Capítulo 9 - Rédeas soltas
Nos dias seguintes, passei a chamar aquilo de nós, mesmo que nunca tivesse existido um pedido, um compromisso assumido. Era mais simples desse jeito. Isso dava contorno ao que, na verdade, era só uma sucessão de pequenas concessões que eu aceitava como se fossem gestos naturais de afeto.
Passei a ser procurado com mais frequência por Sarah. Os lugares eram sempre os mesmos: próximo à escada, atrás do ginásio, no canto do pátio onde o barulho não chegava inteiro. Ela dizia que o motivo do seu afeto era a minha ausência de exigências. Tomei isso como elogio, mas era uma descrição perfeita da função que eu estava assumindo.
A minha espera por ela se estendia até o fim dos intervalos, mesmo quando o sinal já tinha tocado; esperava depois das aulas, sentado no banco, fingindo mexer no celular, porém olhando cada rosto que passava; esperava sem reclamar, pois cachorros fiéis não reclamam por serem seres que aprendem o horário do dono.
Em caso de atraso, não fazia perguntas sobre o motivo. Falava que estava tudo bem antes. Se ela esquecesse algo na sala, ia buscar.
Houve dias em que Sarah me pediu que segurasse sua mochila enquanto ela conversava com outras pessoas. Nessas horas, eu ficava parado, vendo de longe, tentando não parecer bobo.
Em certas ocasiões, ela me chamava apenas para não ficar sozinha. Embora não fosse para conversar de fato, mas apenas para preencher o espaço ao seu lado. Eu sempre aceitava. Mesmo em silêncio, estar ali era melhor do que não estar em lugar nenhum.
Aquilo marcava o início de algo bonito, pensei, mesmo que não houvesse beijos, mãos dadas ou palavras claras. Essas ausências eram preenchidas com imaginação. Imaginei cenas que nunca aconteceram e promessas que nunca foram feitas.
Na minha cabeça, nós já éramos alguma coisa.
Eu evitava as pessoas de quem Sarah não gostava, muitas vezes sem que pedisse diretamente. Mudava de rota para não cruzar com certos rostos. Engolia comentários, piadas e vaidades.
Um dia, ela disse que não estava com fome e não queria ir sozinha à cantina, então eu deixei de almoçar. Meu estômago roncava enquanto eu ficava ali, sentado com ela. Aquilo me pareceu uma prova de lealdade.
Eu a defendia em conversas das quais ela nem sabia da existência. Justificava suas ausências e atitudes. Colocava palavras gentis onde, às vezes, só havia apatia.
Cuidava da imagem dela como se cuidar dela fosse, de algum modo, cuidar de mim.
E, aos poucos, comecei a desaparecer em pedaços.
Um interesse que eu deixava de mencionar, uma opinião que eu guardava, uma vontade que eu adiava indefinidamente. Tudo em nome de manter aquela proximidade frágil, aquela ilusão de escolha.
Eu me chamava de cachorrinho, mas era uma brincadeira. Ria de mim mesmo. Acreditava que era exagero, que eu só estava apaixonado. Afinal, todo mundo faz coisas idiotas quando gosta de alguém.
Mas a brincadeira começou a perder a graça quando o riso deixou de ser só meu.
Sarah foi ficando diferente. Ela não precisava que isso acontecesse de forma brusca, visto que afastamento veio em doses pequenas, com respostas mais secas; olhares que não mais me procuravam quando eu chegava; toques que desapareceram como se nunca tivessem existido.
Para não incomodar, preferia falar menos. Concordava mais para que o atrito não fosse criado. Realizava também outras atividades por ela, como se o empenho adicional pudesse recuperar algo que eu nem percebia quando tinha iniciado a perda.
Mas, à medida que eu me moldava, a garota parecia cada vez mais distante, e foi aí que o peso dos olhares dos outros começou a ser sentido.
No começo, as pessoas riam quando eu passava, os comentários que cessavam rápido demais, as pessoas cochichavam enquanto olhavam na minha direção. Fazia de conta que não percebia, porque ter consciência da situação causava mais dor do que simplesmente negar.
Porém, negar se tornara exaustivo, e todos na escola pareciam determinados a me lembrar disso o tempo todo.
— Lá vai o cachorrinho dela.
— Sempre atrás, né?
— Aposto que ele acha que eles têm alguma coisa.
Eu ouvia, só não respondia.
Me sentia insignificante. Era como se tudo o que fiz por Sarah tivesse se transformado em espetáculo, numa piada pública e prova da minha ingenuidade.
O pior não era a chacota dos outros, a garota via tudo e não fazia nada.
Ela não me defendia, mas também não deixava de sorrir, embora não diretamente para mim, evidentemente.
Ainda assim, isso era o suficiente para que eu entendesse que não havia erro algum ali. Aquilo era conveniente demais para ser interrompido.
