Índice de Capítulo

    “E-Ele fez isso?”

    Maxi piscou, mal acreditando no que ouvia.

    A Princesa Agnes parecia igualmente desconfortável. Ela varreu irritantemente os fios dourados soltos que pendiam em sua testa. Enquanto estudava ansiosamente o rosto de Maxi, sua atenção lembrou Maxi de um cavaleiro avaliando a força de uma arma.

    Como para confirmar a determinação de Maxi, a princesa apertou suas mãos e disse: “Os cavaleiros conseguiram acalmá-lo, mas… ele não está de bom humor. Você acha que ficará bem?”

    A expressão de Maxi ficou preocupada. O que exatamente seu pai tinha feito para a princesa ter tal reação? Ela sabia que ele não era o tipo de homem que jamais perderia a compostura diante dos nobres. Afinal, ele sempre representara perfeitamente o papel de um pai benevolente e indulgente.

    Embora a açoitasse na frente dos servos, ele pressionaria seus lábios frios em sua bochecha como um pai amoroso em público. Era esse o tipo de homem que ele era. Ela se perguntava o que o tinha deixado tão agitado.

    Cheia de medo, Maxi limpou a garganta. “Posso perguntar o que o deixou… tão zangado?”

    “Bem, claramente ele estava chateado por causa do que você passou e…”

    Agnes engoliu em seco e olhou para baixo como se não soubesse como continuar. Maxi quase riu com a absurda ideia. Seu pai nem piscaria se lhe dissessem que ela tinha morrido.

    Era possível que ele não estivesse com raiva, mas simplesmente mantendo a farsa. Sem dúvida, ele era obrigado a visitá-la para manter sua imagem.

    Sua tensão diminuindo um pouco, Maxi saiu da cama. Ela deveria ser capaz de suportar dez minutos. Afinal, não o tinha suportado por vinte e dois anos?

    Ela se encheu de coragem. Como o Duque de Croyso se preocupava muito com as aparências, ela não achava que ele a atacaria enquanto estivesse sob a proteção da princesa. Ela era uma Calypse agora, não uma Croyso, ela se lembrou. Seu pai não podia mais a tratar como bem entendesse.

    “Eu vou me vestir… e descer em um minuto.”

    A Princesa Agnes ficou, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas ela apertou os lábios juntos e saiu do quarto. Embora o comportamento da princesa fosse desconcertante, saber que o Duque de Croyso estava esperando lá embaixo enviou Maxi a um frenesi de preparativos para parecer apresentável.

    Luz vazava da porta da sala de estar para o corredor. O estômago de Maxi se retorceu quando ela se aproximou. Parada a apenas alguns passos de distância, ela hesitou por um momento antes de fechar os olhos e entrar na sala luxuosa.

    “Minha senhora.”

    De pé perto da porta, Sir Elliot ofereceu respeitosamente sua mão. Maxi pegou-a desajeitadamente e atravessou a sala. Ursuline Ricaydo também estava presente, e ele tinha um olhar hostil voltado para seu pai.

    O Duque de Croyso estava com as mãos cruzadas atrás das costas.

    O coração de Maxi se transformou em gelo. Um olhar para seus olhos frios foi o suficiente para ela saber que ele estava furioso.

    “Faz tanto tempo, filha.”

    A voz de seu pai era ominosamente gentil. Quando Maxi apenas ficou parada, seus lábios se curvaram em um sorriso.

    “Você não vai cumprimentar seu pai?”

    Ouvindo a ameaça velada, Maxi rapidamente abriu a boca. “F-Faz… faz muito tempo, Pai. F-Fico feliz em ver—”

    “Eu ouvi tudo,” ele disse, interrompendo-a. “Deve ter sido extremamente difícil para você.”

    Sentando-se em uma cadeira com estofamento de seda espessa, o Duque de Croyso mexeu com um botão em sua roupa. Seu tom era enigmático quando ele falou.

    “Todos na capital estão falando sobre você. Me senti terrível quando ouvi a notícia.”

    “Vossa Graça!”

    Era Elliot, que estava quietamente atrás de Maxi. A raiva surgiu no rosto do duque com a impertinência do cavaleiro.

    “Você não vê que estou conversando com minha filha? Não é uma conversa na qual você se atreveria a interromper.”

    “Temos ordens de Sir Riftan para proteger Sua Senhoria.”

    “Você está insinuando que sou um perigo para minha própria filha?”

