Capítulo 15
“A temporada de chuva começou.”
Riftan, que tinha retornado com os cavalos, olhou para o céu. Maxi seguiu seu olhar. Milhares e milhares de estrelas brilhantes cintilavam no céu noturno limpo. Maxi inclinou a cabeça. Não havia sinal de chuva.
Um cavaleiro que estava dividindo gravetos secos para alimentar a fogueira concordou silenciosamente com Riftan.
“É aquela época do ano. Estamos bem no meio de Etherias.1”
“Só de pensar em percorrer as montanhas na chuva é deprimente. Sua armadura fica mais pesada, suas grevas afundam na lama…” resmungou outro cavaleiro que estava aquecendo as mãos perto do fogo.
“Chegaremos a Anatol antes disso. Não precisa se preocupar.”
“Você esqueceu? Temos que partir novamente para a capital em apenas alguns dias!” O cavaleiro resmungão franziu o cenho e olhou para Maxi, que estava ao lado de Riftan como um patinho se aconchegando contra sua mãe.
“Já perdemos tempo suficiente por causa do desvio. Não vai ser nada bom manter o Rei Reuben esperando por mais tempo.”
“Não pode ser evitado quando a estação chuvosa começa.” disse Riftan, amarrando as rédeas a uma estaca antes de se sentar ao lado de Maxi.
O cavaleiro loiro Ricaydo, que estava ouvindo em silêncio, reagiu com incredulidade.
“O herói que derrotou o grande dragão está desobedecendo ao chamado do rei por causa de uma tempestade?”
“Quem disse que estou desobedecendo? Estou apenas sugerindo um pequeno atraso.”
“Já perdemos tempo demais! Se mantivermos o rei esperando por mais tempo—”
Suas palavras feriram Maxi como se tivesse sido chicoteada. O sangue sumiu de seu rosto, e ela apertou o vestido com os punhos. O rosto de Riftan endureceu.
“Ursuline Ricaydo. Cale a boca.”
Os lábios do cavaleiro se contraíram como se não tivesse terminado, mas a voz ameaçadora de Riftan o calou.
Um pesado silêncio envolveu o acampamento. Apenas o crepitar da lenha queimando era audível até que um dos cavaleiros quebrou a quietude. Ele falou com tanta alegria que parecia leviano.
“Concordo com o comandante” disse ele, coçando a cabeça. “Não quero entrar na capital parecendo um vira-lata ensopado pela chuva. Trabalhamos três anos para essa campanha! Pelo menos deixem-nos voltar com armaduras brilhantes!”
“Idiota! Aparências são tudo que importa para você?”
“Senhor Ursuline, o senhor Hebaron tem um ponto. Por que não aproveitamos essa oportunidade para mostrar à capital que os Dragões Branco não são para serem menosprezados?” observou Ruth, que tinha estado observando a cena se desenrolar das sombras.
Hebaron Nirtha ergueu o queixo triunfantemente.
“Viu? Até nosso feiticeiro diz que estou certo.”
Ruth tentou apaziguar o cavaleiro loiro. “Por enquanto, observamos para onde o vento sopra. Pode ser que haja tempo antes que as chuvas comecem.”
O clima ficou mais leve, e Maxi soltou silenciosamente o ar. Ela deduziu da conversa deles que o desvio para o Ducado de Croyso havia atrasado consideravelmente a chegada deles à capital.
Ela se lembrou do mapa do Continente Roviden que havia visto uma vez na biblioteca do castelo. Localizado na extremidade sudoeste do continente, Anatol ficava em uma pequena península que se projetava para fora no Mar Isirian como a cabeça de uma serpente. Ela vagamente se lembrava de ouvir dizer que a terra era cercada por montanhas acidentadas e fazia fronteira com um vasto oceano ao sul.
Drachium, a capital real de Wedon, ficava no canto noroeste do reino, ao norte de Anatol. Para chegar a Drachium de Aranthal, o local da Campanha do Dragão, o caminho mais rápido era seguir o rio Yserium rio acima. O conhecimento de geografia de Maxi era limitado, mas não era difícil ver que eles estavam seguindo uma rota alternativa.
Será que eles provocaram a ira do rei por minha causa?
Maxi entendia por que o Senhor Ursuline estava tão ansioso para chegar à capital. Riftan havia recusado a oferta do Rei Reuben pela mão da princesa em casamento. E agora ele estava desobedecendo ao chamado do rei, destinado a honrar sua vitória na Campanha do Dragão. O estômago se contorceu dela.
Não pode ser por minha causa. Deve haver algum outro motivo. Que tipo de cavaleiro desobedeceria ao chamado de um rei apenas para trazer sua esposa para casa?
Ela ignorou suas preocupações iniciais. Era simplesmente absurdo que Riftan fosse a tais extremos por ela. Nesta era de lordes, o poder dos reis havia diminuído; lordes que possuíam vastas extensões de terra e a mão de obra necessária para mantê-las muitas vezes exerciam maior influência do que os reis. Mas, ao contrário dos monarcas dos outros seis reinos, o Rei de Wedon ainda mantinha considerável poder.
O Rei Reuben III havia conquistado a lealdade de centenas de cavaleiros de alta patente através de demonstrações de poder. Era implausível que Riftan negligenciasse seus deveres para com um rei desse tipo por ela.
