Capítulo 63
Maxi ergueu os olhos da página e lançou a Ruth um olhar inquisitivo.
“N-Não foi você que deixou a torre p-porque odiava estar lá?”
“O que eu não gostava eram as regras da torre, não a torre em si. Afinal, é o único lugar no mundo onde centenas de magos bem educados se reúnem para cultivar suas habilidades.”
Ouvindo o sutil anseio na voz de Ruth, a curiosidade de Maxi cresceu. Nornui era uma ilha isolada que raramente permitia a entrada de estranhos. Embora seu porto fosse frequentado por mercadores dos Continentes Sul e Oeste, apenas magos autorizados podiam entrar na Torre.
Gerações de bardos haviam cantado sobre a enigmática ilha por todo o continente. Tendo ouvido essas canções, Maxi havia desenvolvido suas próprias fantasias sobre o lugar, e por isso ela naturalmente ficou intrigada pelas palavras de Ruth.
“T-Todos os magos estudam na T-Torre dos Magos?”
“Você não está estudando magia em Anatol, minha senhora?” Ruth balançou a cabeça, parecendo exasperado. “Aprender magia elemental requer estudo na Torre dos Magos, mas aprender magia básica não. A maioria dos magos itinerantes que trabalham com mercenários não estão afiliados à Torre.”
“M-Magia elemental?”
Maxi inclinou a cabeça. Ruth coçou a cabeça, surpreso por ainda não ter explicado o conceito.
“Como você aprendeu em Introdução à Magia, a mana é composta por seis elementos diferentes: vento, água, terra, fogo, luz e escuridão. A mana é o equilíbrio perfeito desses elementos, enquanto a magia elemental envolve a extração e acumulação de um único elemento dentro do corpo antes de usar essa energia pura. Por outro lado, a magia básica envolve a acumulação de todos os seis elementos em proporções iguais.”
“N-Não é melhor usar todos os elementos do que usar a-apenas um?”
“Não. Quanto mais instável a fonte de energia, mais poderosa a magia se torna. Portanto, a magia concentrada em um elemento é dez vezes mais poderosa do que a magia típica. Vamos dizer que temos seis tijolos. Se você colocá-los em fileiras arrumadas no chão, será difícil dispersá-los. Isso porque eles estão em um estado estável. Mas se você os colocar em um monte, pode derrubá-los facilmente. Como mencionei, a magia exige que perturbemos o equilíbrio da natureza através de um cálculo meticuloso.”
Maxi assentiu, lembrando-se de sua explicação sobre a diferença entre mana e magia. A magia ia contra as regras da natureza, enquanto a mana seguia a ordem natural.
Ela começou a entender vagamente como a acumulação de mana elemental pura amplificava o poder da magia. Satisfeito com seu progresso, Ruth sorriu levemente enquanto enrolava a manga de sua túnica para expor o pulso. Uma pequena runa mágica estava gravada em tinta vermelha em sua pele pálida e veiada.
“Para aprender magia elemental, você deve ter uma runa como esta inscrita em seu corpo na Torre dos Magos. Através desta runa, eu posso acumular mana pura de vento em meu corpo.”
“N-Não seria mais f-fácil para mim aprender m-magia se eu tivesse algo s-similar em meu corpo?” Maxi perguntou, um sutil brilho de expectativa em seus olhos.
“Essas runas só podem ser inscritas pelos magos superiores que residem no topo da Torre dos Magos. Para receber uma, você deve passar por quatro anos de treinamento na torre. Durante esse tempo, você é proibida de deixar Nornui.”
Vendo os ombros de Maxi se curvarem em decepção, Ruth estalou a língua desaprovadoramente.
“Você acabou de começar a aprender os fundamentos da magia. Como pode estar pensando em magia elemental tão cedo? Sugiro que você se concentre em aprender feitiços básicos primeiro.”
“E-Eu só estava perguntando,” Maxi murmurou timidamente, escondendo o rosto atrás de um livro.
Sorrindo, Ruth folheou seu livro antes de se levantar para acender as velas. Embora o dia ainda estivesse na metade, nuvens espessas estavam lançando sombras na biblioteca.
Usando tenazes, Ruth pegou uma brasa do braseiro e a segurou na mecha das velas e das lamparinas de óleo. Maxi esfregou os olhos cansados e continuou lendo, só se levantando de sua cadeira na hora do jantar. Ela recolheu seus livros e rolos de pergaminho.
“Você vai comer na sala de jantar?” Ruth perguntou.
Maxi balançou a cabeça. Ela não conseguia imaginar enfrentar os cavaleiros depois do espetáculo embriagado que tinha feito de si mesma.
“E-Eu pretendo jantar no meu quarto para c-continuar lendo.”
Mas Ruth viu através de sua desculpa.
“Você já viu alguém bêbado briguento? Se tivesse, saberia que se comportar um pouco tolo não é nada para se envergonhar. Por que você não aproveita essa oportunidade para conhecer melhor os cavaleiros? Acho que eles acharam você bastante divertida.”
“E-Eu não quero ser d-divertida…”
Ao contrário do que dizia, Maxi estava intrigada. Os cavaleiros realmente a viam com bons olhos? Ela estava ponderando sobre as palavras de Ruth quando ouviu a porta da biblioteca se abrir. Assustada, virou a cabeça para ver Riftan, ainda armado, entrando na biblioteca.
“Por que você ainda está aqui a essa hora?”1
Maxi deu um salto com o tom brusco dele. Estudou seu rosto, questionando-se se ele ainda estava zangado com ela.
“Eu pensaria que o que alguém faz em uma biblioteca é óbvio,” Ruth respondeu friamente.