Foi nesse ponto que algo se rompeu de verdade.
Comecei a sentir vergonha de mim mesmo. Vergonha das vezes em que corri atrás. Vergonha das horas perdidas esperando. Vergonha de ter acreditado que aquilo era amor, quando sempre foi manipulação.
A vergonha não era só por causa do que eu tinha feito, mas também do que permiti que fizessem comigo. Ela não me enganou à força, nem precisou. Eu me encontrava excessivamente acessível e dependente. Sarah só entrou onde já havia uma rachadura e acomodou-se ali como quem encontra um lugar confortável.
Encontrava-me em um estado de fragilidade e fome por qualquer sinal de conexão.
Não me apaixonei por quem ela era, apaixonei-me pela versão de mim que sua presença fazia parecer possível.
Quando eu já estava fundo demais, quando minha identidade já tinha sido dobrada, diminuída e guardada no bolso dela, Sarah simplesmente soltou as rédeas.
Era preciso dar o nome certo às coisas. Manipulação era uma palavra feia, que queimava a língua, mas se encaixava perfeitamente no vazio deixado por Sarah.
Pensar assim não era puni-la. Estava me preservando, um ato tão brutal e necessário quanto arrancar um espinho com os dentes. Perseverar na designação daquilo como amor seria equivalente a habitar uma edificação condenada e atribuir aos tijolos a responsabilidade por sua queda. A culpa não era do material, a culpa era do arquiteto que usou cimento podre.
Esse rancor, tal desdém que se originara nas profundezas da minha mente, encontrava-se inerte. Estava enterrado sob camadas de rotina e de uma solidão que eu havia aceitado como normal.
Até aquele momento.
— Marie…?
A menina não chorava, mal respirava, de forma curta e ofegante, como se o simples ato de puxar ar doesse. A roupa dela estava toda manchada de alguma coisa molhada que eu não queria saber o que era. O que mais me incomodava em tudo isso não era a sujeira, mas sim a ausência no seu olhar.
Conhecia aquele olhar. Era o mesmo que eu via no espelho, após cada conversa com Sarah que terminava comigo me sentindo inferior, mais confuso, e inexplicavelmente grato pela atenção recebida.
Como se um reator nuclear, há anos em modo de espera, recebesse a ordem final e, discretamente, todos os seus mecanismos passassem a operar em sua capacidade máxima. O ódio que eu acreditava ter subjugado, ou ao menos aprisionado, não se encontrava em estado latente. E, ao se deparar com Marie, ele achou a representação ideal da sua razão de ser.
Os meus punhos se fecharam sozinhos, e as minhas unhas cravaram a carne das minhas palmas com uma pontaria dolorosa. Naquele momento, o ódio não era só um sentimento, tornou-se uma bússola, e a agulha tremia. Seu ponto de mira não era apenas os rostos anônimos no pátio, tinha como alvo o que havia por trás disso.
Para a arquiteta do cimento podre.
Dei um passo à frente, mas Edward me puxou pelo braço.
— Que porra é essa, cara?! — Me virei para ele. — Qual é o teu problema?
— Fica na tua e não se mete, ou você só vai se dar mal! São vários contra um, só vai ser espancado!
— Espancado? É sério isso? Cê quer que eu fique parado aqui, esperando eles terminarem?
— Krynt, você não entende…
— Não entendo o quê? Que eu não posso fazer nada enquanto eles machucam a Marie, caralho? Que eu tenho que ficar parado, como um covarde?!
— Escuta…
— Não! — gritei, colocando mais força para me soltar. — Foda-se você e sua covardia!
Os seus olhos nos meus não transmitiam firmeza. A hesitação era quase nítida, como se ele estivesse prestes a dizer algo importante, mas não tivesse coragem suficiente para o fazer.
Suas sobrancelhas se contraíram levemente. Ele abriu a boca como se fosse responder, mas nada saiu. Restou apenas um olhar frustrado, um tanto suplicante, que me deixou ainda mais irritado.
Mesmo que tudo acabasse da pior forma, que os meus ossos se partissem, que o meu corpo falhasse, eu precisava protegê-la. Não era uma opção, era uma obrigação que pulsava nas minhas veias como um instinto que não podia ser ignorado.
Queria que um deles, só um, fosse suficientemente idiota para se aproximar de mim, para abrir a boca e repetir aquelas palavras. Bastaria uma provocação, um empurrão, qualquer coisa. Desejava com todas as forças que me dessem uma desculpa para transformar a minha raiva em ação.
— Vamos lá, não perca tempo, mate todos eles. Não é isso que você quer? É isso mesmo que você deseja.
Um pensamento, uma voz semelhante à anterior me passou pela cabeça por um momento.
— Deixe-me sair. Eles não merecem esta misericórdia.
Aquele sangue escorrendo pertencia à Marie.
Eles precisavam pagar por isso.

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