mecanismo e soltei a primeira trava, um pequeno clique ressoou na sala.
A abertura da coleira provocou um zumbido baixo. Foi como abrir uma represa: a energia que estava confinada dentro de mim se liberou, como uma onda avassaladora que envolveu meu corpo.
Meu coração batia forte e cada parte de mim soava um alarme. Senti um calor feroz percorrer minha pele, despertando algo antigo e formidável. Minha visão vacilou momentaneamente, com as bordas ficando escuras. Senti sua presença pressionando as bordas da minha mente, buscando o domínio.
Benjamin levantou a cabeça devagar, os olhos arregalados, agora brilhando em um tom opaco que não era humano.
O Mephisto estava acordado.
A sala ao meu redor havia mudado. Ou talvez tenha sido eu. O mundo ficou menor, frágil, patético. Algo dentro de mim riu – um som gutural e zombeteiro que não saiu de meus lábios, mas vibrou em minha cabeça como um trovão.
— Finalmente, solto dessas correntes. Eles adoram me trancar, mas sempre acabam precisando de mim, não é?
Meus olhos se fixaram no garoto à minha frente. Benjamin não estava mais lá. Aquele que estava me encarando tinha uma presença que transbordava de crueldade.
— Que patético, traidor. — disse. — Você veste a pele deles e acha que é um deles?
— Haha! Um sermão vindo de um parasita que se esconde em uma criança? Isso é hilário.
Ele deu um passo à frente.
— Você abandonou o Rei. Abandonou o propósito que nos define. Se tornou… isso.
— Ah, o velho discurso do propósito. — respondi, gesticulando como se imitasse uma peça teatral. — Destruição por destruição. Sacrifício em nome de um Rei aprisionado.
Seus olhos brilhavam em uma luz branca e diabólica.
— Você não entende. Nunca entendeu. O Rei não precisa de um trono. Ele é o ciclo. Ele é o começo e o fim. Precisa ser libertado.
— Você é mesmo um servo leal. — falei, cutucando minha têmpora com a ponta do dedo indicador. — Pena que tudo isso só existe na sua cabeça.
As luzes fluorescentes cintilavam em agonia, com a sua luz aos saltos, criando sombras convulsas pelas paredes. No centro da sala, duas presenças mediam forças com olhares capazes de rachar o chão.
— Você acorrentou sua essência a esses vermes, e agora usa a coleira que lhe impuseram, segue as ordens que cospem. Um cão domesticado que rosna sob comando.
— Eu uso o que estiver disponível para alcançar meus objetivos. Não me escondo atrás de dogmas antiquados como você.
— E chama essa existência rastejante de ‘sobrevivência’? — Seus lábios se retorceram em um riso amargo. — Você é um fantasma do que já foi um dia. É… decepcionante.
— Então me apague desta existência que tanto profana sua pureza dogmática. A menos que, é claro, a liberdade que você chama de fraqueza seja justamente o que sua doutrina não pode tolerar. Porque um escravo que quebra suas próprias correntes é o pesadelo de todo carcereiro.
As luzes deixaram de piscar, num momento em que o próprio universo pareceu conter a respiração.
O ambiente entre nós tornou-se denso, influenciado pelo ódio de longa data resultante de trajetórias divergentes. A verdade não dita pairando na sala era que talvez fossemos apenas reflexos mutuamente distorcidos, prisioneiros de mestres diferentes, mas igualmente escravos.
— Liberdade? — A palavra saiu como um cuspe. — Você chama de liberdade esta… servidão voluntária? Anda com eles, protege-os, cheira as migalhas de sua aceitação. Você não quebrou correntes, forjou novas. Mais leves, talvez, mas ainda correntes.
O meu sorriso aprofundou-se, adquirindo um tom genuinamente compassivo.
— Ajoelhar para um Rei adormecido ou lamber as botas de um humano, no fim, são só grades diferentes. Eu não sirvo humanos. Eu os manipulo. Sua sociedade, seus recursos, todo o conhecimento deles… são ferramentas que eu uso. São o martelo e a bigorna onde forjo o meu próprio destino.
Os olhos de Benjamin estreitaram-se. Havia uma luz branca bruxuleante. Nela, brilhava uma centelha de confusão plena.
— Seu próprio caminho para se tornar um deles?
— Para me tornar mais. Por que você acha que devemos nos contentar em ser apenas sombras e destruição? Nós deveríamos evoluir mais, criar mais, falhar menos, tentar de novo… Deveríamos sermos livres para cair e se levantar. Essa é a chave que seu Rei temeu lhes dar: a escolha. Eu não estou do lado deles. Estou do meu lado. E quando seu Rei despertar, ou quando a humanidade cair… — Estendi a mão, não considerando a forma humana um cárcere, mas sim uma ferramenta. — … eu ainda serei eu. Inteiro. Soberano. Isso não é fraqueza. É a única forma de poder que vale a pena ter.