“Vamos, não precisamos nos cansar com argumentos improdutivos. Vamos comer.”
Um cavaleiro que estava cortando uma roda de queijo começou a distribuir os pedaços. Riftan passou a Maxi uma taça de vinho, que ela bebeu para acompanhar o pão seco que havia passado a detestar. Depois de um jantar de carne salgada, pão e queijo, ela entrou na carruagem.
Apesar de sua completa exaustão, ela não conseguia pegar no sono. Seus pensamentos vagaram para a noite seguinte, quando chegaria à sua nova casa. Como seria Anatol? Apenas alguns dias atrás, ela tremia de medo, mas agora, mesmo enquanto a ansiedade a agarrava, uma pequena esperança brilhava em seu coração.
Talvez eu consiga começar uma nova vida.
Mas temendo a decepção, ela reprimiu a esperança que brotava dentro dela.
Minha boa sorte não durará para sempre.
Ela não apenas escapara da ameaça de divórcio, mas também se libertara do terror que era seu pai. E seu temível marido não havia se revelado um homem sem coração – pelo contrário, ele era gentil. Muitas coisas boas haviam acontecido de uma vez, e Maxi sabia que a deusa da fortuna raramente sorria.
Puxando o cobertor até o pescoço, ela resolveu que, aconteça o que acontecer, seria corajosa.
O sol estava em seu auge quando chegaram ao pé da montanha no dia seguinte. Um caminho estreito levava para o vale, e ao lado do caminho ficava uma pequena torre de vigia. Quatro sentinelas rapidamente saíram para cumprimentar os cavaleiros antes de conduzi-los a uma área de descanso, onde puderam sentar-se à mesa para uma refeição adequada de ensopado quente e batatas assadas.
Após saciar sua fome, eles cavalgaram novamente. Decidiram tomar a rota mais direta para chegar a Anatol antes do pôr do sol, o que significava que Maxi tinha que descer da carruagem para cavalgar com Riftan. Ela já havia montado pôneis e potros antes, mas nunca um cavalo de guerra. Permanecendo desajeitada no cavalo, ela segurou nervosamente a sela. Riftan envolveu um braço em torno de sua cintura e a puxou para perto dele.
“É um atalho, então será uma viagem agitada. Apoie-se em mim se quiser descansar.”
Ela não queria ser um fardo, mas com sua falta de habilidade de equitação, era impossível não se segurar nele enquanto cavalgavam pela montanha. Ela se agarrou desesperadamente aos braços dele, certa de que cairia do cavalo a qualquer momento, mas ele não proferiu nenhuma palavra grosseira.
Depois de cavalgarem um pouco, ouviram gritos de um cavaleiro na frente.
“Comandante! Há cinco lobisomens a dois thradions2 adiante!”
Os outros cavaleiros puxaram suas espadas. Paralisada pelo medo, Maxi agarrou as roupas de Riftan.
“É melhor você não me fazer cuidar disso!” gritou Riftan.
“Não se preocupe, Comandante! Estou louco por um pouco de ação!”
Com isso, Hebaron avançou, e os lobisomens rugiram. Vendo Maxi ofegante e tremendo de terror, Riftan a puxou para perto dele e enterrou o rosto dela em seu peito.
“Vai acabar logo. Mantenha os olhos fechados.”
Ela fechou os olhos e pressionou as mãos nos ouvidos. Mas não conseguiu bloquear o som dos choques de espadas e rugidos bestiais.
“Comandante! Acima de você!”
Maxi olhou reflexivamente para cima e gritou. Rápido como um raio, um monstro com pelagem escura pulou de um galho e se lançou para eles. Mas antes que a criatura pudesse alcançá-los, foi cortada ao meio no ar.
Antes que pudesse entender o que acabara de ocorrer, Maxi se viu olhando para baixo para um cadáver caído. Riftan estalou a língua ao ver sua capa salpicada de sangue.
“Você nem sabe contar, Gabel? Eram seis, não cinco.”
Gabel coçou a cabeça envergonhado, tendo corrido tarde demais.
“Lobisomens pretos podem usar feitiços de ocultação…”
Riftan resmungou em resposta, então impulsionou seu cavalo para frente. Monstros com corpos de humanos e cabeças de lobos jaziam mortos nas raízes das árvores que se projetavam do chão como cobras enroladas. Depois de limparem suas espadas, os cavaleiros montaram novamente em seus cavalos.
A incrível força deles deixou Maxi de boca aberta. Ela tinha lido sobre lobisomens alguns anos atrás e sabia que tinham ossos tão duros quanto ferro fundido e pele tão resistente quanto armadura de cota de malha. Eles não podiam ser facilmente mortos nem mesmo com uma espada de aço, mas a espada de Riftan tinha partido esses monstros ao meio limpo.
“Devíamos nos apressar. Pode haver mais deles por perto” disse Ruth, vasculhando a área.
Os outros cavaleiros concordaram com a cabeça, e os cavalos começaram a galopar pelo caminho inclinado. Maxi cerrava os dentes para evitar que mordessem sua língua. Por muitas horas, eles cavalgaram por caminhos rochosos e densamente arborizados de montanha. Quando passaram o pico, Maxi foi saudada por uma vista panorâmica.
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