Riftan olhou feio para ele, então examinou o conteúdo da mesa. Pratos e bandejas vazias do almoço jaziam ao lado de pilhas caóticas de livros. Uma ruga profunda apareceu em sua testa. Ele balançou a cabeça, perplexo.
“As criadas me disseram que você está aqui desde o meio-dia. Tem estado lendo todo esse tempo?”
“Algumas pessoas gostam de passar seus dias lendo, Sir Riftan, assim como você gosta de passar os seus brandindo sua espada.”
Um sinal de desagrado passou pelo rosto de Riftan. Alarmada pela tensão, Maxi rapidamente reuniu seus livros.
“E-Eu eu estava apenas a-a ponto de sair…”
Riftan rapidamente pegou os livros dela.
“Venha. Pedi aos serviçais que tragam nossa refeição para o nosso quarto.”
“E não para a sala de jantar?” Ruth perguntou.
Riftan olhou por cima do ombro para Ruth.
“Todos os cavaleiros estão preguiçosamente em seus quartos. Eles estavam resmungando sobre como estavam exaustos, então instruí os serviçais a trazerem suas refeições lá.”
Ruth estremeceu. “Esses homens têm uma reserva interminável de energia. O que você fez com eles? Tudo o que fizeram foi oferecer à sua senhoria um pouco de vinho.”
Maxi olhou para Riftan surpresa. Ele tinha punido os cavaleiros por sua embriaguez? Ela abaixou a cabeça envergonhada.
Riftan resmungou. “Percebi o quão indisciplinados eles estavam quando os vi cambaleando embriagados, então dei a eles uma sessão de treinamento intensiva.”
“É claro que sim,” Ruth disse, suspirando alto.
Fingindo não ouvir, Riftan pegou a mão de Maxi e começou a andar em direção à porta. Maxi rapidamente se despediu e o seguiu para o corredor gelado. Ela praticamente teve que correr para acompanhá-lo.
“A-Ainda está i-i-irritado?”
“……”
“E-Eu asseguro, n-nunca mais v-vou beber t-tanto assim. E-Eu não sabia que eu ficaria t-tão bêbada.”
“Não estou mais irritado.”
Riftan avançou novamente. Maxi o seguiu em silêncio, enquanto lançava olhares furtivos para o rosto dele. Seus lábios estavam firmemente pressionados, contradizendo suas palavras.
“Ruth está sempre com você na biblioteca?” Riftan perguntou de repente quando chegaram às escadas.
“P-Por quê?”
Maxi o olhou perplexa antes de assentir lentamente.
“R-Ruth parece passar a maior parte do tempo na biblioteca, e-então ele está quase sempre lá quando eu visito.”
Maxi decidiu esconder o fato de que Ruth tinha se instalado na biblioteca. Ela sentiu que pelo menos lhe devia isso. Uma leve ruga se formou na testa de Riftan.
“Você não acha o canalha exasperante? Ele é como uma raposa astuta. Ele está sempre arrastando as pessoas para fazer coisas para ele ou usando-os para experimentos estranhos…”
“E-Eu s-sou a única q-que está sempre o-o incomodando. E-Ele tem uma personalidade dificil, m-mas ele m-me ensinou muito. E-E ele foi de grande ajuda q-quando eu c-cheguei ao c-castelo.”
Riftan parecia ficar ainda mais contido. A estranha tensão deixou Maxi ansiosa. Será que Riftan não gostava de Ruth? Ela havia visto os dois homens trocarem farpas sobre os assuntos mais triviais, mas havia pensado que compartilhavam um vínculo de confiança. Sem saber o que fazer, ela desviou os olhos nervosamente.
“Você gosta de homens inteligentes?” Riftan perguntou enquanto se aproximavam da porta do quarto deles.
Maxi ficou surpresa ao perceber que passar tempo com outro homem era a razão do descontentamento de Riftan. Ela nunca havia pensado em Ruth dessa maneira, e nunca lhe ocorreu que seu marido poderia achar a situação desagradável. Empalidecendo com o pensamento de que Riftan poderia duvidar de sua fidelidade, ela rapidamente tentou se defender.
“N-Não, não gosto! E-Eu respeito o Ruth, m-mas nunca pensei nele assim! E-Ele é excessivamente crítico e r-reclama toda vez que pode! O s-seu amplo conhecimento tem s-sido útil, e eu sou grata p-por sua ajuda, mas… e-ele reclama m-mais do que minha ama! Ele s-sempre tem uma opinião sobre tudo! E-Eu nunca poderia… é-é você quem eu—”
Ela fechou a boca abruptamente. Riftan a observava com uma expressão vazia no rosto. Ela abriu e fechou a boca como um peixe antes de abaixar a cabeça. Ela podia sentir pelo calor em suas orelhas que seu rosto estava vermelho como um tomate. Quando o longo silêncio se tornou insuportável, ela retomou seu discurso.
“S-Se você está c-curioso sobre o tipo de homem que g-gosto… eu gosto de h-homens que são d-ded…dependáveis, c-cavalheiros, e b-bons com c-cavalos.”
“Você está…”
Ouvindo um estrondo alto, Maxi olhou surpresa para cima. Riftan tinha batido com a cabeça na porta. Com a testa ainda pressionada contra a madeira, ele soltou um longo suspiro.
“Você não me tentou o suficiente?”
“T-Tentar você?”
Depois de olhá-la com os olhos estreitos, Riftan segurou sua mão, abriu a porta de seu quarto e a puxou para dentro. Quando a porta se fechou atrás deles, ele a pegou no colo e a pressionou contra a parede.
- 🙄🙄🙄🙄[↩]
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