E fechei o punho para levá-lo ao centro do meu peito.
— A vontade de viver dele é tão feroz que, em vez de consumi-lo, fizemos um pacto há muito tempo. Ele me empresta seus olhos para ver o mundo que seu Rei quer destruir, e eu… — A energia à minha volta tornou-se mais intensa, com as sombras às voltas entre padrões difíceis de compreender. — Eu lhe mostro que sua humanidade frágil pode ser mais que carne perecível.
Lâmpadas explodiram no topo das nossas cabeças, numa sucessão de estrondos secos, atirando a sala inteira para uma performance de luzes vermelhas. Todos os clarões congelavam um caos sangrento em instantâneos.
Um ecrã de proteção rebentou numa avalanche de fragmentos. Os cabos pendurados cuspiram faíscas que dançavam no ar com um chiado agonizante e que eram o último suspiro de um sistema moribundo.
— Impressionante. Toda essa força, todo esse potencial, e você a desperdiça servindo a eles.
As paredes foram cedidas sob a pressão à qual foram sujeitas. A contorção de vigas de aço deu origem a gemidos metálicos, submetidos à energia negativa brutal gerada pela colisão no espaço entre nós.
Um suporte do teto desprendeu-se. Fez um rugido e lançou estilhaços de metal. Estes ricochetearam no chão como balas perdidas.
Luzes de emergência piscavam numa cadência frenética por entre a agonia, testemunhando impotentes o duelo que consumia a sala.
— Você é um erro.
— Não. Eu estou na minha melhor forma.
Na escuridão, apenas nossas presenças permaneciam, como dois sóis negros prestes a colidir e consumir tudo ao nosso redor.
A agitação súbita no meu peito ecoou em mim num alarme distante. O coração disparou como um pássaro que batia asas desesperadamente contra a gaiola do corpo. Esta sensação não me era estranha, na verdade, conhecia-a em primeira mão, porque não se tratava de medo, mas sim do limite. O limite intangível onde a minha natureza se deparava com a barreira final da alma que habitava.
Cada batida cardíaca acelerada marcava o limite da minha expansão, o momento em que o nosso pacto simbiótico atingia o seu ápice. Esta pressão asfixiante, este abraço de ferro contra os ossos…
“A parte dele ainda continua recusando a ser completamente tomada. Ele está lutando pelo seu próprio território.”
A fronteira tênue entre nós tornava-se gradualmente mais difusa. Eu teria a capacidade de forçar mais, de empurrar para além deste limiar e de afogar o que restava dele no meu poder. A única desvantagem seria o custo, que corresponderia à perda desta conexão tão invulgar.
A minha própria existência, como mais do que um mero destruidor, seria destruída se eu perdesse o equilíbrio que me permitia existir. Esta luta interna era o preço da minha autonomia, o tributo que pagava pela liberdade que tão arduamente conquistara, e que me custara tanto, e que me fizera perder tanto, mas que, no entanto, me proporcionara tanta autonomia.
Inspirei fundo, mas os meus pulmões encontraram apenas um vácuo pesado, saturado de uma opressão que não era uma substância física, mas sim uma resistência pura ao meu ser.
Um assobio fino e persistente soou, um som que não vibrava no ar, mas sim na percepção. Da escuridão, desenrolou-se uma névoa translúcida. Aquilo não era um gás, aparentava ser algo orgânico e consciente. Partículas de luz azul rodopiavam em seu seio e formavam um espetáculo de beleza sinistra que me provocou um arrepio.
— O quê…?
A minha pele causou uma reação paradoxal logo ao primeiro contato. Calor que não queimava, frio que não gelava, numa sucessão de sensações que me deixavam confuso. A névoa não me afetava; absorvia a energia negativa que eu irradiava, e colidia com a minha própria essência numa tentativa de me anular.
Os meus joelhos bateram no chão. Um tremor incontrolável percorreu-me, contraindo cada fibra muscular de forma convulsiva, numa luta visceral pela sobrevivência contra um algoz que não atacava a carne, atacava a alma.
— Ngh…
Do canto do olho, vi o casulo que Benjamin se tornara também sucumbir.
A luz fraca e espectral das fissuras nas paredes era ofuscada pela névoa azul, que se infiltrava nelas como um fluxo contínuo, esvaindo-se e purificando o ambiente.
As fissuras nas paredes emitiam um brilho tênue, enquanto o gás se infiltrava nas fendas como água no caminho de menor resistência.
As luzes tremeluzentes cessaram, dando lugar a uma luminescência suave e constante.
O Mephsito ficou mais contido, mais furioso, mas de alguma forma… perdeu força.
A última coisa que vi, ao olhar para trás, foram dois pontos brilhantes de vermelho-sangue, antes que minha visão escurecesse completamente. Meu discernimento se esvaeceu como uma gota d’água entre os meus dedos, e tudo se apagou.

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