Capítulo 20
Maxi virou-se surpresa ao ver Riftan olhando para ela. Apenas um momento atrás, ele estava parado a certa distância. Como ele se aproximou dela sem que ela percebesse?
“Ia embora sem dizer uma palavra?”
“Eu n-não queria t-te incomodar…”
“Você não está nos incomodando de forma alguma.”
Ele segurou seu braço e virou-se para olhar para os escudeiros. Os jovens, encharcados de suor e vermelhos devido ao esforço, olhavam para eles com curiosidade.
“Vamos fazer uma pausa!” Riftan bradou. “Voltaremos daqui a uma hora. Vão descansar no anexo.”
Então ele levou Maxi embora pela mão. Confusa, ela virou-se para olhar Rodrigo, mas o mordomo estava com as mãos educadamente entrelaçadas, deixando claro que não tinha a intenção de segui-los. Riftan não olhou para trás enquanto a conduzia pelo caminho.
“Você já comeu?”
“Eu… c-comi na s-sala de jantar… o m-mordomo estava me f-fazendo um t-tour pelo c-castelo…” Ela gaguejou sem encarar os olhos dele. Lembrando-se de como havia adormecido enquanto tomava banho com ele, ela sentiu as bochechas esquentarem.
“M-Me perdoe por t-te incomodar n-noite passada.”
“Incomodar?” ele perguntou, diminuindo o passo para poder olhá-la.
“E-eu a-acabei d-dormindo p-primeiro…”
“Está tudo bem. Você não está acostumada com viagens longas” ele respondeu bruscamente antes de retomar o ritmo.
Maxi estudou sua expressão. Apesar de suas palavras, ele parecia descontente.
“M-Mesmo assim, você deve ter f-ficado cansado também… mas teve que c-cuidar de m-mim…”
“Eu não estava cansado” Riftan respondeu friamente. “Muito pelo contrário.”
“P-Perdão?”
Sua pergunta atraiu um olhar afiado dele, fazendo-a estremecer. Riftan soltou um suspiro.
“Deixa pra lá. Você disse que estava dando uma olhada no castelo? Eu vou te guiar.”
“T-Tudo bem…”
Embora ela quisesse perguntar se tinha feito algo errado, decidiu que era melhor ficar quieta.
Eles atravessaram os jardins e subiram as escadas até as muralhas. No topo da parede, Maxi podia ver montanhas rochosas e penhascos íngremes ao longe. As colinas inclinadas estavam densamente cobertas por árvores verdejantes.
“Trinta a trinta e cinco sentinelas patrulham as muralhas todos os dias, vigiando os monstros” explicou Riftan. “Se avistarem inimigos, eles tocam o kopel.1 O som do chifre é um sinal para os cavaleiros liderarem nossas forças na batalha.”
Maxi contemplou a fortaleza que resistia firme aos ventos impetuosos. A estrutura do castelo era simples. Estava cercado por altas e robustas paredes, e em frente aos portões externos estavam os alojamentos dos cavaleiros e os campos de treinamento. A torre principal e o anexo podiam ser encontrados dentro dos portões internos. No geral, o castelo rústico se assemelhava a um gigante ajoelhado. Atrás dele havia um jardim espaçoso, e no centro desse jardim havia uma torre alta e esguia que parecia um espeto de ferro.
Notando o olhar inquisitivo de Maxi, Riftan explicou: “Ruth mora naquela torre. É perto das montanhas, então é mais fácil para ele usar magia à distância, caso necessário.”
Riftan franziu a testa com irritação.
“Mas não se aproxime muito” ele continuou. “Ele inscreveu runas mágicas estranhas por toda a torre em nome de suas pesquisas, e elas podem ser um verdadeiro incômodo para lidar.”
“R-Runas mágicas…?”
Ela olhou para ele, sua curiosidade aguçada. Parecia que ele tinha pouco desejo de explicar mais, levando-a ao longo da rota de patrulha em direção à parte traseira do castelo.
“O que você vê ali é o estábulo. Aquela é a cocheira, e aquela estrutura ali é o celeiro. Mantemos sempre o celeiro abastecido caso sejamos cercados.”
A voz monótona de Riftan vacilou enquanto ele observava sua expressão.
“Devo estar te entediando. Não sou muito bom em contar histórias. Especialmente com mulheres…”
“N-Não, eu n-não estou entediada.”
Ela lhe deu um meio sorriso. Era difícil imaginar Riftan fazendo brincadeiras ou conversando com mulheres. Ainda assim, era difícil acreditar que ele fosse inexperiente na arte da conquista. A menos que ele tivesse se transformado recentemente em um homem bonito, Riftan havia vivido vinte e oito anos como um jovem bonito. Era improvável que as mulheres o tivessem deixado em paz.
Cada cavaleiro que visitava regularmente o Castelo de Croyso era um mestre na arte da conquista. Várias vezes, Maxi ouvira as criadas rirem enquanto sussurravam animadamente sobre as habilidades sedutoras dos cavaleiros. Em algum momento, Riftan deve ter conquistado uma jovem criada, ou talvez até uma bela nobre. Maxi recordou-se de sua menção ao costume do norte de a esposa do anfitrião atender aos hóspedes enquanto eles se banhavam. Como mais ele teria aprendido tais práticas?
O ânimo de Maxi despencou. Os feitos passados dele não eram de seu interesse.
“O que houve? Você está franzindo a testa.”
Maxi rapidamente pensou em uma desculpa. “Oh, o v-vento e-está um pouco f-frio.”