    “Mas a senhoria não—”

    Elliot parou abruptamente e lançou um olhar para Maxi. Incapaz de entender sobre o que estavam falando, Maxi olhou de uma pessoa para a outra, confusa.

    O Duque de Croyso soltou um suspiro. “Já falei sobre minhas intenções, não falei? Minha filha merece saber a verdade. Espero que você não esteja sugerindo que se preocupa mais com o bem-estar dela, do que eu.”

    A cor sumiu do rosto de Maxi. Como esse homem podia dizer mentiras tão descaradas com uma expressão séria?

    Ignorando o olhar perplexo dela, o duque ergueu o queixo orgulhosamente e disse: “Gostaria que vocês nos deixassem agora. Quero falar com minha filha sozinho.”

    Os dois cavaleiros trocaram olhares antes de se voltarem para Maxi. Ela concordou relutantemente.

    “P-Por favor, nos dê um momento. Eu ficarei… b-bem.”

    “Então, estaremos na sala logo em frente. Nos chame se precisar de algo.”

    Os cavaleiros se viraram e saíram do quarto. Quando ouviu a porta se fechar atrás deles, Maxi agarrou ansiosamente seu vestido. O olhar de seu pai era como uma faca cortando-a. O veneno em seus olhos deixava todos os seus músculos tensos.

    No entanto, em vez de imediatamente lançar ameaças como ela esperava, o duque permaneceu em silêncio. Era um silêncio ominoso. Incapaz de suportar o silêncio torturante por mais tempo, Maxi falou primeiro.

    “P-Poderia perguntar… por que veio—”

    “Prepare-se para partir imediatamente para o Castelo de Croyso.”

    Maxi congelou com as palavras inesperadas.

    O duque fixou o olhar na janela como se não pudesse mais olhar para ela e continuou sombriamente: “Estou em processo de garantir o casamento de Rosetta com a família real. Não posso permitir que você permaneça aqui. Esteja pronta para partir hoje.”

    “M-M-Mas…”

    Maxi estava tão confusa que não conseguia encontrar palavras. Um olhar de pura desdém de repente passou pelo rosto de seu pai.

    “O que diabos você pensou que estava fazendo ao entrar na capital? Deveria ter permanecido quietinha naquela região afastada… como se atreve a vir aqui e envergonhar a mim?” rosnou o duque, sua voz ficando cada vez mais cruel.

    Tremendo, Maxi juntou as mãos. Seu pai não tinha mais o direito de mandar nela. A única pessoa que tinha autoridade sobre suas ações agora era seu marido, portanto ela não tinha motivo para tremer de medo. Lembrando-se repetidamente desse fato, Maxi falou o mais calmamente possível.

    “Não… não tenho intenções de atrapalhar as conversas de casamento. Meu marido… estará aqui para me levar para casa em alguns dias. Vou ficar quieta na residência da princesa… até lá.”

    “Você está desobedecendo uma ordem minha?” perguntou o duque, sua voz diminuindo um pouco.

    Contra sua vontade, a resposta de Maxi se tornou um pedido. “N-Não posso partir… q-quando Riftan estará aqui a qualquer momento. Não foi… sua vontade… que eu… preservasse este casamento?”

    “É exatamente por isso que estou te tirando daqui!”

    O duque se levantou e caminhou até ela. Maxi foi segurar a maçaneta da porta, mas seu pai foi mais rápido.

    Ele a puxou para trás e sussurrou em seu ouvido: “Que homem manteria uma mulher que não pode lhe dar herdeiros? Você pensou que ele a levaria de volta para a propriedade dele, quando retornasse à capital? Sua tola miserável! Você não ficará satisfeita até envergonhar nossa família diante de toda a nobreza?”

    “E-Eu… eu não entendo…”

    “Praticamente todo mundo no Castelo de Drachium está falando sobre o seu aborto. Que tipo de tola você é para não saber que perdeu um filho?!”

    As palavras se recusavam a afundar. Tudo que Maxi podia fazer era olhar para cima para seu pai com uma expressão em branco. Um aborto? O que diabos ele queria dizer? Sua audição ficou abafada, e seu rosto ficou branco.

    Como se sua raiva crescesse a cada minuto, o duque sacudiu violentamente Maxi meio atordoada.

    “O Rei Reuben levantou preocupações sobre a capacidade de Rosetta conceber ao mencionar você. Ele me zombou abertamente dizendo que estava preocupado de que Rosetta talvez não fosse fértil como sua irmã! Me diga, como se sente agora que conseguiu prejudicar as perspectivas de sua irmã também? Como pretende se responsabilizar se estas conversas de casamento desmoronarem?”

    “E-Eu… eu… n-nunca tive um… a-aborto! Deve haver um… m-mal-entendido…”

    Seu rosto contorcido de raiva, o duque levantou a mão. Maxi fechou os olhos lentamente, mas o golpe nunca veio. Quando ela abriu os olhos devagar, viu seu pai respirando pesadamente em um esforço para se conter.

    Ele se virou dela e pegou a bengala de marfim apoiada na cadeira. Ele se endireitou como se estivesse cansado de discutir com ela.

    “Não há necessidade de mais palavras. Você deve sair deste lugar antes que aquele de baixa estirpe chegue. Devemos evitar um divórcio até que o casamento de Rosetta seja finalizado. Eu não vou tolerar tanto um divórcio quanto um noivado quebrado… eu não permitirei que você desonre o nome dos Croyso e me transforme em motivo de chacota!”

    “Eu… não posso ir embora. Vou falar com Riftan… uma vez que ele chegue! E-ele me disse que não tem intenção de se divorciar de mim. I-Isso é verdade!”

    Maxi se agarrou à capa do pai. Apesar de seu rosto se contorcer de forma vil em resposta, ela não conseguiu parar. Parecia que o chão estava tremendo, e ela achou difícil se firmar. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos.

    “E-estou certa… de que meu aborto espontâneo é um mal-entendido também. Ninguém… me falou sobre isso. Eu estou a-apenas doente… por causa da magia…”

    “Devo mandá-la ser arrastada para casa?” disse o duque, cruelmente, afastando sua mão.

    Maxi o encarou com total incredulidade. Então seus olhos começaram a arder, e ela tremia com soluços violentos. Girando nos calcanhares, ela abriu a porta com mãos trêmulas e fugiu.

    Ouvindo as vozes elevadas, Ursuline, Elliot e a princesa Agnes correram para fora da porta no extremo oposto. Correndo até eles, Maxi implorou como uma suplicante em busca de uma resposta.

    “E-eu realmente perdi um filho? D-diga-me que não é verdade. M-Meu pai está enganado, não está?”

    “Maximilian…”, disse a princesa Agnes, seu rosto se contorcendo em angústia.

    Vendo a resposta no rosto da princesa, Maxi perdeu a força nas pernas. Ela cambaleou, e Elliot a segurou antes que ela caísse. Maxi esfregou o rosto e olhou vagamente para o chão. Um por um, flashes de palavras e comportamentos antes desconcertantes vieram correndo de volta para sua mente aturdida.

    O fato de que ela havia estado inconsciente por uma semana. Os olhares piedosos. A forma como todos a tratavam tão delicadamente. A expressão dolorida de Riftan…

    Alguma força invisível a tinha em um estrangulamento. Maxi lutava por ar.

    “P-por que… Por que você não me disse? Por quê?”

    “O comandante ordenou que nunca falássemos sobre isso”, respondeu Ursuline, impassível.

    “Você estava em condição crítica, minha senhora. Não só estava sem mana, mas estava sangrando profundamente. Você poderia ter morrido. Não achamos que você seria capaz de suportar o choque de perder um filho…”

    “O… o choque de… perder um filho…” Maxi murmurou atordoada, colocando a mão no abdômen.

    Seu filho estava bem ali um momento, depois desapareceu no próximo. Ela não sabia como aceitar esse fato.

    Ser informada sobre um filho abortado do qual nem mesmo estava ciente não a encheu imediatamente de angústia. Parecia mais que uma parte dela ficou paralisada. Um vago sentimento de perda se instalou dentro dela.

    Incapaz de lidar com essa verdade repentina, Maxi ficou atônita.

    A princesa Agnes lhe deu um tapinha no ombro. “Eu sei que dói, Maximilian… mas haverá outros filhos. O mais importante é que você esteja segura e bem.”

    Maxi olhou turvamente para a princesa, cujos belos olhos azuis estavam cheios de piedade. De repente, seu coração se apertou dolorosamente. Ela sabia muito bem o quão difícil tinha sido o parto de sua mãe, e como ela tinha sofrido inúmeros abortos antes de finalmente ter Maxi. Sempre que seu pai falava, sempre envolvia algum tipo de alfinetada na incompetência de sua mãe.