Riftan envolveu um braço em torno de seus ombros. Ela prendeu a respiração diante do avassalador cheiro masculino emanando do corpo dele.
“Eu deveria t-ter mandado p-preparar roupas mais quentes.”
“Está t-tudo bem. E-está s-sol. Se o v-vento não e-estivesse soprando, estaria c-quente…”
“Você gosta do vestido?”
Ela olhou para suas roupas. Ele acharia estranho se ela lhe dissesse que nunca tinha vestido algo tão bonito.
“S-Sim, eu gosto.”
“Vou chamar a costureira para vir ao castelo para que você possa pedir o que quiser. Você pode ter dezenas de vestidos, até centenas.”
Riftan ergueu o queixo dela e a olhou com um olhar penetrante. O sangue subiu ao rosto dela. Será que isso era um ato de um homem que não sabia nada sobre conquista? Ela desviou o olhar.
“É i-isso um h-hábito seu?”
“O que você quer dizer?”
“Sempre m-me dizendo que v-vai me d-dar qualquer c-coisa que eu q-quiser.”
Ele franziu a testa diante de sua franqueza. “Eu estou falando sério. Eu disse que não te daria nada menos do que você tinha no Castelo de Croyso.”
Maxi engoliu em seco. Ela não havia vivido no luxo nem recebido as coisas que desejava. Ele ainda seria tão gentil com ela se descobrisse que ela não era a nobre que ele imaginava? Ela se sentia como se o tivesse enganado.
“Eu… eu gostaria de v-voltar para d-dentro e d-descansar agora” murmurou ela, tentando evitar seus olhos.
“Você está cansada?”
Vendo-a assentir, Riftan deu um passo à frente. Um vento forte soprava pela densa floresta na montanha. As árvores pareciam uivar, fazendo Maxi parar no caminho. O vento trazia consigo um inexplicável aroma de solidão.
Eu vou viver com esse aroma pelo resto dos meus anos?
Seus olhos repousaram brevemente na paisagem sombria antes de ela se virar para seguir Riftan.
Maxi voltou para seu quarto sozinha, pois Riftan havia retornado lá fora para supervisionar o treinamento dos escudeiros. Enquanto ela se sentava ao lado da lareira, Ludis lhe trouxe uma bandeja de chá de gengibre e biscoitos salpicados com frutas secas.
“O Senhor Calypse realizará um banquete com os cavaleiros esta noite” disse Ludis, servindo-lhe mais uma xícara de chá. “Você gostaria de um novo traje para a ocasião, minha senhora?”
Maxi a olhou confusa. “N-Novo traje?”
“Sim. Esta é sua primeira aparição como esposa do Senhor Calypse. Eu pensei que poderia ser útil para você se vestir adequadamente para a ocasião, minha senhora…”
Ludis se interrompeu, seu rosto se tensionando. Ela baixou a cabeça e continuou.
“Eu… eu falei fora de hora, minha senhora. Por favor, me perdoe.”
“N-Não, está tudo bem.”
Maxi olhou para o espelho que estava contra a parede. O elegante coque que Ludis havia feito com tanto cuidado havia se desarrumado no vento. Ela arrumou os fios soltos e assentiu.
“Então, p-por favor…”
Ludis levantou-se e saiu do quarto com a chaleira na mão. Ela retornou com uma pequena caixa contendo um pente, água perfumada e joias. Maxi sentou-se em frente ao espelho enquanto Ludis desfez rapidamente seu cabelo e o penteou até brilhar sob a luz. Maxi estava acostumada com sua ama penteando com uma força que ameaçava arrancar seu couro cabeludo. Em contraste, as mãos de Ludis pareciam milagrosamente habilidosas.
“Você gostaria de um grampo de cabelo, minha senhora? Ou uma tiara, talvez?”
Ludis abriu a caixa de joias. Sobre o cetim vermelho estavam broches adornados com pedras preciosas, colares de pérolas, anéis de ouro e grampos de cabelo de prata. Os olhos de Maxi se arregalaram de admiração.
Até onde Maxi sabia, Riftan não tinha mãe, irmãs ou outros membros da família. Então, por que ele tinha todas essas joias? Era estranho também, na verdade, que ele tivesse preparado um vestido tão extravagante no dia seguinte à sua chegada. Poderia ter pertencido a uma antiga amante?
“Minha senhora, esses não são do seu agrado?”
“N-Não, eles são lindos…”
Maxi concentrou sua atenção nos ornamentos, tentando ignorar o estranho sentimento.
“P-Por favor, use es-este grampo de cabelo…”
“Sim, minha senhora.”
Ludis trançou o cabelo de Maxi e o enrolou em um coque espesso, fixando-o com um grampo de cabelo cintilante cravejado com joias em forma de flores. Em seguida, ela pendurou um colar de pérolas no pescoço de Maxi e deslizou um anel de cristal em seu dedo. Maxi contemplou a si mesma ricamente vestida como se fosse uma estranha. Com as bochechas coradas, olhos vacilantes e expressão incerta, ela parecia uma criança desajeitada que havia roubado as joias de sua mãe.
“Devo trazer outras joias se essas não forem do seu agrado?” Ludis perguntou cautelosamente. Ela estudou a expressão de Maxi enquanto alisava as pregas na saia de sua senhora.
Maxi balançou a cabeça.
“Es-estas estão ó-ótimas. S-São suficientes.”
Ludis levantou-se de sua cadeira, visivelmente aliviada. Maxi envolveu um xale fino ao redor dos ombros e saiu do quarto. Do lado de fora, o sol já estava se pondo.
- Um tipo de chifre, pra ser mais exata um berrante[↩]
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