    Maxi tinha visto em primeira mão o destino que aguardava uma mulher que não podia produzir um herdeiro. A mãe de Rosetta tinha ficado mais fraca a cada dia até que, incapaz de sair da cama, ela faleceu. Seu coração se encolheu de medo.

    Não, Riftan era diferente. Ele nunca a submeteria a tamanha crueldade.

    Ele talvez não seja tão cruel, mas…

    Maxi mordeu o lábio. Seu peito doía de ansiedade ao lembrar de sua expressão sombria. Riftan talvez apenas estivesse se segurando para não culpá-la apesar de se sentir ressentido. Afinal, ele tinha implorado para ela ficar longe do perigo. Considerando o quão teimosamente ela tinha ido contra seus desejos, ela não teria nada a dizer se ele a culpasse por matar seu filho por imprudência.

    Sobrecarregada de desespero, Maxi enterrou o rosto nas mãos. Tremores incontroláveis sacudiram todo o seu corpo com o pensamento de que Riftan talvez não a queira mais.

    Elliot tentou desesperadamente consolá-la. “Por favor, minha senhora. Está tudo no passado agora. Você não deve ficar angustiada—”

    “N-não é passado para mim!” Maxi gritou, afastando sua mão.

    Elliot olhou para ela com uma expressão dolorida, e Maxi de repente se sentiu enjoada. Ela recuou. Naquele momento, o Duque de Croyso segurou seu braço por trás. Maxi sufocou um gemido enquanto o anel de ouro em seu dedo ossudo se cravava em sua carne.

    Envolvendo um braço nos ombros de Maxi, o duque virou-se para os cavaleiros e declarou: “Levarei minha filha para o Castelo de Croyso. Recuperar-se na casa de sua infância será melhor para ela.” 

    Os cavaleiros protestaram. “O Senhor Riftan estará aqui em breve! Sem a permissão dele, não podemos…”

    “Não permitirei que minha filha se torne fofoca para esses nobres frívolos. Vocês estão sendo extremamente inconsiderados.” O duque soltou um suspiro e dirigiu sua atenção à princesa.

    “Há alguém em Wedon ignorante das conversas de casamento que aconteceram entre você e meu genro, Alteza? O que seus fiéis servos pensam da minha filha?” 

    A face da Princesa Agnes corou com o repreendimento. “Não há nada entre mim e Riftan!”

    “E seus servos pensam o mesmo?” Com a face agora pálida, a princesa fulminou o duque antes de olhar de lado. Os servos parados no corredor baixaram as cabeças em uníssono.

    O duque clicou a língua. “Será apenas questão de tempo para que rumores maliciosos se espalhem por todo o castelo. Não posso permitir que minha filha permaneça aqui por mais tempo. Vou levá-la de volta ao Castelo de Croyso, para que você possa dizer a Calypse que ele pode vir buscá-la, se assim desejar.”

    Incapaz de objetar, a Princesa Agnes apertou os lábios. Ursuline tinha estado fulminando o duque durante toda a discussão. Ele agora virou seu olhar para Maxi.

    “Minha senhora… você deseja retornar ao Castelo de Croyso?”

    “Eu… ” Maxi se encolheu. Ela tinha estado parada como em transe, mal ouvindo a conversa como se não tivesse nada a ver com ela. A mão do duque em seu ombro apertou, ameaçando-a para a submissão. Embora seu aperto cruel a enchesse de terror, ela estava ainda mais assustada de enfrentar Riftan.

    “Sim…”, murmurou ela, sua voz vazia. Seus olhos ardiam com lágrimas quentes. Ela mordeu o lábio trêmulo e mal conseguiu conter os soluços que ameaçavam transbordar.

    “Eu quero… v-voltar ao Castelo de Croyso.”


    Folhas mortas flutuavam ao vento como traças. Através da janela da carruagem, Maxi encarava vagamente o Castelo de Croyso à medida que se aproximava.

    Uma rajada fria e nordeste varreu o morro, fazendo jus à reputação de Etherias como ‘a estação do vento’. Pássaros migratórios formavam um rio negro e agitado contra o céu azul, enquanto campos de trigo maduros sussurravam como um mar de ouro.

    A magnífica prisão em que Maxi estivera confinada por tanto tempo se erguia da paisagem outonal fria, exibindo sua beleza opulenta.

    Ajude-me a comprar os caps - Soy pobre

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota